Só mais um Silva

Este é um texto de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

Francisco Silva era seu nome. Nasceu em 1995, mês de maio, dia não importa. Desde pequeno soube o que era nascer não tendo tantos privilégios na vida. Comida às vezes não tinha — a mãe o fazia dividir com os 2 irmãos mais novos. Morava em uma favela que ficava ao lado de um bairro classe média-alta em Fortaleza. Diferente das casas imensas e dos prédios luxuosos ao lado, quando chovia muito a água inundava o pequeno lar daquela família, levando embora o pouco que tinham.

Hanna era seu nome. Nasceu em 1995, mês de maio, dia não importa. Desde pequena soube o que era nascer com alguns privilégios na vida, embora talvez não tivesse consciência disso. Comida nunca faltou. Filha única, morava com a mãe e os avós, que trabalhavam e lhe davam tudo do bom e do melhor. Morava em uma casa enorme, em um bairro não tão luxuoso assim — era até humilde — porém, sua casa era a maior da rua.

Francisco era um menino estudioso, adorava matemática e conciliava os estudos com o trabalho. Desde os 6 anos já tinha um ofício. Vendia amendoim em algumas ruas pela cidade, aproveitando o sinal vermelho para oferecer sua mercadoria às pessoas em seus carros por 2 reais. Se conseguisse 10 reais por dia voltava feliz para casa, pois era algo que ajudava sua família.

Hanna era uma menina estudiosa, adorava português e nunca teve de trabalhar quando criança para ajudar a família. O primeiro emprego que conseguiu foi, na verdade, um estágio aos 21 anos.

A medida que Francisco foi crescendo, os problemas aumentavam e ele tinha que trabalhar mais tempo do que estudar, caso não quisesse passar fome. Sua mãe já era velha, e era o pouco que ele conseguia que praticamente sustentava a todos no lar. A primeira vez que serviu de “mula” – como são chamadas as pessoas que levam drogas para o comprador e recebem o dinheiro –, “deu azar” e foi pego pela polícia. Achava que ia conseguir ao menos o necessário para uma semana. Não deu.

Hanna estudava na melhor universidade do Ceará, uma das melhores do Nordeste e do Brasil. A família ralava para ela ter a oportunidade de estar ali e conseguiam dar aquilo para ela, diferente de milhares de famílias brasileiras que não têm o que comer agora mesmo, no momento em que você está lendo isso pelo seu computador, celular ou tablet.

Quando Francisco entrou no presídio, foi logo obrigado a escolher entre as duas maiores facções do Estado. Era isso ou morrer. Escolheu. Lá aprendeu sobre armas, sobre qual o crime que dá mais dinheiro, qual o modo de traficar sem ser pego pela polícia, dentre milhares de outras coisas nos dias em que ficou lá.

Francisco tinha sonhos e Hanna também. Um teve mais oportunidade de conseguir realizá-los que o outro. Hanna teve mais sorte, digamos.

Francisco é só mais um Silva para o qual a estrela não brilha.

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