Um Lugar ao qual Eu Pertença

Em uma viagem a Gramado/Canela no RS, conheci um documentarista que fazia um trabalho para o governo Sueco de estudo das religiões neo-pentecostais. O objetivo era entender o papel dessa igreja aqui no Brasil e os impactos sociais que ela causava. Essas igrejas queriam expandir para os países nórdicos, mas o governo resolveu entender melhor.

Por quê? Foi a primeira pergunta que eu fiz pro gaúcho. Por que eles se incomodariam em pagar um estudo (que não é nada barato) para decidirem se permitem ou não aquela igreja no país deles?

A resposta é a mesma de outras questões às quais as vezes não damos importância: o que acreditamos é decidido por nós ou é um reflexo do mundo em que vivemos? Somos capazes de escolher no que acreditar? Somos livres para acreditar no que quisermos? Essas crenças tem influência sobre as nossas atitudes?

É só olhar em volta, ou melhor: role a sua timeline. Se você tem amigos / familiares que são ávidos religiosos, sabe que boa parte de suas interações são baseadas em sua crença. Inclusive, é o assunto da maiorias das discussões por aí. Indo mais além, viajando ali para o Oriente Médio, vemos muitas pessoas que devotam suas vidas e sacrificam milhares de outras (o que não tem nada a ver com isso) na cega e interminável busca por salvação e reconstrução de um califado, segundo sua religião. Mas a motivação de todos esses soldados nem sempre é uma escolha deles mesmos. Pelo menos, não plenamente. Existem dependências socioeconômicas e culturais que ultrapassam as barreiras da auto-motivação. Da mesma forma que ninguém nasce bandido ou terrorista, ninguém nasce pastor, padre ou monge. É uma construção. E como construir um prédio, isso é feito com os materiais disponíveis e no local determinado. E a possibilidade de mudar a construção de lugar, ou utilizar outros materiais é similar a de idealizar algo novo em que acreditar. Nem sempre temos fácil acesso a livros ou pessoas de crenças diferentes com as quais talvez poderíamos nos identificar melhor. Mas a vida é isso. É a constante procura pelo que nos falta, e isso só é possível quando nos mantemos dispostos a conhecer o novo.

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Mário Sérgio Cortella diz no seu livro “Porque Fazemos o que Fazemos”:

“Nós somos seres de insatisfação. Há muito tempo havia um joguinho, que era um quadradinho de plástico com letras ou números dentro dele, e você os movimentava para formar uma frase ou uma sequência numérica. Um passatempo simples, mas que carregava uma lógica interessante. Para você mover o jogo e fazer uma sequência, precisava do espaço vazio, senão não havia movimento.
O que é ser humano? É a capacidade de ter essa lacuna. Uma vez preenchida, estamos desumanizados. De maneira geral, um cão, um gato, um cavalo já estão com seu jogo preenchido. Não há espaço para movimentação. Ele é o que é (…) Mas eu posso. Consigo montar o meu jogo de outros modos. Mas isso exige que eu tenha o tempo todo uma lacuna interior. (…) Quando o sujeito tem a sensação do nada, tudo passa a ser possível. Por isso a escolha se dá a partir da angústia.”

Ou seja, a angústia do não saber o que sentir ou o que escolher, a fome por mudança, tudo isso é o motor da busca — e a busca é o que nos torna humanos.

Pensa comigo: vivemos em um mundo em que o ódio e as demonstrações de intolerância estão cada vez mais descaradas e isso contamina o ambiente e a nós, habitantes dele. Se cada um de nós tomar a consciência da busca constante pelo que nos completa, perceberemos que precisamos estar abertos às infinitas opiniões e crenças que existem por aí. Só assim teremos mais chance de conseguir a nossa emancipação, a liberdade de escolha, de encontrar o que é, de fato, nosso. Só no Brasil existem mais de 33.000 religiões/ crenças — segundo o meu amigo do primeiro parágrafo — ,é impossível fazer com que todas as pessoas sigam o mesmo caminho.

Mas te faço um desafio: você já parou para pensar se o que você acredita realmente transmite aquilo que você é? O que guia nossas atitudes diariamente são os nossos valores, que podem ir ou não de encontro com o ambiente no qual você está inserido. Se a sua família inteira é católica, por exemplo, e você seguiu isso a vida inteira, não quer dizer que isso seja o que você acredita de fato.

A escolha do que ou em quem acreditar vem de dentro, e precisa ser descoberta dentro de você — o que muitas vezes está escondido embaixo da inércia do óbvio. Mas isso não é nada fácil. Requer amadurecimento, tempo e percepção. Muitas pessoas passam a vida sem prestar atenção nisso, outras tem sorte e realmente se encontram naquilo em que já conhecem. Mas existe a terceira possibilidade: aquelas que sentem-se incomodadas e/ou incompletas.

Independentemente do grupo em que você se vê, o que importa é que você sinta-se bem e respeite o outro. Afinal, aquela pessoa que pensa diferente de você (afinal são 30 mil religiões), pode ter encontrado paz naquela decisão e pode ajudar você a encontrar a sua. Não é simples encontrar-se no universo, aquele lugar em que você se sente pertencente, que traduz os seus sentimentos em palavras e ações. Mas essa parte, na verdade, é uma consequência de uma procura mais importante e sem dúvida mais difícil: a de encontrar-se em si mesmo.

I will never know myself until I do this on my own
And I will never feel anything else, until my wounds are healed
I will never be anything ’til I break away from me
I will break away, I’ll find myself today
Somewhere I Belong — Linkin Park

Inspirações do Texto:

Literatura: "Porque Fazemos o que Fazemos?" Mario Sérgio Cortella; "A Fênix Islamista — o Estado Islâmico e A Reconfiguração do Oriente Médio" Loretta, Napoleoni

Música: Meteora (álbum) — Linkin Park