photo by: Ligia Luz

Voltamos ao “Ame-o ou deixe-o”

Nossa casa está com problemas

De todas as formas possíveis, falar sobre o nosso país sempre foi traumático. Mesmo antes do “Ame-o ou deixe-o”, qualquer forma de tentar refletir sobre o país, de alguma maneira, vê a nacionalidade e a identidade nacional com maus olhos.

Vários teóricos tentam encontrar alguma linha guia da identidade da nação, características que sejam comuns a todos. Isso no campo acadêmico.

No senso comum, a negatividade já se mostra mais presente. Não preciso entrar nos números absurdos de assassinatos, casos de violência policial, mortes no transito, racismo, feminicídio, homofobia, transfobia, além de roubos estatais com cifras bilionárias. Poderíamos ficar um dia todo nisso.

Vou tomar a liberdade de propor um exercício. Um exercício de imaginação de mudar um pouco o olhar pessimista, que tem ótimas razões para existir, mas que não nos leva a nada. Mesmo que aqueles que ousam levantar soluções para nossas mazelas, soluções que não terminem em genocídios em massa, por vezes sejam repreendidos com os famosos: “não tá satisfeito, vai embora”; “vai querer ajudar bandido agora?”; “só matando”; “tem mais é que jogar na cadeia e deixarem se matar”; “vai pra Cuba, seu comuna”; “fora todos”…

A regra geral é: ou você é extramente radical e pessimista, ou gosta de bandido e criminoso. Qualquer um que se atreva a tentar achar uma resposta para tantos problemas — que não seja tocando fogo no país ou matando todo mundo na sua frente — é tão ruim quanto qualquer outro.

Vai mesmo falar bem desse lugar aqui? Mesmo no estado em que as coisas estão?

Não, não vou. Mas vamos mudar o ângulo da leitura para enxergar além do básico.

Imagine o Brasil como a sua casa, seu lar, de fato. É o lugar onde você mora e é o único que você tem, pelo menos por agora. O teto tem goteiras, o encanamento está horrível, o reboco da parede está caindo, a grama do patio está grande, parte do forro está mofado, há cupins na madeira, a fiação está com mal contato.

Bem, você mora aqui nessa casa e não tem como se mudar, então alguém vai ter que consertar isso. E a gente não mora sozinho, tem mais pessoas que dividem esse espaço. Que também dependem desse teto. Não foi você quem deixou o lugar assim, foram várias coisas e pessoas que nos trouxeram até essa situação, mas quem mora nele agora é você. E, por vários motivos, as pessoas que moram nele também não se gostam, exatamente. Vivem brigando.

A unica regra desse jogo é: não pode excluir ninguém da casa.

Como e por onde você começaria o conserto?
photo by: Davidson Luna

Reconhecer os problemas de onde você mora não faz de você a pessoa mais ingrata do mundo, nem merecedora de exílio. Ao contrário: prova que você tem atenção à realidade a sua volta. Entretanto, não se esquive da responsabilidade de ajudar na obra.

Não quero ser reducionista e comparar a administração de um país a como organizar uma casa. Mas é uma boa maneira de sair do simplismos do “foi sempre assim” e do “o Brasil não tem jeito”. Não cobro altruísmo de ninguém. Não tem como. Mas não se esqueça de que quando falam “o país do jeitinho” e “por que brasileiro é muito acomodado”, você também está nele. Vive nesse mesmo lugar. Você e milhões de outros.

Mas então, qual a resposta que você está dando?

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