Cena do filme Paperman (no Brasil: Tempo de Crescer)

Aprenda com um andarilho

Ei, já parou pra pensar no seu caso de fracasso? Já se perguntou alguma vez: e se tudo, hoje, desse errado, o que aconteceria comigo amanhã? O que de pior pode acontecer comigo? Sério, pergunte-se aí, fique uma meia hora pensando e depois você continua lendo o texto, ele não vai fugir.

O que de pior pode acontecer com você?

A máxima resposta que alguém acabará por pensar é a morte. Mas, morrer é o que nos faz invariavelmente iguais. Talvez a morte seja o momento em que toda pessoa descobre que sucesso ou fracasso são como um pretexto para encontrar maior propósito para a vida, para que faça sentido.

Então, volto à pergunta, o que de pior pode acontecer a você?

Se você já vive neste cenário, parabéns, você é uma pessoa de sorte. Tem a oportunidade de ler esse texto e testá-lo em outro nível de profundidade.

Cada um tem sua própria resposta. Não é simples e fácil, não é bonito e interessante passar por isso. Mas qual é sua compreensão do fracasso? E o quanto você está preparado para passar por isso?

Há um culto do sucesso na sociedade. O sucesso foi e é ensinado de forma programada. Dizem nas famílias, dizem nas escolas, nas universidades, dizem na mídia, nas empresas, dizem por toda parte que só o sucesso leva à felicidade, e mandam você ser o melhor, se destacar, como se você precisasse, para “ser alguém na vida”, se desprender dos demais, aqueles seres comuns e “impuros”. Do contrário ninguém irá se interessar e correrá o risco da mediocridade. (Sugestão para ler: http://pt.slideshare.net/augustodefranco/a-desastrosa-idia-de-sucesso)

Isso é o que alimenta os pesadelos modernos da rejeição, que induzem exageros da posse e do trabalho, os extremos da aparência e do isolamento, e que consequentemente lotam as clínicas de tratamento psicológico.

Por todo tempo, buscamos aprovação social. Basta lembrar que para cada local moldamos uma máscara diferente. É a tal necessidade de ser aceito que Abraham Maslow definiu como a necessidade de estima ou pertencimento a um grupo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Hierarquia_de_necessidades_de_Maslow). Para tanto, você age conforme as pessoas esperam que você seja. É uma projeção que finge, imita e adota comportamentos que nem sempre são condizentes com quem você de fato é.

O bem sucedido é o exemplo feliz, já os que fracassam muitas vezes são associados às sombras do mundo. Prova-se isso com o caso daqueles que são marginalizados tais como os mendigos, os pobres, criminosos, viciados. Ou, em menor medida, quando as razões são o desemprego, as profissões que escolhem, as roupas que vestem, as deficiências que tem. Aqui vale citar o estudo sobre “Invisibilidade Social” que o Psicólogo Fernando Braga da Costa fez, ao se passar por gari, relatado nesta matéria — http://www.arcabr.com/psicologo-varreu-as-ruas-da-usp-para-concluir-sua-tese-sobre-a-invisibilidade-publica/

Esse culto ao sucesso cria verdadeiros absurdos sociais, frutos de uma cultura que constrói constantemente padrões em que quase todos se apegam. A sociedade dos padrões gerou o “politicamente correto” e ditou para seus filhos quais são os modelos e fórmulas para estar na frente, quase sempre em detrimento do outro. Claro! Estamos — segundo alguns destes padrões — constantemente em guerra, numa divisão de lados, luta do bem contra o mal, o vilão contra o herói. A perturbadora coincidência é que o herói sempre vence e o vilão fracassa.

O quanto não estamos perseguindo uma ilusão de sucesso acreditando que temos controle de nossas vidas, quando na verdade não controlamos nem mesmo nossa opinião, por vezes impulsiva; nosso julgamento, muitas vezes infundado; nossas emoções, quase sempre precipitadas?

Não há diferença entre sucesso e fracasso. A diferença entre sucesso e fracasso é a própria “diferença”. Esta mesma diferença que pode te tornar indiferente quando bem sucedido.

Um risco do bem sucedido é cair no erro de não crer existir muito de bom no fracasso. Por isso, ele busca os que lhe são iguais, e projeta-se naqueles que lhe extrapolam o status. Mas não raro é indiferente ao que fracassa, já que não vê proveito no fracasso.

Ele rejeita, porque, em verdade, teme. Assim, estar no estado de fracasso representará angústia, “pré-ocupações”, ansiedade e pouco se aproveitará da experiência. Pois, eis o que são: experiências.

Esquecem a história dos que viveram no passado e levaram uma vida de fracasso na visão social de suas épocas, mas sobressaíram às necessidades mundanas. À exemplo de tantos que passaram pela miséria ou mesmo que foram hostilizados e morreram por defender suas ideias, tais como Jesus Cristo, Paulo de Tarso e os demais apóstolos, Galileu Galilei, Joana d’Ark, Walt Disney, Gandhi e outros.

Ou desconhecem os diários de pessoas comuns que estão por aí, às vezes assentados bem ao lado, escondendo para si aquele “case de fracasso” que na verdade desejam esconder de si mesmos. (Segue um interessante vídeo sobre fracasso, com mais algumas declarações)

https://www.youtube.com/watch?v=1XAtNuIm5UQ

Também cabe falar de outros comuns de nosso tempo, como a história do empresário australiano Chris Parnell que foi preso subitamente e acusado de contrabandear vinte quilos de haxixe em Bali, Indonésia. Para evitar um julgamento e uma possível sentença de morte, ele fingiu ser louco e foi trancado em um hospital psiquiátrico. Numa primeira tentativa de fuga acabou pego e sentenciado à prisão perpétua. Tentou fugir por mais duas vezes frustradas e nos 11 anos seguintes na prisão passou perto da morte, sendo até mesmo declarado morto no necrotério da instituição. Chris foi solto em 1996 após a pressão do governo australiano. (Link: http://migre.me/iYYz2)

Ou a história real contada no filme “12 anos de escravidão” em que o protagonista Solomon Northup, negro e livre, em 1841 é sequestrado e transformado em escravo, permanecendo por todo este tempo em intenso sofrimento e risco, longe de sua família. (Trailer☺

https://www.youtube.com/watch?v=B2UNiMIxOm0

Muitos acreditam que com o tempo, o amadurecimento torna o homem invulnerável. Embora a maturidade pelos anos de vida revele outra verdade. Que tanto fez ter sucesso ou fracassar, e tanto faz. Mais cedo ou mais tarde, ao contrário, se aprende a ser vulnerável. Pois na queda você sempre se lembra de que todo ciclo tem um fim. Não a vida, que continua fluindo, como um grande rio. E no rio da vida a correnteza seguirá seu fluxo, certamente.

Sua vida é uma rede em várias dimensões. Mas nossa visão cobre apenas um ângulo pequeno e nossa mente imaginou o mundo turvo, porque é o que parece quando se escuta muito as multidões internas e externas, do imediatismo, do materialismo, da superioridade, da generalização, do racionalismo, em seus extremos.

Assim o homem gasta sua energia nadando contra a Correnteza, até que, por fim, a compreende.

Você vê ligação em todos os instantes de sua vida? Percebe os detalhes, as coincidências como sinais, os fatos isolados, você sente fatos interligados? Já tentou sentir este rio?

Perceba o rio da Vida. Compreenda a correnteza das Experiências. Veja a ligação das experiências que lhe ocorrem há tanto tempo e desfrute-as, sejam elas boas ou ruins, na sua forma de ver. Afinal, a correnteza sempre faz um Sentido com o rio. Como o sentido da vida.

Tudo isso para lhe recomendar que pratique sua natureza com mais tranquilidade e bom humor; quero dizer, se há um rio e se ele representa a vida, de onde veio toda essa água que anima o rio?

Quanta incerteza não há na vida? Se soubermos 10% do que envolve a humanidade e o planeta, o quanto desconhecemos da história passada e do Universo? Há um imenso vácuo na humanidade que deixa no ar uma eterna pergunta: “Por que estamos aqui?”

E por mais que se tente responder com especulações à cerca de teorias biológicas, big bang, acidentes de percurso, probabilidades e tantas outras, o vácuo do desconhecido permanece mantendo a pergunta viva, o que é ótimo. Perguntas não trazem definição, mas, ao contrário, geram movimento, promovem busca, repercutem tensão.

Há uma frase popular e que muito diz com muito pouco. É que “nada é por acaso”.

Portanto, parta do princípio de que tudo tem um propósito maior, inclusive sua história de vida. Veja! Quantas pessoas estiveram envolvidas direta ou indiretamente no seu Projeto de vida? Quantos amigos, quantos desconhecidos, quantos professores, quantos, por um instante, agiram com confiança em você nas pequenas coisas do dia a dia, ações anônimas que mudaram não só o curso da sua história, mas, sabe-se lá, da história do mundo num “efeito borboleta”? (http://pt.wikipedia.org/wiki/Efeito_borboleta)

Algo sobre o fracasso é que ninguém vai bater tão duro e te colocar de joelhos como a vida. Tal como Rock Balboa no sexto filme diz para seu filho, cena que deixo aqui para vocês assistirem.

https://www.youtube.com/watch?v=UCq4M-pZBgc

O fracasso é sempre parte no caminho.

É aí que está a diferença entre humanos e animais. Os seres humanos, não irão apenas sobreviver, mas perseguir o sucesso adaptando a vida nos diferentes habitats do planeta. Já os animais são estritamente conformados em sua própria natureza. Se a certa idade de pássaro, uma mãe andorinha percebe que seu filhote já cresceu o suficiente, ela não hesitará em jogá-lo do penhasco, ainda que muito provavelmente o filhote espatife no chão por não estar preparado ou num bom dia, fatalmente ele cairá.

O que está em jogo aqui é outra forma de ver as experiências. Como mudar, pensando e sentindo da mesma forma antiga?

Se quisermos revolucionar a sociedade e mudar o mundo é certo que, independente do rumo de decisões a tomar, será importante, como primeira competência a desenvolver, a resiliência para fracassar, porque para sonhos tão grandes de personalidades tão complexas não se pode esperar que o sucesso apareça em uma única vida.

Pouco sentido se vê para a vida, tanto que muito se pergunta sobre um sentido para ela, ao passo em que há alguma coisa acontecendo aqui e que lhe colocou exatamente aí, aonde está, no melhor lugar em que poderia estar para evoluir, certo de que vive num universo dentre muitos possíveis, por uma vida preparada pra você e por você, ao qual encontrar a razão da experiência depende de partir do princípio de que esta razão existe. Dessa mesma forma também se aplica a outros aspectos. A qualquer estado social em que vivermos, parta do princípio sempre de que há uma razão e que nada é por acaso.

Seja como aquele andarilho que independe das aprovações sociais para expressar quem é em essência, aquele que independe das conquistas materiais e de surgir no horizonte dos medianos; seja alguém autossustentável, não que se isola em uma dimensão destacada, mas que demonstra na realização da convivência com todas as pessoas-comuns a autossuficiência humana e a verdadeira riqueza.

Por tudo isso, aprenda com um andarilho!