23º Encontro de Camisas de Futebol

Amantes do futebol se reúnem para expor suas coleções e trocar histórias.


Aconteceu no penúltimo sábado, 19, o 23º Encontro de Camisas de Futebol. O evento ocorreu em paralelo com uma reunião de torcedores lusos da Portuguesa e reuniu mais de 20 colecionadores e 300 curiosos que passaram próximo ao local e ganharam alguns minutos de histórias deliciosas. A atração que buscava enfatizar camisetas portuguesas — sendo elas nordestinas, cariocas ou paulistas — mostrou-se muito democrático e aberto para todos os tipos de coleções. Pelo loca, era possível encontrar desde camisas do Barcelona, da Espanha, até do tradicionalíssimo Juventus da Mooca. A diversidade do espaço estava garantida, além de brasileiros, o evento contou com a presença de estrangeiros, como no caso do tunisiano Wisam Selmi, que está no Brasil há três meses e detém uma coleção de mais de 200 camisas.

Danilo Moura, colecionador da Velha Guarda e apaixonado pela Fiorentina demonstrou-se vislumbrado com a imensidão do primeiro evento que participou: “Pra quem gosta de camisa, isso aqui é a Disney. Um monte de coisa que você quer, um monte de coisa bonita”. Danilo também conta que coleciona camisas há mais ou menos 20 anos: “Comecei quando eu era moleque com uma camisa da Fiorentina. Quando você fala da Fiorentina, o pessoal que curtiu nos anos 90 lembra dessa (camisa). Temporada 98/99, uma coisa sensacional”.


Fora do Brasil eu já fui pra Alemanha, mas eu não sabia que estava acontecendo um encontro. Por acaso eu passei, não tinha camisas para trocar, não tinha grana para comprar, então o que eu passei na verdade foi muita vontade (risos). Muita vontade.”, Caio Prazeres.

Mil ideias

A diversidade de coleções era gigantesca. Tinha de tudo: camisas das super-potencias europeias, dos pequenos, de times do leste do velho continente, times de várzea, grandes do Brasil, argentinos, uruguaios, estadunidenses…Um mar de camisas estava distribuído pelas mesas do evento. Desde as antigas e românticas, ainda de pano, até as super-tecnológicas do New York City FC. Desde as de cunho político como St. Pauli, até as de times marcantes, como as do Barcelona.

“Cheguei há mais de 400, com certeza. Eu mantive só as minhas do São Paulo, que é o time pra qual eu torço e tenho como foco da coleção o Celtic, de Glasgow, da Escócia, da seleção escocesa, o St. Pauli, da Alemanha, que é um time que tem um cunho político com o qual eu me identifico. É uma das mais complicadas de arrumar, são as do St. Pauli. Eu tenho quase 20”, diz Caio Prazeres.

O colecionador Danilo Moura demonstrou ser fã do futebol jogado no oeste europeu: “meu foco é nas camisas de fora: Fiorentina, Barcelona; oeste europeu.

Já o santista Wendell repugna-se só de pensar em ter uma camiseta de algum rival: “Mas tirando do Santos, time do Brasil? Por enquanto eu não consigo ter de outros times; Corinthians, Palmeiras, São Paulo…”. O também santista Diego demonstra uma conexão com times pequenos e da seleção japonesa, “Eu tenho outro foco também: camisas de seleção japonesa, que eu gosto pra caramba, tem umas 40. E times pequenos da Europa, que é meu foco, né!”.

Torcedor da Portuguesa, Bob, também é fascinado por times menos expressivos, “Só que o meu grande foco são camisas de fora; camisas alternativas de times de fora. Então tenho camisas de times da República Tcheca, camisas de times da Ucrânia…”.

Mas na Tunísia você costumava ir?
Wisam: Não, na Tunísia não por que não tem quem coleciona camisa. Só eu mesmo (risos).

Amor varzeano

Talvez a parte mais romântica do futebol seja a várzea. A proximidade que os torcedores estabelecem com o time cria uma conexão que muitas vezes parece mostrar-se até mais forte que outras relações futebolísticas.

O santista Wendell foi eternamente anestesiado e entregue ao amor do time de várzea da sua comunidade, “Eu tenho do time de onde eu moro: Vida Loka, Zona norte, da Brasilândia. É o time da comunidade. Tenho mais de 50(camisas), também. Camiseta, boné, calça. Tudo do time eu tenho. É o time da vila, tem torcida, tem bateria”.

Além disso, o torcedor mostra como nenhum outro time de comunidades tem espaço em seu coração, “de várzea mesmo só dele (Vida Loka) por que de outros times eu não uso. Por que é o time da comunidade, né?! Não adianta eu usar aqui do Vida Loka e ter do nosso rival — que eu não vou dar nome pra ele, que é da Freguesia do Ó — e usar do nosso rival. É só de um time só!

Invisibilidade midiática

Por mais que seja humanamente impossível manter-se atento a todas as manifestações culturais em uma cidade como São Paulo, eventos como estes relacionados ao esporte e o Museu do Futebol Paulista não poderiam, de maneira alguma, passar despercebido pela grande mídia. Apesar deste desdém, o 23º Encontro de Camisas de Futebol mostrou-se autônomo o suficiente para levar-se sozinho sem nenhum apoio que não o do próprio Museu do Futebol.

As grandes mídias estão há um certo tempo deixando de lado o seu compromisso com a divulgação cultural. Bob, frequentador dos eventos e torcedor da Associação Portuguesa de Desportos, a Lusa, afirma, “Mesmo sem ter essa divulgação por grandes imprensas, o interessante é que sempre tem um bom público(…). Se a mídia divulgasse mais, trabalhasse em cima disso, seria muito melhor, porque muita gente não sabe (da realização destes eventos)”.


o tunisiano Wisan
“Ah, sou flamengo. Sou rubro negro!”, frase do tunisiano Wisam Selmi.

As redes sociais

Para compensar essa falta de coberturas jornalísticas, os colecionadores adotaram medidas para manterem os encontros e o hobby vivo. As redes sociais e a internet foram ferramentas fundamentais para a comunidade de colecionadores manter contato, realizar eventos, trocar e dialogar sobre camisetas.

O santista Diego afirma que só teve contato com outras pessoas pelas redes sociais, “Depois eu descobri os grupos do Facebook mais recentemente, que é onde você consegue muita coisa, muita variedade, conhece gente”.

“Durante muito tempo eu achei que eu era o único colecionador de camisa do mundo, porque eu não conhecia ninguém que fazia isso. E um belo dia eu descobri no Facebook que tinha outras pessoas como eu, comecei a entrar pros grupos e me senti parte de um grupo. Isso faz uns seis anos, mais ou menos. Mas eu passei durante 20 e poucos anos sozinho fazendo a minha coleção sem trocar com ninguém, só acumulando”, conta Caio Prazeres. Colecionador e guia turístico mostra toda a sua comoção durante os anos que se sentiu sozinho no hobby.

“Esse (encontro) aqui é o maior, mas tem mais encontros na cidade, em vários lugares. Tem um na zona norte que tem muito sempre, num local em que um dono de restaurante corinthiano, que acho que tem a maior coleção de camisas do Corinthians, enorme. Eu sou santista, mas você entrar naquele ambiente é lindo! De camisas do Corinthians antigas até as mais novas. Temos um encontro lá”, um fascínio de Diego, alvinegro praiano, pelo também alvinegro Corinthians.

Antigas coleções…

Colecionar camisas de futebol deve ser uma das atividades mais antigas no âmbito esportivo, desde a criação da modalidade. Porém, antes desconectados, os colecionadores não faziam ideia de que existiam outras pessoas como eles e acabavam apenas acumulando.

O são-paulino Caio Prazeres mostrou-se ser um colecionador das antigas, “Ah, (coleciono) desde os 15 anos, faz quase 30 já!”. E, também, como neste longo tempo sua coleção passou por diversas alterações e interferiu no seu armário, “Vendi a maior parte delas por causa de falta de espaço para guardar”.

Hoje, Caio não se dá mais ao trabalho de contar as aquisições, “Faço questão de não saber. Uma característica que eu tenho é que eu não conto as minhas camisas”.

Diego, conta da sua coleção de exatas 187 camisas santistas, “Eu tenho 187 camisas do Santos”. Ao todo, o alvinegro passa dos 650 artefatos: “(de outros) eu tenho umas 480 e tanto, mais ou menos”.

… mas para poucos

Por mais que colecionar camisetas de futebol seja uma coisa muito legal, é uma atividade complexa de se manter. Não apenas pela alta demanda de energia no hobby, mas um dos grandes impasses para se manter efetivo no sonho é a necessidade de uma renda alta e autossuficiente: “É caro. É um hobby caro”, Danilo Moura.

O fato é relevante o suficiente para conseguir afastar mais integrantes e amargá-los. No caso de Wendell, o contato com a paixão custou a engrenar, “Eu sempre gostei de camisa de time. Desde antes quando eu não tinha uma situação financeira melhor. Eu sempre tive vontade de ter a camiseta dos times”. Pelo menos enquanto seu clube de várzea conseguiu manter as pontas: “Só do Vida Loka (time de várzea), que era bem mais barato

Já Diego, conseguiu dar a volta na barreira dos preços buscando os mais acessíveis, “Desde que eu comecei com camisas piratas, né, que era a única coisa que dava pra encontrar quando eu era mais novo”.

Tenho uma camisa de um time de várzea da cidade de Split, na Croácia, um cliente me deu. É do time que ele joga, é um time absolutamente amador, só existem as camisas que foram feitas pro time e é uma que não entra em mim mas é absolutamente inegociável”, Caio Prazeres.