A Democracia Corintiana

O poder que emana do povo

Corinthians estampa no uniforme a chamada para eleições diretas de 15 de novembro de 1982 , para a escolha do Governador do Estado. Foto: Trecho do filme “Democracia em Preto e Branco”.

Por Pedro Gomes e Thiago Felix

Combinação Democrática

Nenhum terreno inóspito para a liberdade de ideais e fértil para repressões foi suficiente para impedir o nascimento de um movimento que ajudou a mudar o Corinthians e, acima de tudo, contribuiu para as mudanças no Brasil.

Com a saída de Vicente Matheus da presidência do Corinthians, abriu-se um espaço para a chegada de Waldemar Pires. Além do novo presidente, o clube recebeu um novo gestor do futebol no clube, o sociólogo Adilson Monteiro Alves, filho do dirigente Orlando Monteiro Alves.

A combinação de um sociólogo comandando o futebol do clube com jogadores politizados e rebeldes — como Dr. Sócrates, Casagrande, Wladimir, Zé Maria e o zagueiro uruguaio Daniel Gonzales — somados à nova presidência de Pires, formaram a combinação perfeita para o nascimento da Democracia Corintiana. Com início no ano de 1982, permaneceu até o final de 1984, depois de conquistar o bicampeonato Paulista de 1982/83.

Diversas personalidades foram importantes no processo de divulgação e construção do movimento político que nascia no Corinthians. O Publicitário Washington Olivetto foi um dos responsáveis pela escolha do nome. O Jornalista Juca Kfouri, sempre presente nas reuniões, e o médico do clube, Flávio Gikovate, também contribuiram para processo de democratização do clube.

Em termos de futebol e do clube, a Democracia Corintiana deu voz aos jogadores. Eles opinavam nas palestras do técnico, na escalação, na escolha de novos atletas, etc. A concentração e seu conservadorismo era outra pauta importante do clube, foi determinado que casados poderiam ficar fora da concentração, apresentando-se apenas para o almoço. Bebida alcoólica não era mais tabu, todos tinham liberdade para tomar cerveja. Reformando a constituição do clube, Zé Maria, Sócrates e Wladimir tornaram-se conselheiros. Liberdade era o lema.

Gaviões da Fiel e a Democracia Corintiana

“Gaviões nasceu para combater o Wadih Helu (na época atual presidente do clube), deputado que era do partido Arena (militares), que se elegia sucessivamente usando o prestigio do Corinthians. Foi um movimento da arquibancada para dentro do clube”, diz Chico Malfitani, fundador da Torcida Organizada Gaviões da Fiel.

Chico enfatizou a importância da democracia para o Brasil e a influência do Corinthians no Processo.

“Na verdade, o Corinthians é o Povo, e o maior interessado na democracia é o povo. Corinthians e Democracia tem tudo a ver, uma coisa é sinônimo da outra, unir o povo pelo direto de votar e protestar. Não podemos esquecer da fundação do clube, em 1910, criado por operários que também queriam jogar futebol, até então, um esporte da burguesia”.

Sobre a influência do movimento para a próxima geração, Chico mantém a esperança. “Olha, a história nunca é definitiva, ela é dialética. Nós estamos vivendo um momento difícil no país e no futebol. Hoje vivemos em uma sociedade do individualismo e do conservadorismo, um fenômeno mundial. Seguramente estamos passando por um momento difícil no pais, principalmente na falta de informação, a mídia sempre mostrando só um lado da história. Mas amanhã vai ser outro dia, depois da idade média vem o renascimento”.

Chico é jornalista e publicitário. Em 1977, cobriu para revista VEJA a invasão da PUC-SP. “Eu estava saindo de casa para jantar, e recebi a ligação da redação da Veja, me falaram que a PUC tinha sido invadida pela PM do Erasmo Dias. Fui correndo para lá, fui um dos primeiros a chegar. Vi a repressão da polícia, os estudantes sendo colocados em fila indiana, colocados num estacionamento que existia em frente à PUC. Todos os alunos estavam sendo colocados ali, todos sentados olhando para o chão, passando num corredor polonês, o Erasmo Dias enlouquecido, babando de ódio, o policias também. Estavam ali para reprimir um congresso da UNE que tinha sido proibido. Muita violência, jogaram bombas, meninas foram queimadas, foi um clima de muito terror”.

A Gaviões da Fiel foi a primeira entidade a levantar uma faixa contra a Ditadura Militar em um estádio de Futebol, com os dizeres “Anistia Ampla, Geral e Irrestrita.” Em 28 de agosto de 1979, seis meses depois da faixa da Gaviões da Fiel, a Lei de Anistia foi aprovada por Figueiredo.

Gaviões clamam por anistia nas arquibancadas. Foto: Divulgação.

Legado democrático

Motivados pela grande influência da Democracia Corintiana nos rumos do futebol brasileiro, dentro e fora de campo, jogadores e pessoas envolvidas com o esporte mais popular do país continuam usando essa grande plataforma para exporem suas opiniões para o público com a intenção de tentar persuadi-los a compartilhar com seus pensamentos.

Titular da atual equipe e peça-chave para o título brasileiro de 2015 pelo próprio Corinthians, o meio-campo Jadson apoiou abertamente a candidatura de Jair Bolsonaro para as eleições presidenciais de 2018 (confira o vídeo no UOL aqui). O deputado defende publicamente ideais fascistas e retrógrados em sua campanha, e sua política de propagação de discurso de ódio ameaça todos os avanços sociais conquistados bravamente nas últimas décadas. As atitudes e posições de Jadson fazem o torcedor duvidar se o atleta tem o mínimo de consciência da história do clube que o deu tanto espaço, considerando uma afronta aos heróis da Democracia, que marcaram época lutando pela igualdade e pelo progresso ideológico.

Foto: Divulgação.

Tal apoio, porém, acaba levantando outra questão a ser discutida: Até onde podemos vangloriar os feitos dos atletas revolucionários da Democracia Corintiana e o modo em que eles chegaram aos seus objetivos e criticarmos Jadson por, teoricamente, apenas exercer seu direito de liberdade de expressão e apoiar seu candidato de preferência? Devemos tolerar o apoio ao discurso de ódio ou vetar tais posicionamentos pelo fato de apresentarem perigo para o futuro do país e corrermos o risco de ser censurados usando a mesma premissa no futuro?

Esse “Paradoxo da Tolerância” é dissecado pelo filósofo austríaco Karl Raimund Popper, que defende a ideia de que se a tolerância for tão ampla ao ponto de nenhum ponto de vista, independentemente de quão degradador for a posição, for combatido, as pessoas tolerantes serão eventualmente destruídas pelos intolerantes. “A tolerância só pode seguir existindo numa sociedade se seus defensores se dispuserem a também ser intolerante com os intolerantes”, diz Popper. A Democracia vive, seguimos em frente.


Texto originalmente publicado no Contraponto.