A Guerra do Futebol

Diante de questões migratórias, o jogo da ‘pelota’ já ocasionou um conflito armado.


Muitas vezes o futebol é utilizado como bode expiatório para conflitos políticos e sociais. Inclusive, já foi o estopim de uma guerra entre dois países da América Central: El Salvador e Honduras. Após uma sequência de partidas pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970, que foi disputada no México, ambos entraram em um conflito armado que durou por volta de quatro dias, de 14 a 18 de julho de 1969. O combate ficou conhecido como Guerra do Futebol, ou Guerra das 100 horas, que acabou com 6 mil pessoas mortas e milhares de feridos. O tratado de paz, contudo, só foi assinado em 30 de outubro de 1980, mais de 10 anos após o início da batalha.

Mergulhados em um contexto histórico de colonialismo, os países se encontravam em momento de enorme tensão na época. El Salvador tinha a maior densidade demográfica do continente americano — com a maioria de suas terras em posse de 14 famílias de latifundiários — , enquanto Honduras era menos povoada e com um território seis vezes menor. Com isso, a questão migratória era um problema a ser resolvido: houve um êxodo da população para o território vizinho — cerca de dois terços dos rurais de El Salvador encontravam-se sem terra.

Mapa da região. Imagem: Reprodução/http://bit.ly/2ih9QjH

Em Honduras, que tem três participações em Copas do Mundo (1982, 2010, 2014), a população local era de 3 milhões de pessoas, somados a 300 mil migrantes salvadorenhos. O grande número de pessoas que imigraram para o país vizinho incomodou os hondurenhos e os induziu a pressionar o governo para que uma reforma agrária fosse realizada. Tendo que tomar uma posição, a gestão do país desapropriou milhares de terras ocupadas por salvadorenhos, na tentativa de obrigá-los a voltar a seu país de origem. Entretanto, as fronteiras de volta a El Salvador foram fechadas para evitar um problema agrário maior na região e criou-se um antagonismo entre a imprensa, os governos e população das duas nações.

Um sentimento xenófobo hondurenho atrelado ao futebol — que potencializou o ódio de ambas as partes — foi capaz de elevar o nível nacionalista presente nos países. A sensação de pertencimento que o jogo da ‘pelota’ proporciona andou de mãos dadas com o patriotismo e até com a xenofobia. Infelizmente, um conflito armado se desencadeou e estragou a principal qualidade do extracampo futebolístico: a festa da torcida.

As seleções centro americanas disputavam uma vaga na Copa do Mundo de 1970. Em meio a todo este contexto, os jogos também tiveram um teor político dentro e fora de campo.

Podcast da Central 3 sobre a Guerra do Futebol.

No dia 8 de março de 1969, ocorreu o primeiro confronto entre as equipes, em Tegucigalpa, capital de Honduras. Na véspera, o clima de recepção dos hondurenhos foi extremamente hostil e ocasionou em uma noite tensa no hotel em que os jogadores de El Salvador estavam hospedados. Janelas quebradas, explosão de foguetes, barulho de muitos tambores e buzinas destruíram o psicológico dos atletas. No dia seguinte, Honduras venceu a partida pelo placar mínimo, com um gol no apagar das luzes, do atacante Roberto Cardona. Após a derrota, a cidadã salvadorenha Amélia Bolaños se suicidou com a justificativa de que não pôde suportar o revés. Instalou-se uma comoção nacional no país, aumentando o sentimento patriotista de El Salvador e potencializando o ódio presente.

Sete dias depois, a seleção salvadorenha receberia Honduras, em San Salvador, para a segunda peleja. Novamente, os ânimos estavam extremamente exaltados, dessa vez por parte da torcida de El Salvador. Mais janelas quebradas, ratos mortos atirados e ovos arremessados com raiva. No dia do jogo, o time hondurenho teve que ser escoltado até o estádio pelo exército local para evitar qualquer tipo de acidente. Em campo, os donos da casa venceram a partida por 3 a 0. Porém, diversos conflitos entre torcedores foram registrados, ocasionando em dois hondurenhos mortos, dezenas de feridos, 150 carros com a placa de Honduras queimados e o posterior fechamento da fronteira entre os dois países.

A terceira partida, disputada pela repescagem, aconteceu no México, em território neutro. Com esquema reforçado de segurança para separar as torcidas, no dia 27 de junho, as seleções vieram a campo para decidir a vaga. El Salvador derrotou os hondurenhos por 3 a 2 e se classificou para a Copa.

Após os três jogos, o número de pequenos conflitos na fronteira foi aumentando e, com isso, no dia 14 de julho, El Salvador atacou Honduras, por meio de sua força aérea. O conflito armado teve seu estopim e durou até dia 18 de julho, terminando somente após intervenção da Organização do Estados Americanos (OEA) e com os salvadorenhos exigindo a segurança de seus cidadãos presentes em Honduras. Além disso, o exército de El Salvador era consideravelmente maior que o hondurenho, com uma vantagem de 8 mil militares no Exército terrestre — 20 e 12 mil, respectivamente. No fim de tudo, 6 mil pessoas perderam suas vidas, 12 mil ficaram gravemente feridas e cerca 150 mil tiveram suas propriedades destruídas.

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