A queda sul-americana no lado de lá do Rio da Prata

Como Buenos Aires viu a queda de Brasil e Uruguai na Copa do Mundo

Bares na capital argentina pararam para ver rodada ‘sudaca’ na Copa do Mundo, ainda que a Argentina não estivesse mais no mundial (Foto: Paola Micheletti)

Na Argentina desde quarta, a ansiedade pelo jogo do Brasil só aumentava. Era entrar em um táxi que o assunto Copa do Mundo surgia e consequentemente o embate entre a seleção canarinho e a potente Bélgica. Estávamos todos muito confiantes, os brasileiros crentes de que dessa vez o hexa viria e os argentinos reconhecendo a competência de nossos jogadores.

Foi na reunião da capa do La Nación, em que estava como ouvinte, que o editor de esportes destacou a relevância das duas partidas que aconteceriam na sexta para os leitores de um dos maiores jornais do país.

Os jogos nos dividiriam entre europeus e latino-americanos. E apesar de muitas vezes olharmos para o lado de lá do oceano, do lado de cá, temos irmãos e muitas semelhanças. Não havia dúvidas de que eu precisava acompanhar as duas partidas e, claro, torcer para que a América Latina vencesse ao menos uma vez.


Caem os uruguaios

No portal do La Nación, a matéria mais lida do dia dizia que os argentinos amavam os uruguaios, mas sem serem correspondidos à altura. É evidente que a Argentina havia se pintado de celeste. Do lado de fora dos bares, olhos atentos às televisões em que o jogo era transmitido.

Uruguai chegou a 68 anos sem um título mundial. Mas o pequeno uruguaio Mateus não perde o amor pela seleção do país (Foto: Paola Micheletti)

“Tenemos mucha pasión. Fútbol es una religión para nosotros, foi o que me disse o uruguaio Fernando Pelaez, durante o intervalo do jogo, em que a seleção celeste já perdia por 1 a 0 para a França. Acompanhado da esposa, Carolina Morales, e dos filhos Felipe e Mateus, de 8 e 6 anos, torcia por seu país. As crianças vestidas com a camisa do Uruguai estavam muito nervosas, mas com olhos carregados de esperança. Eles já são apaixonados por futebol, já têm seus jogadores preferidos e já conhecem a dor da derrota.

Para a coaching uruguaia Elianne Hecht, a oportunidade de estar na Argentina para ver o jogo é um presente: “Me encanta estar aqui”, disse. Ela contou ter encontrado muitos argentinos torcendo pelo Uruguai e teve a certeza de que o esporte nos une. Na mesa ao lado, uma família de Buenos Aires confirmava sua suposição. A jovem Azul Adre identifica-se como latina e não vê motivos para torcer pelos europeus em uma Copa do Mundo. Sua mãe, Maria Joost, adiciona uma pitada de rivalidade quando se refere às históricas disputas entre Argentina e Uruguai — nem sempre somente no futebol. Para Maria, esse é um problema do outro lado do Río de la Plata.

Já não estava mais no mesmo lugar quando a seleção francesa marcou seu segundo gol. Não sei se aguentaria ver a decepção das crianças, às quais eu prometi que tudo sairia bem. Daquelas promessas que os adultos já me fizeram tantas vezes e que nunca puderam cumprir — dessa vez, eu também não pude.

Decepção e orgulho: uruguaios caíram de pé (Foto: Paola Micheletti)

Brasil, ‘ciao’

Estávamos no táxi a caminho do bar em que veríamos o jogo, atrasadas. O hino nacional começou e continuávamos dentro do carro. Pedi ao taxista para que torcesse por nós, mas nem havia necessidade de pedir, estamos do mesmo lado, só não nos damos conta disso.

Início do jogo, fingimos ser comentaristas. Falei de Fernandinho, que havia entrado no lugar de Casemiro e o senhor simpático ao volante elogiou meu comentário: “podrías ser periodista de deportes.” A narração do rádio era rápida demais e dificilmente compreendia tudo o que estava acontecendo dentro do campo. E então: “GOOOOOOOL, de Fernandinho”. Comemoramos. E como que trazendo a notícia da morte de um parente muito próximo, o motorista nos explicou que havia sido um gol contra. Enfim chegamos. Ele, que já viveu muitas eliminações em Copa do Mundo, me desejou sorte e calma.

Tristeza dos brasileiros, que esperavam comemorar em terras ‘hermanas’ (Foto: Paola Micheletti)

Dentro do estabelecimento, muitos brasileiros, quase todos turistas. Para a maioria, a rivalidade entre Brasil e Argentina existe somente em campo — e assim deve ser. Mas a sensação que tive não foi de estar no terreno do inimigo. A mesma impressão do brasileiro, Vinícius Ruschel, que cursa medicina em Buenos Aires — uma história que se repete muito pelo que tenho visto por aqui. Para ele, somos muito mais parecidos do que imaginamos, mas provavelmente uma ou outra piada viria se realmente fôssemos eliminados. “Mas pelo menos, a Argentina já não está mais no Mundial”, completou.

O resultado já sabemos. A Copa do Mundo acabou para o Brasil. A seleção não conseguiu passar pela Bélgica, da mesma forma que o Uruguai foi parado pela França. E agora já não temos mais seleções latino-americanas na competição.

Daqui a quatro anos, quando aqueles pequenos uruguaios que conheci aqui já estiverem entrando na adolescência, vestirei uma camisa celeste por eles. Comemorarei os gols da Argentina pelo taxista que comigo lamentou o gol contra. Mas, mais que tudo, estarei torcendo para que a identidade latina possa ser uma certeza para todos os povos e possamos com a mesma força de Azul dizer:

“Somos latino-americanos!”

Brasil, Argentina, Uruguai: uma derrota em dose tripla na Copa da Rússia (Foto: Paola Micheletti)