Caminhada antifascista ainda é longa
Torcedores defendem respeito a grupos minoritários dentro e fora dos gramados.

Publicado originalmente por CONTRAPONTO PUC-SP Edição: 110.
Por Antonio Gaspar, Dora Scobar, Gabriel Paes, Luca Machado, Marjorie Rodrigues e Thiago Felix.
BREVE HISTÓRIA DO FUTEBOL BRASILEIRO
A origem do futebol é incerta até hoje, sendo o primeiro relato de Charles Miller, que trouxe para o Brasil duas bolas na bagagem de sua viagem para a Inglaterra, em 1895, o mais confiável. Porém há um fato: não importava o nome do grande pioneiro do esporte em solo brasileiro, já que seria um membro da aristocracia.
Somente uma década após a partida pioneira, o primeiro negro praticou futebol no país. Era Francisco Carregal, que jogou pelo Bangu contra o Fluminense, vencido pelo alvirrubro por 5 a 3. E se o Bangu deu o pontapé inicial, o Fluminense seguiu a luta pela profissionalização do esporte nos anos seguintes — em 1907, proibiram a inscrição de negros no campeonato e o Bangu se recusou a jogar. O Vasco reforçou a luta dos cariocas, ao conquistar o campeonato estadual de 1923 com um plantel de maioria negra, muitos vindos do Bangu.
Em meio a ataques segregacionistas da elite e contra-ataques dos atletas, por direitos, nos anos 30 teve início a regularização do futebol no Brasil. Apesar de ainda primitivo, se comparado a hoje, o esporte já apresentava um pouco mais de estrutura e lançou, na Copa de 1938, Leônidas para o mundo. O inventor da “bicicleta” foi campeão mundial pelo Brasil apenas quarenta anos depois do surgimento do futebol brasileiro e o país começava a mostrar sua veia futebolística.
Da mudança dos nomes de clubes como Palmeiras, Cruzeiro e Coritiba, que antes se chamavam Palestra Italia, até a CPI do futebol, passando pela Democracia Corintiana, muito se discutiu sobre o esporte no Brasil. Porém agora não é mais questão de fazer parecer abrangente, mas sim de fato abraçar a todos os grupos sociais que buscam um pouco mais de espaço nas mesas de debate. O que antes era tido como religião, agora passa a ser visto, em várias frentes, com a razão.
BRASIL: PRECONCEITO DENTRO E FORA DOS GRAMADOS
Com a recente chegada de Richarlyson ao Guarani e as represálias que sofreu, volta à tona um grande problema do futebol brasileiro e mundial: a homofobia. Ao longo de sua carreira, que foi deveras vitoriosa em times como São Paulo e Atlético-MG, Richarlyson sofreu muito com os boatos de que seria homossexual, apesar de sempre declarar-se heterossexual.
O atual jogador do Bugre chegou a ter seu nome omitido nos cantos proferidos pela torcida tricolor, sendo sempre um alvo de “piadas” e ofensas homofóbicas vindas dos rivais e até dos próprios torcedores do time que defendia.
Na mesma toada, ainda encontramos o racismo em estádios mundo afora. O caso mais recente foi contra o jogador ganense Sulley Muntari, do Pescara (ITA), que teve reação elogiável: ele abandonou a partida após ouvir os xingamentos racistas que vinham da torcida do Cagliari. No entanto, na maioria das vezes, há grande impunidade em casos como esse, como afirma um dos criadores do Palmeiras Antifascista, que quis ser identificado como A.T.: “Acho bem válida a atitude dele, mas acho que tinha que ser uma coisa que tinha que partir do Estado, das autoridades. Tipo o Daniel Alves comer a banana, por um lado ele mandou os caras tomarem no c*, por outro, ficou por isso mesmo, não aconteceu nada. O time também acaba não sendo punido. ”
Além disso, em idas ao estádio — ambiente extremamente hostil -, ainda vemos atitudes machistas. Para lutar por mais direitos nas arquibancadas, alguns grupos feministas, como o “Movimento Toda Poderosa Corintiana”, têm ganhado um pouco mais de espaço nas redes sociais, mas continuam muito menores do que deveriam ser. Querendo ou não, o futebol é um reflexo da sociedade em que vivemos.
TORCIDAS ANTIFASCISTAS
O fascismo no futebol é quase tão antigo quanto o fascismo em si, na Itália de Benito Mussolini o futebol foi uma das ferramentas usadas para promover a imagem de seu governo ditatorial. Mussolini em um primeiro momento rejeitou o futebol em razão de suas raízes inglesas, mas o esporte já havia contagiado os italianos.
Mussoulini, percebendo que a paixão do povo pelo futebol era irreversível, favoreceu-se do fato o quanto pode, no final da década de 20 o governo começou a usar a Prima Divisione, o principal torneio nacional da época, como meio para difundir suas ideologias. Mussolini que de início rejeitou o futebol, agora passaria a incentiva-lo país afora. O regime passou a agir sobre clubes de cidades estratégicas. Roma acolhia quatro clubes competitivos, mas todos demasiado fracos para figurarem na elite do futebol italiano, um deles foi preservado, a Lazio, enquanto os outros três juntaram-se e fundaram a AC Roma, em 1927.
O período de ascensão do fascismo na política e no futebol foi contemporâneo ao período de maior imigração italiana do Brasil, assim sendo, não demorou muito para que os ideais fascistas fossem inseridos em nossa cultura e em nosso esporte mais popular. O Juventus da Mooca, time operário fundado em 1924, foi erguido por Rodolfo Crespi o maior empregador do bairro na época, grande amigo de Mussolini e coroado como Conde pelo então Rei da Itália. Nem o Palmeiras, maior clube fruto da imigração italiana no Brasil, deixou de sofrer a influência fascista em seu desenvolvimento, o antigo Palestra Itália mudou seu nome original para, entre outras razões, apagar uma parte do passado do qual não se orgulhava.
Apesar de todos os clubes de origem italiana do Brasil terem seu berço no fascismo, isso não significa que os torcedores desses clubes sejam majoritariamente fascistas. Apesar de o Juventus ter sido fundado por um adepto desse posicionamento político, fez sua história fazendo oposição a suas raízes. Diversos clubes que surgiram do fascismo são hoje os clubes que possuem seguidores mais engajados em movimentos antifascistas.
A proveniência dos clubes, portanto, pouco importa, mais importante é como se dá essa relação com a origem ao longo de sua história, as causas pelas quais o clube se fez conhecido. Rotular um clube de fascista por ter nascido do fascismo, seria o mesmo que rotular um alemão nascido em plena Alemanha nazista de nazista por toda sua vida, independentemente de seu vínculo com sua naturalidade.
MANIFESTAÇÃO DE APOIO AO JAIR BOLSONARO
Casos de discriminação provindos do fascismo no futebol são comuns, contudo a maioria dos jogadores tenta não cometer atos como este para não perder apoio de torcedores. No entanto, recentemente os jogadores Felipe Melo, do Palmeiras e Jadson, do Corinthians declararam apoio ao político Jair Bolsonaro (PSC-RJ) que ficou conhecido por seu posicionamento de extrema direita e por atos preconceituosos contra mulheres, gays e outras minorias sociais.
O palmeirense declarou seu apoio no dia do trabalho em um vídeo no qual afirmou: “Deus abençoe todos os trabalhadores e pau nos vagabundos. Bolsonaro neles. ” Por conta da polêmica que sua declaração gerou na internet Felipe Melo, que já fez outras declarações como esta, reafirmou seu apoio ao candidato á presidência. Além disso, tentou se explicar dizendo que ao falar de vagabundos se referiu a quem quer tumultuar o país e retirou o vídeo da internet.
Jadson, que nunca havia se manifestado politicamente, durante uma entrevista ao UOL, afirmou: “Essas questões de Lava-Jato, investigações, eu acho que o lado da política está complicado, um pouco sem credibilidade. Mas, o Bolsonaro eu já vi algumas entrevistas dele no Youtube, parece ser um cara correto. Se ele se candidatar a presidente, eu vou votar nele, porque briga pelos valores da família. Isso pra mim é fundamental”. O jogador recebeu diversas críticas de torcedores, que se surpreenderam com tal posicionamento. Alguns até afirmaram que isso já era esperado do Felipe Melo (por conta de seu jeito agressivo), mas não de Jadson.
Segundo A.T., “os caras (Jadson e Felipe Melo) são cidadãos políticos. Eles estão inseridos, votam, participam. Então eles deveriam certamente se posicionar”. Ele afirmou também que isso não é bem quisto, tanto pela diretoria dos clubes quanto pelo torcedor. A declaração dos jogadores gerou discussões e, consequentemente, reflexões sobre a extrema direita, que cresce no Brasil.
TORCIDAS ULTRAS DE EXTREMA DIREITA NA EUROPA
O ditado de que política e futebol não se misturam não condiz com o que nos revela a história. Um breve estudo sobre formação dos clubes deixa claro como, no início, as agremiações se davam não só por motivos geográficos, mas também políticos e partidários. O maior reflexo de tais preferências pode ser observado na capital da Itália, Roma, onde surgiram tanto o time de mesmo nome como o rival, a Lazio.
A Società Sportiva Lazio surgiu nos anos 1900 com forte ligação com o fascismo e com o governo de Benito Mussolini. Parte da torcida laziale abriga, inclusive, um setor denominado Irriducibili, que compactua até hoje com os ideais dos camisas negras. Dentre as inúmeras manifestações de nazi-fascismo protagonizadas pelo setor da Curva Nord do Estádio Olímpico, a mais famosa pode ter sido a saudação fascista prestada a eles pelo atacante Paolo Di Canio ao comemorar um gol. Outro exemplo digno de repulsa foi a faixa estendida pelos mesmos torcedores, em que se lia “"Auschwitz vossa Pátria, os fornos vossas casas", fazendo referência à ideologia antissemita.
Os conceitos de antissemitismo, pureza de raça, racismo e xenofobia, no entanto, não são uma exclusividade da Lazio. O estádio do Zenit, da Rússia, também foi palco de algumas demonstrações de ódio, como o caso do atacante brasileiro Hulk, que foi recebido pela torcida com sons que imitavam o de macacos. Também foram os torcedores do Zenit, o grupo “Seleção 12”, que em 2012 publicaram um manifesto abominando a contratação de negros e homossexuais.
As manifestações fascistas partem dos torcedores, mas não somente deles; como o caso do Real Madrid. O clube espanhol teve seu discurso de superioridade racial e supremacia endossado pelos dirigentes do clube e pelo ditador Franco, quando no poder (1939–1975). Grande parte da ascensão do time merengue deve-se ao poder de negociação que ganharam devido à simpatia do franquismo.
Outro ponto foi a proibição, pelo General, do uso do idioma catalão, inclusive dentro dos estádios. Com isso, a torcida do rival, o Barcelona, perdia voz nos jogos. Os torcedores de extrema direita do Real são os Ultra Sur, até hoje, estes portam as bandeiras franquistas, suásticas e cruzes celtas para as arquibancadas; mantendo forte ligação com os Irriducibili e com as Brigadas Branquiazules. . O fascismo ainda está presente nos estádios, muitas vezes mascarado, muitas vezes parecendo não ameaçar perigo de se alastrar, mas isso é porque há resistência. O futebol resiste. A causa antifascista resiste. E o jogo segue.

ST. PAULI, O CLUBE REFERÊNCIA
O time alemão de futebol, Fusball- Club Sankt Pauli von 1910, conhecido mundialmente como St. Pauli, tem uma legião de fãs ao redor do mundo.
Mas como é possível um time centenário que tem sua maior conquista nos gramados, uma vitória contra o Bayern de Munique e com apenas oito campeonatos da primeira divisão no currículo, seja tão querido?
Oriundo da cidade alemã, Hamburgo, o clube herda o nome de um bairro boêmio. Nos anos 80, as arquibancadas de futebol da Europa, inclusive na Alemanha, estavam vivendo o auge da onda conservadora e dos neonazistas. Neste momento que o St. Pauli se torna um expoente da contracultura, um refúgio de ideias contrarias a essa linha de pensamento de extrema-direita.
O símbolo do clube é uma caveira com dois ossos, típica bandeira do pirata, referência a localização em uma cidade portaria. O clube antifascista mais famoso do mundo utilizou na sua última temporada, uma bandeira do orgulho gay em sua camisa oficial. Um dos seus últimos presidentes, Cornelius Littman, é assumidamente homossexual. No estatuto do clube, uma das pautas principais, tem como base a luta contra o racismo, machismo e homofobia. Nas arquibancadas do Millerntor, estádio com capacidade aproximada de 30 mil torcedores, tem a maior torcida feminina da Alemanha.
Quando surge no gramado, St. Pauli sempre está acompanhado da música Hells Bells da banda de rock australiana AC/DC. Ao balançar as redes, a música song 2 do Blur ecoa pelo alto-falante do estádio, para festejar o gol do time da casa.
Em meio à crise de refugiados da Europa é possível avistar uma faixa sustentada pelos torcedores — Say it Louder Say it Clear Refugees are Welcome Here (diga isso alto, diga isso claro, refugiados são bem-vindos aqui). O clube também organiza o festival, ANTIRA, um evento contra o racismo, que reúne outras torcidas antifas da Europa. A equipe é responsável por campanhas para arrecadar água para África.
Atualmente existe um debate latente entre os torcedores do clube. Como se manter um time competitivo e como não deixar que a globalização e o capital, deturpem a ideia inicial do clube, já que hoje em dia o clube é uma das maiores atrações turísticas da cidade de Hamburgo.

