Crônica sobre vitórias, fútbol e amor

Messi, desolado, após o gol de empate venezuelano. (Foto/Getty Images)

Estamos na noite de 10 de outubro de 2017, mas essa história começa meses antes. Entre sonhos e brincadeiras, eu e minha namorada compramos passagens e reservamos um hotel em Buenos Aires para nossa semana de férias. Evidentemente, antes de reservar, minha bússola era uma só: o calendário do futebol argentino. Boca, River, Velez, San Lorenzo, Argentinos Jrs e Huracán na série A; All Boys, Ferro Carril e Nueva Chicago na B. Todos em Buenos Aires. Isso sem falar de Racing, Independiente e outros clubes que ficam em cidades muito próximas ou até mesmo no subúrbio — ou seja — em algum jogo, iríamos!

Pesquiso o calendário, corro atrás das tabelas, procuro um modo de comprar ingressos e vejo que, exatamente quando ambos estaríamos de férias, ou seja, o único momento possível para a viagem, não haveria rodada. Leve desilusão amparada por uma ideia confortável: ‘Ah, deve estar cedo ainda. Vai aparecer algum jogo, faltam uns 3 meses pra isso!’


5 de setembro. Eliminatórias sul-americanas para a Copa do Mundo. Argentina 1 x 1 Venezuela. Monumental de Nuñez, Buenos Aires. ‘A Argentina vai jogar sua vida na Copa do Mundo contra Peru e Equador. 5 e 10 de Outubro.’. Provavelmente ninguém disse isso desse jeito, mas foi assim que a mensagem chegou na minha cabeça. Paro. Olho a data. Olho minhas passagens já compradas. Chegada em Buenos Aires: 8/10, 10h00. Saída: 12/10, 20h00. Confiro de novo. ‘Bom, o dia 10 fica entre os dias 8 e 12, se não me falha a memória’. A ficha cai: Data FIFA. Campeonatos parados, é por isso! Perco a chance de ver uma partida nacional, mas posso ganhar a chance de ver uma partida histórica para a seleção argentina. Momento crucial: vamos ver onde será a partida do dia 10.

Ao pesquisar sobre as partidas derradeiras, as chamadas são de: ‘Argentina faz pedido e estuda jogar na Bombonera em decisão contra…’; ‘Conmebol confirma Bombonera e árbitro brasileiro para jogo…’; e por aí vai. Imagina, ver um jogo da Argentina na histórica Bombonera. Em 2011 estive em Buenos Aires durante um final de semana com minha família e perdi a chance (até hoje digo que meu pai que a tirou de mim, na verdade) de assistir a um Boca x River na Bombonera; ah, essa foi a última e histórica partida de Martín Palermo. Não ia perder outra chance dessas, afinal, meu pai não estaria lá para me segurar! Abro o calendário: Argentina x Peru, La Bombonera, Buenos Aires, 5/10, 20h30; Equador x Argentina, Olímpico Atahualpa, Quito, 10/10, 20h30. Não pode ser. Nenhum jogo em Buenos Aires. Série A, série B, Eliminatórias… Ok, houve um momento de tristeza e desilusão agora concreta, mas, bem, eu iria para lá com minha namorada (linda, além de crucial na história!) em nossa primeira viagem sozinhos. Passagens compradas, dezenas de passeios e coisas para fazer. Não estava triste, só poderia ter sido aquele “algo a mais”. A partir desse momento, decisão tomada: algum bar seria responsável por mostrar o que esse jogo guardava.

E, então, outra saga se iniciou! Primeiro veio a expectativa de escolher um bar legal que teria pessoas torcendo e sofrendo pelo jogo. A curiosidade de sentir o clima lá era bem forte também, tanto que em toda passada no hotel a TV era ligada na ESPN e, a cada banca de jornal, um ‘periódico’ com boas chamadas era visado. Minha cabeça tinha claros objetivos. Quero ver nervos à flor da pele. Sofrimento, tensão, unhas roídas e quem sabe até choro. No fim, quero ver a Argentina na Copa (sentimento que só aumentou com os dias passando lá). Ok, digam que é ‘Geração 7 a 1’ querer eles na Copa e aí por diante. Se vocês não entendem o meu motivo, eu não entendo como vocês querem ver um mundial sem Messi. Rivais foram feitos para ser unha e carne, sempre juntos; então ainda sonho com um título brasileiro contra eles na final. Mas enfim, esse não é o ponto. Chegamos em Buenos Aires.

‘Es la hora de alentar. #YoAmoAMiSelección’. O hotel ficava na Av. 9 de Julho, perto do Obelisco. Outdoors e mais outdoors já chamavam a atenção na chegada. A AFA estava fazendo uma campanha pesada para que os argentinos apoiassem sua seleção. Não estava lá, mas acredito que o clima não devia estar dos melhores quando a última rodada começou com eles fora da Copa. Na TV, o discurso era o mesmo: ‘Argentina joga su vida en Equador’. ESPN, TYC, FOX… todos falavam disso e de quase mais nada, como esperado. Entre um passeio e outro pela cidade, bate papos sempre terminavam no assunto. Para um taxista, Sampaoli não era nada culpado. Para todos, Messi é muito maior do que imaginamos. A escalação de Acuña e Salvio, que poderiam ser criticadas, eram chanceladas pelo povo, que transmitia otimismo e um leve (e falso) descaso. Leandro, guia de um passeio que fizemos para Tigre, cidade vizinha (32km da capital) dizia: ‘Se não formos, é por não ter merecido’. Mas quem quer saber de merecimento numa hora dessas?

Nas ruas, avenidas e vielas, a seleção pedia por apoio. (Foto/Repercussão Internet)

Esse passeio foi no dia do jogo, terça-feira, que começou com um café da manhã no hotel com os jornais do dia. Messi, mais do que nunca, aparecia como — possível — salvador da pátria. Realmente assustador. Embarcamos em Puerto Madero com destino a Tigre, junto com o guia argentino e outros turistas, incluindo quatro brasileiros que talvez mereçam uma crônica de ódio exclusiva a eles. Além de dizerem que Messi tinha passado pelo Boca e que Maradona chegou a jogar no River (hein??), não cansavam de dizer em alto e bom som que queriam que o Brasil entregasse para o Chile (segundo eles, a vitória do Chile eliminaria automaticamente a Argentina de qualquer chance de ir ao mundial! ai, ai, ai…) e faziam questão de simplesmente serem chatos. Enfim, Tigre é lindo e vale conhecer. Voltamos no início da tarde, passamos pelo hotel e fomos à Recoleta, conhecer o bairro e almoçar, não necessariamente nessa ordem. Feito — lindíssimo bairro também, com um centro cultural invejável. Fim de tarde, de volta ao hotel. Chegou a hora de decidir:Onde vamos ver o jogo, amor?

Na noite anterior, passeando por Puerto Madero, um bar pareceu o ideal. Na beira do Rio de La Plata, aberto, muitas TVs… pareceu propício. Um amigo meu que mora em Buenos Aires disse para irmos à Palermo ou voltarmos à Recoleta, bairros que teriam mais bares no clima da Vila Madalena em Copa do Mundo, por exemplo. Outro amigo meu, agora de São Paulo, me disse que o Mauro Beting estava na capital argentina e me passou seu contato. Talvez ele soubesse onde ver a partida, mas não me senti confortável para incomodá-lo. Decididos, fomos ao bar em Puerto Madero; confiando em nossa intuição.

Capas dos ‘periódicos’ de terça-feira, dia da decisão. Messi, sempre ele. (Foto/Pedro Suaide)

Toma banho, se troca, pede Cabify, espera o Cabify, porque nenhum Cabify tá trabalhando? Ok, vamos de táxi mesmo, é perto. Estica o braço na rua. Passa um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Vinte. Alguns ocupados, muitos vazios. Alguns dos vazios com o sinal de ‘LIVRE’ ligado. Será que em Buenos Aires existe outro sinal para chamar o táxi? Entro mais na rua, meio que na faixa. Passa um. Dois. Vinte. Ninguém para e o jogo começa em 15 minutos!! Uma simpática mulher de um ‘kiosko’ se dirige à minha namorada e diz: ‘Eles não vão parar. Tem jogo’. Bom, obrigado por avisar, mas eu também quero ver o jogo! Passam mais vinte e uma alma benevolente para. Dou as direções e vamos. No rádio, não podia ter mais nada: pré-jogo. O pré-jogo no rádio consegue ser tão bonito, né? Poucas coisas conseguem passar tanta emoção quanto ouvir em alto e bom som em algum dial as últimas informações, escalações e sonhos de um pirado narrador. Chegamos e ainda faltavam 5 minutos. Era muito perto mesmo. Pago o motorista e vamos ao bar. Chegamos e a impressão é que apenas mais uma terça-feira. Não era pra ter mais gente aqui, amor?’

Kraken Bar, doce ilusão. Parecia perfeito, mas não tinha ninguém! Bom, tinha umas 7 pessoas desinteressadas com a partida. Ao menos as TVs estavam no jogo. Vamos lá. Um olho no cardápio outro na partida e GOL DO EQUADOR. Aí rolou um silêncio eterno de 3 segundos, quebrado por risadas. Na verdade, gargalhadas. Aparentemente ninguém estava muito afim de ver o jogo, mas uma mulher — suponho eu, equatoriana — estava. Ela ria e ninguém se importava muito. Entre encarecidas perguntas da minha namorada se queria ir pra outro lugar e espiadas num cardápio nada apetitoso, a ficha caiu. A Argentina estava fora da Copa do Mundo, eu estava na capital do país e não estava vendo tudo que desejava. Aquilo estava rolando em algum lugar. ‘Quero ver nervos à flor da pele. Sofrimento, tensão, unhas roídas e quem sabe até choro…’. Eu mesmo disse isso, agora precisávamos encontrar! Muchas gracias e saímos. Seguimos andando em Puerto Madero, que basicamente é um porto que não deu certo e se tornou um bairro. A área se tornou um centro de restaurantes e hotéis. Andamos, andamos e repentinamente, gritos. Gol. Gol da Argentina. Paramos na entrada de um bar/restaurante que tinha a TV ligada. Messi, tinha que ser ele. Enquanto assistimos o replay, a hostess já nos entrega o cardápio e aponta uma mesa. Entramos no Tres Quarts, ambiente que até agora não entendi direito. Era um restaurante pequeno, que tinha um bar grande. Poucas mesas e alguns sofás. Umas três pessoas solitárias e um grupo de orientais jantando. Não, não é aqui! Saímos.

Noite em Puerto Madero (Foto/Paula Zarif)

Já no lado de fora do bar, refletindo sobre nossa existência e os motivos pelos quais havíamos confiado em nossa intuição, algum comédia do prédio ao lado grita “gol”. De fora, vemos a TV e Messi está ajeitando a bola para bater uma falta próxima. Bom, o delay existe, mas Messi não fez o gol de falta e eu fiquei ‘pistola’. Como o cara brinca com isso?

Voltamos a pensar e nossa genial decisão é andar pela Azucena Villaflor, avenida ao lado. Antes disso, outro grito de gol, agora de verdade. Então, muitos gritos de gol, das paredes, janelas, bueiros. Voltamos rápido para ver pela parte de fora do bar. Messi, de novo — nem precisava perguntar… Seguimos nosso caminho. Era final do primeiro tempo e éramos nômades ouvindo a partida pelas ruas. E por mais estranho que pareça, estava incrível. Andamos um, dois quarteirões e chegamos à conclusão que não chegaríamos a lugar nenhum. Pensamos de novo, até que a genialidade da minha namorada surgiu: Amor, lembra aquele bar que pedimos informação ontem? Era um bar pirata, algo do tipo. Parecia um lugar animado, o cara falou que passaria o jogo…’. É claro! O bar pirata! (Na tarde anterior estávamos ligeiramente perdidos tentando chegar à Galerias Pacífico e foi lá que nos ajudaram!). Era só entrar no Maps e fazer o caminho de volta, assim chegaríamos ao endereço. Ok, mas não temos Wi-Fi. Por sorte, um bistrô na esquina, chamado IFresh parecia ter. Entro e mando a real. Somos turistas, não temos internet e preciso pedir um Cabify. A senha era fresh2012 e deu certo! Seguimos nosso caminho de migalhas pelo mapa e achamos: Resto Bar Porto Pirata. Peço o carro e ele vem. Que milagre! Em 5 minutos! A essa altura do campeonato já são 21h10, e o primeiro tempo está por acabar. Entramos no carro e o anti-climax soa como um baque: o rádio do taxista que transmitia um apaixonado pré-jogo não era o mesmo do Cabify, que ouvia ‘Notorious’, do Duran Duran (caso interesse usar a música de trilha sonora, é só clicar aqui). As ruas estavam vazias e o motorista parecia não ligar pra futebol. Perguntei a ele se tinha noção que devia ser a única pessoa na Argentina que não ouvindo o jogo. Ele logo perguntou se queria que mudasse, mas eu disse que não. Queria mesmo era entender esse sujeito. Para ele, como o próprio disse, era mais interessante ver o resultado quando a partida acabasse. Ele sabia que não faria diferença. Coitado, a mensagem não chega a todos, infelizmente. Bom, o caminho era curto e as ruas desertas. Chegamos.

Era lá mesmo. A partida estava no intervalo, então não esperava tanto, mas, sinceramente, também não esperava tão pouco. Bar quieto, pessoas claramente não se importando tanto com a partida, TVs mal posicionadas, cardápio ruim, cerveja cara… Fomos embora. Talvez a Argentina não seja tão apaixonada por futebol (mentira). Talvez eles assistam em casa (pode ser). Talvez estivéssemos (como estávamos) nos lugares menos apropriados… Talvez não! Tinha um bar do lado que não parecia ter nome. O nome eu só fui descobrir quando pesquisei para escrever essa crônica. Resto Bar El Salmon. Fico tranquilo em dizer que, da porta, ele era o inferno na Terra. Estava quente. Muito quente. Lotado de pessoas com luzes em cores fortes dançando pelo ambiente e uma fumaça de gelo seco subindo entre as mesas. O reggaeton comia solto no último volume (e se sua trilha sonora ainda é Duran Duran aqui, sugiro que troque para alguma do Maluma). Mesa para 2, apenas em sinais, pois o garçom não conseguia nos ouvir. Tem uma, lá no fundo. Na verdade, era uma mesa para 8 que já acomodava 6, com uma ponta livre. Puxamos um pouco para o lado e lá estávamos nós. Pegamos o cardápio e a cerveja era barata. Se o inferno realmente fosse assim, talvez ir ao andar de baixo não fosse tão ruim. Só restava um medo: quando a partida voltar, essa galera vai seguir dançando e essa música vai ficar no último volume? A transmissão volta e… silêncio total! Chega de reggaeton! Agora, quem comandava o bar era Rodolfo De Paoli, narrador da TYC Sports. Obrigado universo! Em poucos minutos, o argentino anuncia o primeiro gol do Brasil e o bar comemora como se fosse da Argentina. A seleção deles estava indo para a Copa, mas para ficar melhor, só com os chilenos não indo. E tudo que eu pedi o segundo tempo me entregou. Ao sair o terceiro e derradeiro gol de Messi, pensei que o bar fosse implodir. Em segundos, “Ole, ole ole ole, Messi, Messi!” era cantado a todo pulmão, no último volume, por um bar uníssono. Era o roteiro perfeito!

27 de junho de 2016, após o quarto vice campeonato pela seleção, Messi anuncia uma precipitada aposentadoria pela equipe nacional. Segundo o próprio, seria ‘para o bem de todos’, quando na verdade, o certo seria ‘se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico’. 12 de agosto de 2016. Messi voltou! ‘Há que arrumar muitas coisas no nosso futebol argentino, mas prefiro fazer isso de dentro, e não criticando de fora’, disse o ET. E bem, uma das coisas podemos dizer que ele arrumou, em 10 de outubro de 2017. O herói que havia desistido torna seu feito maior ainda, salvando a nação.

Quando vi, éramos quase dois deles. Gritamos o nome do craque. Não tinha como não. Os outros dois gols do Brasil foram muito comemorados sem constrangimento nenhum, tanto por nós quanto por eles. No apito final, muita comemoração e um claro sentimento de alívio. Acabou a partida, o bar foi esvaziando — apesar da volta do reggaeton — e voltamos para o hotel. Chegando, vemos o Obelisco pintado com as cores da bandeira. Após uma saga, missão cumprida e fim da história. Uma vitória necessária para a Argentina, com um roteiro clássico de herói, superação e conquista. Outra vitória, nossa, sonhada e roteirizada como deveria: com amor, persistência e um final feliz.

Obelisco, no meio da Av. 9 de Julho, iluminado com as cores da bandeira argentina. (Foto/Repercussão Internet)

Agora não vale e nem é momento de discutir se a Argentina é uma das favoritas na Copa, se Messi é maior que Maradona ou se a Terra é plana ou sei lá. Eles estarão na Rússia, assim como nós, e só resta torcer para que seja um ótimo mundial — principalmente para nós. O que vale, no entanto, é ver os ‘periódicos’ da quarta-feira 11, aplaudir a genialidade e “maravilhosidade” do futebol e agradecer, como fez a AFA, após pedir apoio aos argentinos. Que venham mais shows nas terras russas!

Messi, um verdadeiro D10S, agora sim, comprovado argentino. (Foto/Pedro Suaide)
Jesus também é exaltado como ‘Deus brasileiro’, após dois gols contra o Chile, na foto da esquerda; na direita, o jornal conta da partida na perspectiva de quem estava no show do U2 naquela noite. A banda de Bono Vox atrasou o show para que os espectadores pudessem ver o jogo em seu telão. No fim, agradeceu Messi. (Foto/Pedro Suaide)
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