Desafortunado das pernas

Um papo sobre a falta de dom

O Contra-Ataque
Aug 22, 2017 · 2 min read

Por Thiago Felix

“Par ou ímpar pra ver quem começa escolhendo”. Essa frase é o terror daqueles que não vingaram no futebol, quando você sabe que será o último a ser escolhido. Pode ser um café com leite, ou até mesmo, nem começar jogando. É prova que você tentou, mas na fábrica de boleiros lhe faltou ingrediente. Faz parte. São inúmeras as desventuras de um desafortunado das pernas.

Quando criança fui terceiro goleiro em um campeonato escolar com uma vaga no time conquistada de forma suspeita – meu pai era o contador do colégio. Entrei no fim do jogo para não comprometer, apenas para pisar no chão sagrado de uma partida oficial. Foi o suficiente para eu fazer um pênalti, tomar um vermelho e ceder o empate ao adversário.

Na adolescência, certa vez fui escolhido por acharem que eu era um craque de bola , mesmo após o meu amigo ter alertado que eu não sabia nem andar, quanto mais correr. Acharam que era estratégia, bom, descobriram na prática que o alerta era sincero.

Já adulto as desventuras continuaram, gorei o meu próprio time na cobrança de penaltis, eu rezei para que me salvasse daquela aflição de cobrar a penalidade decisiva, justamente nas cobranças alternadas, era um campeonato da empresa, tive medo de tropeçar e viralizar no youtube. Eu era o último batedor, minha prece funcionou, sorte minha e azar dos meus companheiros, sucumbimos sem que fosse necessária a minha exposição.

Para os desafortunados das pernas, até a certidão de nascimento conta. Imagine aquele futebol de domingo em terras britânicas, quando os moradores locais descobrem que um “brazilian” faz parte dos boleiros, eu parecia ter sido enviado por São Jorge, o santo padroeiro das ilhas que inventaram o nosso esporte bretão. Que decepção. Na realidade, viram que eu era a exceção da regra de que todo brasileiro tem magia nas pernas.

Com o tempo, a tragédia grega dos gramados, torna-se cômica, você aprende que simplesmente são coisas da vida. Mas nem tudo perdido.Para torcer, para poder vibrar nas arquibancadas e para poder discutir os lances polêmicos na mesa do bar, não são necessárias as pernas, apenas uma boa lábia, e nisso sim eu sou um craque.

O futebol é uma manifestação cultural.

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