Inglaterra x Hungria — A partida que mudou a história

Por Pedro Kosa

Londres, 25 de novembro de 1953. Milhares de pessoas estavam prestes a vivenciar um evento que iria mudar o curso do futebol. Naquela tarde, às 14h15, aconteceria uma partida entre Hungria e Inglaterra. Embora a disputa fosse apenas um amistoso, havia muita coisa em jogo. O time mandante nunca havia perdido para um país europeu nas terras da rainha. Se consideravam os grandes soberanos do futebol, aquele esporte que haviam inventado, tinham fé em seus esquemas táticos e suas escalações, e menosprezavam as inovações no mundo da bola que vinham de outros lugares.

Panfleto anunciando a “partida do século”

Do outro lado, a seleção húngara vinha de uma conquista de ouro olímpico no ano anterior, em Helsinki, e estava há 24 partidas sem conhecer uma derrota, totalizando um período de três anos de invencibilidade. O time vivia sua melhor época e contava com uma série de craques, como Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti e o imortal Ferenc Puskás, o “major galopante” (que acabou dando o nome à premiação de gol mais bonito do ano pela FIFA).

O palco escolhido para o jogo foi o estádio de Wembley, o templo do futebol. A mídia britânica denominou, antes mesmo de a bola rolar, a ocasião como “O jogo do século”. Os húngaros não esconderam o nervosismo minutos antes de começar o embate, ao serem recebidos por uma multidão de mais de 100 mil pessoas, a maioria ingleses.

Em campo, com tudo certo, o juiz autorizou o começo da partida, que não era apenas entre dois países. A disputa era entre duas visões diferentes de futebol, o antigo 3–2–5 (formação WM) que já vinha sendo usado por mais de 20 anos na Inglaterra, e o desconhecido e arrojado 4–2–4 húngaro, que seria descoberto naquela tarde e revolucionaria o futebol mundial.

“Nós vimos um estilo de jogo, um sistema de jogo que nunca tínhamos visto antes. Nenhum desses jogadores significava qualquer coisa para nós. Não sabíamos sobre Puskás.”

No primeiro minuto de jogo, o húngaro Nándor Hidegkuti chutou e marcou o primeiro gol da partida. Logo no início, já estava claro que a formação inglesa não seria capaz de competir com o estilo de jogo rápido e diferente dos “magiares”. No entanto, o time britânico conseguiu algumas boas oportunidades e aos 13 minutos empatou a partida. A resposta da seleção do leste europeu veio logo em seguida, com outro gol de Hidegkuti aos 20, e dois gols de Púskas, aos 24 e 27 da primeira etapa. A superioridade húngara espantou os donos da casa, que não conseguiam tocar na bola, mas aos 38, Stan Mortensen marcou e os ingleses diminuíram a vantagem. 2 a 4. No fim do primeiro tempo, todos estavam surpreendidos pelo incrível time visitante, que aplicou um “nó tático” nos próprios inventores do esporte.

O segundo tempo permaneceu igual, com domínio dos húngaros e dificuldade para os ingleses. Aos oito minutos, Hidegkuti marcou mais um e aos dez, Jozsef Bozsik ampliou. Em menos de uma hora de jogo, o placar já marcava 6 a 2 para os húngaros. Aos 17 minutos da segunda etapa, um pênalti foi marcado para a Inglaterra. Alf Ramsey cobrou e acertou. Era o último gol da partida, que teve um total de nove. O placar final foi 6 a 3 para a Hungria, com 35 chutes a 5 para os visitantes, que saíram de Wembley aplaudidos de pé pelos torcedores britânicos.

“Pensávamos que ganharíamos daquele time, nós seriamos os mestres, eles, os iniciantes. Mas foi absolutamente o contrário.”

Os jornais ingleses, após o embate, já não tinham tanta confiança na formação tática usada pela seleção. Um trecho do artigo do The Guardian sobre a derrota inglesa, escrito por Pat Ward-Thomas, resume o sentimento: “O time inglês foi bem para os padrões britânicos (…), mas com o que aconteceu nesta tarde, percebe-se que esse padrão não é suficiente para deixar a Inglaterra no topo do futebol mundial”.

Sir Bobby Robson, jovem jogador inglês na época, que viria a ser técnico internacional, também comentou sobre a partida em entrevista à BBC, em 2003: “Nós vimos um estilo de jogo, um sistema de jogo que nunca tínhamos visto antes. Nenhum desses jogadores significava qualquer coisa para nós. Não sabíamos sobre Puskás. Todos esses jogadores fantásticos, eles eram homens de Marte para nós. Eles estavam vindo para a Inglaterra, a Inglaterra nunca tinha sido derrotada em Wembley — isso poderia ser uma demolição de 3–0, 4–0 talvez até 5–0 contra país pequeno que acabava de entrar no futebol europeu. Esse único jogo mudou nosso pensamento. Pensávamos que ganharíamos daquele time , nós seriamos os mestres, eles, os iniciantes. Mas foi absolutamente o contrário.”

A Inglaterra pediu revanche pois acreditou que o resultado tinha sido uma anormalidade. No dia 23 de maio de 1954, os dois times voltaram a se encontrar, dessa vez em Budapeste, capital da Hungria, no Nepstadion. Diante de 92 mil pessoas, os húngaros golearam os britânicos novamente: 7 a 1 para os donos da casa.

Após a derrota, a Federação Inglesa de Futebol passou a procurar novos modelos e formações táticas no continente europeu, buscando melhorar a seleção para que um vexame desses não acontecesse de novo.

Puskás e Hidegkuti jogando pela seleção húngara, 1954.

Para a Hungria, aquilo foi um dos pontos altos da história da seleção. Os jogadores voltaram para o país como heróis e foram recebidos em diversas cidades por milhares de pessoas celebrando a vitória. A Hungria naquela época era a melhor seleção do mundo, e chegou na copa de 54 como grande favorita. O título não veio, mas os jogadores do país que humilharam a Inglaterra como visitantes “desconhecidos” mudaram o curso da história do esporte, pois o futebol nunca mais seria o mesmo após aquela geração.

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