Mulheres, poderosas e sofredoras

Entrevista com Movimento Toda Poderosa Corinthiana, coletivo de torcedoras que atuam na luta contra o machismo no futebol.

Por Dora Scobar, Luca Machado e Laura Brichesi

Reprodução: Facebook

Às vésperas da final do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, a ser disputada entre Santos e Corinthians, o silêncio da mídia esportiva sobre o evento chega a ser ensurdecedor. A negação da crescente importância do futebol feminino e da presença das mulheres nas arquibancadas é inaceitável.

Conversamos com as fundadoras do Movimento Toda Poderosa Corinthiana a respeito de temas como a recente polêmica envolvendo a Nike e as camisas femininas, a falta de acolhimento à mulher nos estádios modernos e as expectativas em relação a luta contra o machismo no futebol.


Quando e por que foi fundado o MTPC?

O coletivo surgiu durante a nossa colaboração para o Neco Mulher, em março de 2016. Nós fizemos um estudo sobre a participação feminina na história do Corinthians e o quanto as mulheres contribuíram até então. E claro, quando paramos pra analisar, constatamos que existe sim, uma injustiça e uma problemática de gênero muito grande, pois nós ainda não temos o devido reconhecimento dentro do Corinthians e nem em outros espaços que envolvem o universo futebolístico. Hoje, o MTPC possui um grupo fechado onde mais de 400 mulheres participam. Debatemos sobre vários temas relevantes e tentamos desconstruir o machismo e o preconceito através dessas discussões e, posteriormente, tentamos realizar algumas ações.

Como é a relação do Movimento com os outros torcedores do timão?

Nossa relação não mudou muito com os torcedores. Claro, nos arriscamos e perdemos a proximidade com alguns, mas tudo isso em nome de objetivos maiores. Contamos com o apoio de muita gente, mas ainda há quem resista.

Em quais situações, na esfera Corinthiana e futebolista, vocês percebem a diferença que se faz entre os gêneros? E como vocês se movem para lutar contra e mudar a situação?

Mudar uma cultura leva tempo. Acreditamos que sim, muitas pessoas já colocaram a mão na consciência e perceberam que nós mulheres não queremos tomar o espaço de ninguém. E muitas meninas, que reproduziam o machismo, estão começando a perceber que isso sempre nos atrapalhou e que se não nos unirmos, jamais conseguiremos ocupar, por exemplo, cargos importantes no futebol. Queremos o nosso direito de poder torcer e participar ativamente do dia a dia do Corinthians, nas torcidas, nas arquibancadas, no jornalismo esportivo…

Enfim, nós lutamos pela nossa liberdade de gostar de futebol pelo simples fato de gostar de futebol.

Atualmente, ser torcedor nas arquibancadas de qualquer canto do Brasil já é complicado. Então, para as torcedoras, as dificuldades são ainda maiores. Não possuímos segurança nenhuma, além de não contarmos com nenhuma ouvidoria para prestar queixas de abusos, por exemplo. Na Arena Corinthians, uma estádio considerado moderno, não existe se quer um fraldário nos banheiros. Ou seja, somos nós por nós.

Sobre o caso recente das camisas comemorativas que não estavam sendo fabricadas na versão feminina pela Nike, fornecedora dos produtos corintianos, qual foi a resposta da empresa em relação ao protesto?

Reprodução: Facebook

A posição da Nike foi, no mínimo, absurda. Como um clube que tem mais de 50% de mulheres em sua torcida não oferece demanda para a produção de camisas femininas? Eles disseram que realizaram um estudo para chegar a esta conclusão, mas não ouviram nenhuma de nós. Nenhuma pesquisa foi feita, nenhum dado foi divulgado. Simplesmente, resolveram não fabricar modelos femininos, achando que nos ignorar seria a solução. A marca simplesmente nos tirou um direito de escolha e isso é inadmissível. Por isso, continuaremos na luta até que a Nike ou o Corinthians se retratem e expliquem, de forma honesta e correta, o que de fato aconteceu. Depois de muita pressão, a camisa aconteceu. Está sendo comercializada na loja oficial da Arena Corinthians. Agora estamos de olho, para que se por algum motivo ela sair das vitrines, continuarmos pressionando.

E quanto ao Corinthians e os jogadores, houve alguma manifestação sobre o caso?

Ainda não houve nenhuma manifestação dos atletas do masculino sobre posicionamentos nossos. Há uma relação de apoio crescendo junto ao time feminino, que disputa agora nos próximos dias as finais do campeonato Brasileiro.

Por fim, caso alguma torcedora se interesse pelo movimento e queira participar, qual o procedimento?

Para participar, é só solicitar a entrada no nosso grupo fechado de discussão. Temos uma política para aceitar novos membros, e isso as vezes demora um pouquinho, mas basicamente, só aceitamos mulheres corintianas que não tenham perfil dividido com o marido ou namorado. Isso por uma questão de conforto e segurança, pois lá discutimos sobre os mais variados assuntos.