
O drible que ninguém acerta
Como jovens promessas do futebol brasileiro têm sofrido com especulações
Por Luca Machado
Com o passar dos anos, aqui no Brasil, o futebol sofreu com dezenas de mudanças. O comportamento exigido nos estádios — principalmente nas novas ‘arenas’ — , os investimentos feitos no futebol dos clubes através de seus patrocinadores, etc. Em meio a esse cenário, é cada vez mais comum vermos jovens jogadores indo rapidamente para a Europa, sendo comprados por clubes de grande poderio financeiro, que destoam da realidade brasileira. Vários fatores são levados em consideração pelo atleta e pelo clube até a decisão final sobre a venda, contudo, o principal fator que influencia é a incerteza que o futebol proporciona. Tais promessas podem vingar ou não, sofrer com lesões e pressões de todos os lados e nunca mais serem os mesmos. Com isso, dirigentes e jogadores preferem garantir todo o dinheiro envolvido do que apostar sobre o talento futebolístico dos jovens.
Em um momento em que sequer atingiram sua segunda década de vida, os moleques já são comprados por clubes europeus — cujo trabalho de ‘scouting’ tem méritos, por encontrarem os jovens promissores por aqui. David Neres, Gabriel Jesus, Luiz Araújo, Lyanco, Léo Jabá e Douglas são apenas alguns dos casos mais recentes de jovens promissores que saíram cedo de nossa terra, além de Marcelo, do Real Madrid, Willian, do Chelsea, e Marquinhos, do Paris Saint Germain — jogadores que, ao realizarem suas transferências, tiveram sucesso em suas carreiras europeias. Inclusive, alguns são vendidos antes mesmo de chegarem ao time profissional, vide o exemplo de Vinicius Jr: o promissor jovem do Flamengo, com apenas 16 anos, foi vendido ao Real Madrid por 45 milhões de euros.

Entretanto, infelizmente, muitos somem em mercados menores como o russo e o ucraniano, que oferecerem caminhões de dinheiro e seduzem nossas promessas. Vários desses que se transformam em fantasmas do futebol mundial, se ficassem por aqui, teriam, ao menos, a possibilidade de crescer nos clubes brasileiros e, quem sabe, tornarem-se ídolos de algum time. Além disso, outros fatores externos são prejudiciais aos jovens em si, como por exemplo, os empresários, que manipulam suas mentes desde cedo para que a transferência seja mais rápida, para que ganhem suas altíssimas comissões.
Ademais, no ano passado, clubes brasileiros sofreram muito com o assédio de clubes chineses a seus jogadores. Torcedores, ao redor do mundo, julgam e criticam os jogadores que aceitam este tipo de proposta. No entanto, temos que analisar o impacto que esses ‘caminhões de dinheiro’ podem causar nas mentes dos jogadores e de seus empresários. É uma quantia capaz de sustentar gerações, garantindo uma vida abastada por dezenas de anos e, com tanta gente envolvida, fica difícil driblar uma negociação assim.
Portanto, cabe uma pergunta: quem se atreveria a recusar uma dessas propostas milionárias?
Sendo assim, é preciso ter uma cabeça muito tranquila e determinada para analisar friamente o futuro de uma carreira. Talvez, uma análise mais cuidadosa das possibilidades de carreira dos atletas, pensando menos no dinheiro, possa ser a solução — por mais difícil que isso seja. Para muitos, campeonatos mais competitivos e com mais visibilidade valem mais a pena. Cabe a cada um julgar suas prioridades na vida.
Em meio a toda essa questão, o romantismo do futebol perde força. Figuras como Francesco Totti, Steven Gerrard e os goleiros Rogério Ceni e Marcos tendem a não mais existir em um futuro próximo, já que poucos cultivam o mesmo amor que os quatro tiveram por seus clubes. É uma cultura que se perdeu mediante a tanto dinheiro e até à diferença de qualidade no futebol jogado na Europa.
A cada ano que passa, é mais um jovem que vai. E mais um potencial ídolo que se esvai.

