O futebol nas regiões de conflito

A história de times e atletas que convivem diariamente com a guerra

Por Pedro Kosa

Foto: Reprodução | Getty Images

Segundo dados do Banco Mundial, cerca de 500 milhões de pessoas vivem em zonas de instabilidade e conflito armado, e outras 25 milhões se deslocaram para fugir dessa situação. No entanto, algumas nações, por mais afetadas que estejam, conseguem manter campeonatos, times e seleções de futebol. É o caso de países como Síria, Iraque, Nigéria, Israel e Palestina.

Confira abaixo a situação de Estados em guerra, no esporte mais popular do mundo.


Síria

Abdalrhman Ismail | Reuters

Um dos conflitos mais noticiados pela mídia atualmente, a guerra civil síria começou em 2011 após uma onda de protestos no Oriente Médio que ficou conhecida como Primavera Árabe. O conflito envolve diversas forças: rebeldes, o governo de Bashar Al-Assad, as Unidades de Proteção Popular curdas, os terroristas do Estado Islâmico e exércitos de potências ocidentais, como EUA, França e Rússia. O embate, que já dura seis anos, causou mais de 200 mil mortes e forçou a migração de mais de quatro milhões de pessoas para fora do país.

Apesar de não ter a soberania territorial, o governo ainda realiza competições entre os clubes. A “Premier League” síria, que acontece desde 1966, só foi suspensa entre 2010–11. No âmbito internacional, a seleção está classificada para a repescagem da Copa de 2018, depois de terminar a eliminatória asiática em terceiro de seu grupo. Em jogos de ida e volta, definirá a classificação contra a Austrália.

Seleção Síria de futebol. Foto: Ebrahim Noroozi | AP Photo

Iraque

Soldado americano na guerra do Iraque

O país, que há alguns meses reconquistou sua segunda maior cidade, Mosul, de forças do Estado Islâmico, vive uma situação similar à da Síria. Embora não esteja tão desorganizado quanto seu vizinho, ainda luta para extinguir forças terroristas e movimentos curdos da região. Em 2016, a guerra dentro de seu território causou mais de 20 mil mortes.

O conflito na região, no entanto, não é recente. A primeira década do século XXI foi muito conturbada, já que os EUA declararam guerra ao regime de Saddam Hussein e as forças americanas permaneceram até 2010 na região. Mesmo em meio ao contexto instável, a seleção nacional faturou o título da AFC Asian Cup, em 2007. A final foi disputada em Jakarta, na Indonésia, e o país bateu a Arábia Saudita por 1 a 0, com gol do capitão Younis Mahmoud.

A associação de futebol iraquiana ainda continua organizando a liga entre os times do país. No entanto, precisou suspender as competições em mais de uma ocasião: entre 2002–03 e 2003–04, em função da invasão americana, e na temporada de 2013–14, após o crescimento do terrorismo islâmico na região. O time de futebol do país avançou até a terceira fase das eliminatórias asiáticas para a Copa, mas foi eliminado. Em 2016, a seleção iraquiana, com jogadores sub-23, disputou as olimpíadas do Rio e empatou com o Brasil. No entanto, o feito não foi suficiente para levar a equipe para a segunda fase.

Nigéria

Soldados Nigerianos — 322º regimento | Foto: US Navy

A Nigéria é um dos países africanos mais populosos em conflito. As forças do país lutam desde 2002 contra o grupo Boko Haram, mas a guerra se intensificou em 2009 e desde então já causou a morte de mais de 40 mil pessoas. O grupo recentemente se tornou um braço do Estado Islâmico na África e defende uma forma estrita da Xaria (uma espécie de direito Islâmico, conhecido também como Lei de Sharia).

No futebol, a Nigéria é uma das nações africanas mais bem-sucedidas. O país já se classificou para cinco copas (1994, 1998, 2002, 2010 e 2014) e chegou até as oitavas de final em três ocasiões. A seleção já faturou o ouro olímpico no futebol, vencendo o Brasil nas olimpíadas de Atlanta, em 1996. Além disso, a equipe nacional já ganhou três edições da Copa Africana.

O país é o primeiro colocado do grupo B das eliminatórias da Copa na África, e disputa a vaga apenas com a Zâmbia. Os dois times se enfrentam no dia 7 de outubro em partida pelo torneio.

Seleção nigeriana jogando contra a França — Copa do Mundo de 2014 | Foto: Jewel Samad — AFP/Getty Images

Israel e Palestina

Forças Armadas de Israel

O conflito entre povos de Israel e Palestina é um dos mais noticiados e antigos do mundo. É impossível resumir em alguns parágrafos as causas das guerras na região, que tem uma história extremamente rica e, ao mesmo tempo, complexa. Israelenses e os palestinos brigam pela mesma faixa de terra, do tamanho do estado de Sergipe, que em 1948 foi declarada Estado de Israel. O local é considerado um ponto estratégico que liga Europa, África e Ásia. Israel detém um grande poder militar e o Estado Palestino, reconhecido há pouco menos de 10 anos pela ONU, conta com apoio de organizações políticas e militares como o Hezbollah e o Hammas, considerados grupos terroristas por muitas nações ocidentais.

Povo palestino

A história dos dois povos é uma mistura de encontros e choques em tempo integral. No futebol, a relação é um pouco diferente. Israel é alvo de um boicote no esporte por muitos países da liga árabe, o que impede a seleção nacional de jogar contra diversos países do Oriente Médio. A equipe fazia parte da Confederação Asiática de Futebol (AFC), mas devido a conflitos com países árabes na mesma liga, se tornou membro da UEFA. O país se classificou apenas para uma Copa em toda sua história, em 1970, e não tem mais chances de conseguir a vaga para a Copa do Mundo da Rússia.

A seleção Palestina, por sua vez, só se tornou membro da FIFA em 1998. O país pertence à Confederação Asiática de Futebol e já disputou copas da Ásia e torneios entre países árabes. A nação disputou as eliminatórias para a Copa de 2018, mas não conseguiu a classificação.

Seleção de Israel, de azul, e equipe da palestina, de uniforme vermelho.