Pé de Pauzices Literárias

Ilustração: Terence “Larry” Parkes/PUNCH MAGAZINE

Por Matheus Lopes

Eu não poderia estar escrevendo na seção mais errada. Perdoem-me. Aliás, é justamente sobre isso que eu refleti, literalmente, há alguns meses. Não era minha intenção. Aliás, não por desprezo ou algo do tipo, é uma questão de vocação, simplesmente. Porém, alguma coisa mudou. “E que coisa, hein?”. Foi nessa aprofundada cronística que, certa vez, escutei o Juca Kfouri dizendo algo como: “Um bom conhecedor do Brasil é aquele cara que tem o traseiro carimbado pelas arquibancadas”.

Sim senhor, caro Juca. Apesar de não curtir o mundo futebolístico, fui me informar para não ser um alienado qualquer; mais: foi em uma das falas do brother — meu guru mor das escrituras jornalísticas — Xico Sá, que a surpresa foi certeira: “O mundo do futebol abrange um campo vasto, além-campo. As relações cotidianas, o jogo do homem e da mulher. Boa parte das brasilidades”. Sim senhor, Xico, meu velho e, curiosamente, revirando meus escritos crônicos de meados de 2016, eu encontrei alguns fragmentos dessa brasilidade canarinha. Nada é mais verossímil que a treta de domingo pelo futebol à tarde. Mãe versus pai: uma batalha épica pelo controle da televisão! Com reprise às quartas-feiras — boas crônicas marcaram presença.

Familiaridades

Três episódios vieram como nostálgicas lembranças nesse lero lero escrito. Sobretudo, aquele clichê: “Em época de Copa do Mundo, todo mundo se ama; o futebol une as pessoas”. Verídico. O primeiro deles consiste em uma lembrança afetuosa, o segundo em um trauma e o terceiro em um “presságio empírico” — se é que posso tal brecha filosófica. A lembrança um é da Copa de 2006, um ano fatídico para o Brasil, só havia festa. Lembro que todos os vizinhos se reuniram na casa de um cicrano lá, que, porventura, era dono de um bar. E não deu outra. Todos, por umas quatro horas — contando os pré e pós-jogo — viraram melhores amigos. Futebol une as pessoas, até demais. Além dessa enxurrada de amor mútuo, até os descotovelados da rua — que, talvez, perderam até os cotovelos por tanta dor e inveja que possuíam — encorparam o corpo&coro da parada. Assim mesmo, tudo junto. E, por último, uma observação: depois das rodadas de gentileza do dono do bar, ele conseguiu dar uma reformada no cafofo. A união faz a força. O caneco, também… Cala a boca, narrador!

Nesse mix de lembranças afetuosas, parto para a terceira lembrança — depois volto à segunda. O agouro das chuteiras. Sem mais delongas, repetindo, o ser que vos escreve não manja de futebol. Nunca jogou uma partida. E viu pouquíssimos jogos, comparados aos demais residentes desse país tropical abençoado por Deus. Se Deus for mesmo brasileiro, eu, com toda certeza, vou pagar umas penitências no dia D. Ao invés do milho, vou precisar fazer umas embaixadinhas. Perdão, por ser esse abstêmio da bola. E desde pequeno foi assim. Meu pai, meu avô, meus tios: todos fanáticos pelo futebol dito cujo de todas as formas — desde a várzea até o Europeu. Eis a questão: em 1999 eles devem ter pensado — e pensaram mesmo — o seguinte: “agora vai!” E nada! Mesmo criancinha, nunca gostei. Eles compraram chuteiras, bolas caríssimas e afrescalhadas — que o vizinho nunca devolveu -, fomos ao campo… e nada! Cresci, meus amigos jogavam bola e, mesmo assim, preferia o esconde-esconde ou o stop. A mesma coisa vale para os meus primos: todos no mesmo barco. A “geração desandada”, como algum parente nos categorizou. Eu adorei.

Pasmem. E, para me desiludir definitivamente, lembro-me de uma vez que fui ver um jogo desses “racha”. Meu pai e meu tio estavam jogando. Houve uma treta. Meu pai levou um soco na pálpebra; foi um corre louco. “Sangue no Zóio”. Trauma geral. Esse foi o segundo motivo, para ser sincero. Enfim, fiquei anos evitando o mundo dos gramados. Se for jogar, ame com moderação — isso vale para o ódio também.

Reviravolta

Conheci muito mais do mundo futebolístico pela literatura. Não o jogo e o campo propriamente dito; e sim seus enredos na casa, na vida das pessoas. A relação disso com a vida pessoal; nos mundinhos — na ÓIKA, remetendo-me à aula do Urbanão, filósofo/professor de jornalismo da PUC-SP. E era batuta de interessante. Tanto o Nelsão, quanto o Xico, quanto o Juca, quanto outros tantos cronistas que confeccionam (e confeccionavam) uma estrondosa crítica social pelos enredos de uma bola mal batida; é uma antropologia das modinhas do beabá do cotidiano.

Nestas três situações tangidas pelo mundo do futebol, nota-se o quão o impacto dele é forte na vida do cidadão mais cético pelas chuteiras. Até mesmo para falar mal é preciso ter uma base. Não adianta brincar de cego nesse caso, o sujeito pode tomar uma bolada do desconhecimento.

Mesmo só assistindo a Copa, vale a sessão da tarde. A aula de geopolítica dos canarinhos. Dá-lhe gol, Brasil. O que não pode é a intolerância. Gosto é gosto, isso não se discute. Contudo, mesmo o mais — ou tão — cético como eu deve, ou melhor, tem a obrigação, de saber o porquê de não gostar. Agora, depois dessas bolas foras superadas, bola pra frente… Bora escrever.

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