CPBR://Virus

Na iminência do lançamento hollywoodiano de Ghost In The Shell, poderia ser desta vez que eu poderia usar uma personagem ligeiramente mais próxima do público geral para fazer um comparativo dos meus sentimentos da experiência na Campus Party Brasil 2017.

Apesar de qualquer semelhança com Motoko Kusanagi em meus cabelos não ser mera coincidência — o tom saiu um pouco na reta final, passo longe do liso de animação oriental, mas entendedoras entendem — a referência mais próxima terá de ser ligeiramente menos badalada, às vezes até vista como menos densa e adulta que o cyberpunk com notas feministas lapidado nas obras representadas por Motoko, Gally (Gunnm) e Lain (homônimo).

Se parecer estranho discorrer a minha experiência de tecnologia e ativismo na CPBR 10 em um texto baseado em animação, pense em outra frase chave, a que usei durante todo o evento: eu sou um vírus. Um fantasma com uma pulseira verde no braço, um vestido com detalhes laranjas e verdes, sem ID, com status de palestrante, sem foto e nome genérico. Talvez isso lembre alguém a fãs de jogos e animes.

Na série .hack//, Kite é um avatar raro dentro do universo do jogo em que a série se desenvolve, conquistado através de evento, de uma classe de lutadores de espadas duplas. O nome não tem uma explicação original, mas o design concept era descrito como “Kaitou”, do japonês “ladrão fantasma”; simplificado para a pronúncia Kaito e então traduzido para Kite genericamente. Sendo um avatar, ele não tem um padrão de gênero atrelado à pessoa que o possui. Nas várias gerações de mangás, animes e games, há garotas que o possuem como Sora e Sakuya, apesar de o padrão de personagem dentro de jogo ser masculino. O “bracelete”, artefato recebido como elo dos mistérios que unem o mundo dos jogadores e o mundo dos administradores do jogo, é um item não consumível que possui dados de acesso de superusuário.

Não muito obstante, o folclore do hacker na cultura pop hollywoodiana, esta que agora dá o daguerrótipo de Scarlett Johansson à ciborgue criada por Masamune Shirow, também é de ladrões fantasmas e sorrateiros, invasores clandestinos, marginais. O são também pessoas de nações indígenas, pessoas negras e afrodescendentes, travestis e pessoas trans e não-binárias, mulheres lésbicas, pessoas bissexuais, homens gays não-normativos, pessoas neurodivergentes, pessoas com deficiência, mães, pessoas mais velhas, pessoas gordas. Uma das características mais subestimadas na série .hack// quando se trata dos avatares lendários Kite e Black Rose é justamente essa: os eleitos sempre são os excluídos da sociedade (claro, dentro do que são critérios de exclusão na sociedade japonesa, considerando ser uma animação japonesa).

Curiosamente, parece ser esse o critério excludente também para se ter direito a todos os grandes trunfos marketeiros que compõem a propaganda da Campus Party. Jamais será esquecida por mim a história de Mari Bonfim em 2016, barrada por portar, veja só, papinha. Motivo o suficiente para me fazer questionar as “questões de segurança” alegadas: veja só, invadi o evento. Um ano depois, estive lá com microfone em mãos para dizer que o fiz. Mas isso, veja bem, não muda os fatos: continuo Kite. Mari idem. Buh D’Angelo, primeira pessoa não-masculina negra a palestrar na posição de empresária de tecnologia de informação na CPBR, ibidem. Sequer teve direito a seu nome social.

Verdade seja dita: em dois anos que a Campus Party Brasil se dignou a falar sobre gênero em seus palcos, houve uma modesta evolução. Na CPBR 9, além do fato lamentável supracitado, tivemos apenas 4 palestras de mulheres durante todo o evento em horários que se possa considerar dignos (leia-se: horários entre 11 da manhã e 10 da noite). Destas, apenas uma delas contava com uma pessoa negra não-masculina, apenas uma tratava a discussão de gênero, e apenas uma falava um assunto de nível técnico avançado (por um feliz acaso, a tratada pela pessoa negra não-binária — Alex Gomes). Nesta, ao menos, tivemos maior participação de pessoas negras e, clandestinamente, a presença de pessoas trans começa a ser discutida. Talvez uma pauta para a CPBR 12, já que primeiro é preciso discutir novamente o limite das liberdades individuais para que o evento volte a ser viável. Pareceu bem consensual que a CPBR 10 foi a pior de todas as edições em termos de organização de espaço, atenção ao público e palestrantes, custo de vida no evento, concentração do público nos horários de pico.

Infelizmente, tal pessoa trans não tem como dizer-lhes que tem um nome na programação, ou um crachá de palestrante, e ainda passa por problemas triviais de organização. Felizmente, como Kite, mesmo tendo que entrar com um notebook contando com a boa vontade de uma integrante do coletivo, porém sem poder contar com a mesma boa vontade da staff (que disse que não haveria problemas em sair), tenho minhas missões cumpridas.

Como um bom “gamification of life” que se deve fazer — como toda travesti Macunaíma cuja “pista” muda mas o modus operandi hacker jamais se altera — participei do hackaton do EduLivre, dividindo minhas experiências de mestrado em tecnologia da educação (área em que discordo completamente da abordagem de gamification, mas isso é outra pauta). Participei de dois debates frutíferos, um sobre cidades hackeadas e outro sobre cyberfeminismo, cujas naturezas tendem à continuidade fora do ambiente da CPBR e os resultados e alcances me surpreenderam muito positivamente, especialmente porque me senti muito crítica com relação ao público que gostaria que tivesse acesso.

Para não dizer que sou injusta, fico muito surpresa com a participação de garotas negras secundaristas nos dois dias em que estive no evento. E também com a quantidade de mulheres campuseiras nas atividades das madrugadas. Mas não dá para dizer que é mérito da organização.

Mérito é quando cria-se políticas de inclusão, quando cuida-se bem de seus palestrantes, voluntários e staff, quando você procura suas palestrantes mulheres com devidos recortes com alguns meses de antecedência.

E de preferência quando você tem a decência de organizar sua grade de modo a colocar uma menina de 9 anos recém-feitos para palestrar em um horário melhor do que 1 da manhã ou ao menos modifica sua grade de acordo no programa oficial.

E sobre como saí de lá com o notebook: primeiramente, ano passado eu saí de lá com o famigerado raio-x, lembram? É só fazer trabalho em equipe. E enfim, como diriam minhas 0 amigas travestis que tiveram quaisquer oportunidades de ir ao evento, como quase eu não tive: fiz a pêssega. Mostrei a pulseira com a bolsa fechada e passei. Oras, se eu estou de pulseira eu não tenho como ter entrado com notebook, não é mesmo? É o poder do bracelete.