Breve comentário sobre a rola de Boechat

Foto: Reprodução / Band

Acredito que existe uma proporção necessária entre ressalva e fracasso. Dizendo de outra maneira, me parece importante ter a consciência de que errar (na postura e na ação) é inerente ao humano, ainda mais num mundo transbordante de erros como o nosso — e que agir como se todo erro merecesse condenação igualmente feroz elimina um meio de campo fundamental, espaço onde se dá todo o esforço de evolução humana.

Para mim, a menção à rola feita por Ricardo Boechat em resposta a Silas Malafaia é claramente equivocada. Contudo, está inserida em um contexto de dura crítica a um inimigo declarado e hostil de grupos LGBT. Boechat é pessoa esclarecida, que certamente domina alguns conceitos envolvidos em discussões de gênero e de identidade LGBT — mas certamente não todos eles. Ou seja, trata-se de caso digno de ressalva, de se lamentar que a colocação tenha saído torta a ponto de poder ser frontalmente ofensiva a grupos que estavam sendo supostamente representados na fala em questão. Mas certamente não é um exemplo de fracasso. Ignorar esse contexto, limitando-se à condenação da ressalva, pode talvez criar condutas mais adequadas, mas tenho dúvidas de que construa uma consciência maior a respeito do tropeço cometido pelo jornalista.

Quando se diz “Não aplaudam Boechat, ele falou em rola, é um imbecil” estamos 1) tomando a ressalva como absoluto 2) condenando um padrão de linguagem sem, necessariamente, desconstruir seus elementos constituintes. Penso que parar de achar que contato sexual com um pênis é tratamento para o que quer que seja é um passo importante enquanto transformação, e sem dúvida preferiria que Boechat não tivesse usado a expressão. Mas penso também que jogar todos os holofotes nisso, desvalorizando o gesto nada usual de uma figura pública que se ergue contra um cidadão notório por sua intolerância, é pura separação — ou seja, valorizar o que distancia, mesmo pequeno, em detrimento do que aproxima, mesmo enorme. E, lamento dizer, me parece que é juntamente esse tipo de processo que gera preconceitos, ao invés de diminui-los.

O que se espera? Que as pessoas, identificadas ou não com o combate a quaisquer mecanismos de opressão, tomem consciência de como esses mecanismos são reproduzidos por elas próprias em várias ações cotidianas — ou apenas que elas parem de falar bobagem, que deixem de usar a frase excludente ou preconceituosa por puro esforço de auto-proteção ou adequação social? Queremos que as pessoas parem de dizer “não sou tuas negas” ou de usar homossexualidade como xingamento por consciência ou por medo de reprovação? Impedir que as pessoas mencionem o órgão sexual masculino em um contexto de “cura” vai, por si só, fazer com que as pessoas sejam menos machistas e o mundo menos falocêntrico? E mais: quanto da postura que cobramos dos outros está aplicada sobre nós mesmos, sobre nossos comportamentos e modos de expressão? O quanto estamos, com nossa postura de tomar ressalva por fracasso, engrossando as fileiras opostas? Desancar o preconceituoso destrói o preconceito, ou será que talvez ainda o reforce, ampliando o fosso entre as pessoas e, por consequência, eliminando os espaços de interlocução onde o preconceituoso pode quem sabe mudar sua visão das coisas?

Boechat não é herói, mas também está longe de ser um vilão disfarçado. Seu gesto principal — erguer a voz contra Silas Malafaia, que penso ser uma das figuras mais perniciosas de nosso tempo — foi marcante e de forte potencial simbólico. Finalmente houve quem confrontasse uma das pessoas que mais espaço tem para incentivar preconceito homofóbico. Como isso pode ser ruim? Que o jornalista, se possível, pare de mencionar uma rola como solução para os problemas de Malafaia — o que, inclusive, atribui a postura do pastor a uma homossexualidade reprimida, agindo de forma inconsciente para retirar da heterossexualidade a responsabilidade por atos de homofobia. Que seja feita a ressalva. E só. O fracasso é outra coisa, muito mais próxima de Malafaia do que de Boechat — e ajudar a confundir essa fronteira seria, aí sim, um desserviço daqueles.

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