O amarrado no poste era filho de alguém. E se fosse teu?

Seria abandonar completamente a esperança no debate, mas tem horas que dá vontade de reverter os argumentos insensatos e trogloditas dos “tem mais é que matar” contra eles próprios, sendo tão irracional quanto eles. Tipo assim:

TÁ COM PENA DE VAGABUNDO? LEVA PARA CASA!
Beleza, queridão. Então pega o pessoal que linchou o assaltante amarrado no poste e leva para casa também. Dá comida para eles, coloca para dormir na cama do teu filho etc. Afinal, se defende, tem que cuidar e sustentar, né não?

SE ACONTECE COM UM FILHO TEU AÍ TU VAI VER O QUE É BOM!
Vou ficar arrasado, sem dúvida. E se acontece com um filho teu? Se pegam um filho teu, dizem que ele é bandido, amarram no poste de rua, arrancam a roupa e espancam até matar? Imagino que tu vais aplaudir, já que é um bandido a menos? Se bobear vai dar umas pauladas também — afinal, bandido tem que morrer, e se pegaram é porque pessoa de bem não é!

DIREITOS HUMANOS PARA HUMANOS DIREITOS!
Isso aí. Se tu dirigires bêbado e te pegarem na barreira, que o azulzinho desça o sarrafo! Se tu caíres na malha fina do Imposto de Renda, vinte anos no Presídio Central, sem fiança! Se o teu filho roubar uns chicletes na venda da esquina, cadeia nele — sem essa de ficar protegendo o bandido só porque é menor de idade! Se te pegarem sendo racista e homofóbico em redes sociais, pelourinho para ti, sem choro! Direitos Humanos para humanos direitos!

Isso não nos levará a lugar algum, sabe. Enquanto o outro for sempre aquele que deve ser punido sem perdão e sem ressalvas, sem que meu argumento jamais incida sobre mim e os meus, estaremos condenados. O jovem negro e pobre espancado até a morte por tentar um assalto mal-sucedido era filho de alguém — e o problema, em termos de consciência coletiva, é esse mesmo: é sempre o filho de outra pessoa, nunca um dos meus. A projeção, tão fácil e explorada de forma tão sórdida por comunicadores e políticos irresponsáveis, cabe sempre à vítima que não tem o rótulo do crime — mesmo que, muitas vezes, quem comete o crime inicial seja ele também vítima de terríveis crimes posteriores.

Eu quero que meus parentes e amigos recebam o mesmo tratamento que julgo adequado a um criminoso: com respeito a sua integridade física e de direitos, sem tortura, com julgamento justo e punição adequada, sem excessos. Responda com sinceridade para ti mesmo: tu desejarias para teus parentes o mesmo tratamento que exige para o criminoso da manchete?

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