O homem branco e a súbita simpatia dos justiceiros

Imagem: Reprodução / O Dia

Acabo de fazer uma rápida tour pelo twitter e pelas caixas de comentários de alguns sites de notícias, vendo o que estava sendo dito sobre a condenação de Anderson Lúcio de Oliveira a 5 anos de prisão em regime semiaberto em SP. Para quem não recorda, ele aplicou uma cotovelada em Fernanda Régia Cezar na saída de uma casa noturna, em agosto do ano passado — um golpe que a deixou durante 15 dias na UTI. Claro que minha amostragem não tem qualquer valor científico, mas me chamou atenção a razoável quantidade de comentários favoráveis ao agressor — algo que, como qualquer um sabe, vai totalmente contra a maré no que se refere a matérias sobre crimes em sites noticiosos.

Embora a maior parcela dos comentários que vi seja coerente em sua sede de sangue, seja de qual criminoso for, quantidade quase igual de postagens declarava piedade pelo homem ter ficado tanto tempo na cadeia esperando julgamento, colocava no comportamento da mulher agredida a maior responsabilidade pelo acontecido, dizia que é normal um homem ficar nervoso com provocações e reagir etc. Um desfile de atenuantes inusitado, ainda mais numa sociedade (e num espaço) onde tornou-se corrente exigir a morte do ladrão de frutas, onde qualquer crime parece passível de agressão ou execução do criminoso sob aplausos e assovios. Uma consideração que, por exemplo, vê-se em quantidade imensamente menor em casos onde jovens negros são mortos amarrados em postes ou durante ações policiais no alto do morro.

Vestindo terno, Anderson saía de uma noitada enquanto uma mulher aparentemente alcoolizada dirigia a palavra a ele e a outros homens presentes. Ao agredi-la com o cotovelo, causando um coágulo em seu cérebro que poderia ter sido fatal, ele fazia algo que é visto com naturalidade por muita gente: exercia, de forma brutal, seu suposto direito de homem que coloca a mulher no que, para muitos, é seu devido lugar de subalterna. Muitos talvez até reconheçam o crime cometido por Anderson, mas enxergam em Fernanda algo que os incomoda ainda mais, o que lança uma tinta mágica relativizadora sobre toda a situação. E é em concordância com esse estado de coisas, creio eu, que as pessoas usam seus canais de comunicação para declarar, de diferentes formas, sua simpatia pelo criminoso da vez. Porque não enxergam nele o criminoso do estereótipo que odeiam, porque não acham tão crime assim o tipo de crime cometido e mais: porque, em maior ou menor grau, conseguem enxergar a si mesmos naquele local, naquela situação. Ou como o homem branco de terno que tem autoridade para agredir, ou como a mulher que não estaria agindo da forma correta e portanto pede para apanhar.

Temos uma sociedade cada vez mais doentia, onde bandido bom é bandido morto, mas nem sempre. Onde um negro em um poste não tem benefício da dúvida, mas onde alguns concederão ao branco bem vestido todas as ressalvas de que ele precisar. Onde uma criança de dez anos morrer com um balaço na cabeça às vezes pode ser certo e, ao mesmo tempo, a prisão preventiva contra um adulto de pele branca pode parecer um excesso pleno de injustiça. Onde arrebentar a cara de uma mulher não parece tão grave, e no fundo é culpa da própria mulher que nao tirou sua cara do caminho do homem. Onde tudo é a mesma coisa, todo bandido o mesmo bandido, toda pena deveria ser a mesma pena — mas de repente surge uma paródia de lucidez, um espasmo de ponderação que, mesmo justo, torna-se injusto por favorecer sempre as mesmas pessoas, nos mesmos cenários, nas mesmas relações de poder. No fundo, o que a gente quer é o respeito às posições estabelecidas: que o homem branco vá tranquilo para casa, que o jovem negro vá para a cadeia, que o macho bata na cara e que a cara da mulher se disponha a apanhar. É a distorcida coerência de uma posição que, à primeira vista, parece fervilhar de contradição. Somos inabaláveis em nossa tolerância às opressões.