Quem acha que “tem mais que matar” está jogando contra os policiais

Foto: André Gustavo Stumpf

O cidadão que comemora morte de criminosos acha que está do lado dos policiais. Talvez sinta que estamos numa guerra, e que em semelhante cenário é preciso tomar posições claras, sem nuances ou transigências. Os que propõem tons de cinza na discussão estariam, então, ficando do lado dos criminosos — um raciocínio que julgo simplório e até desonesto, mas que infelizmente encontra eco, inclusive no comandante-geral da Brigada Militar do RS. Os “formadores de opinião” estão atrapalhando o policial no cumprimento de seu dever: deixem que ele atue da forma que for necessário, de preferência mandando o bandido para o quinto dos infernos.

O que essas pessoas não entendem é que, na verdade, estão jogando precisamente no outro time. Estão indo contra, e não a favor, dos interesses dos policiais.

Deveria ser desnecessário enumerar os inúmeros problemas de nosso sistema de segurança. As prisões são masmorras onde nada funciona com o mínimo de dignidade, onde sobreviver passa por embrenhar-se em facções criminosas e nas quais qualquer tipo de reinserção social fica no terreno da utopia. Fala-se em impunidade, mas é difícil casar esse conceito com presídios superlotados em uma das maiores massas carcerárias do planeta. Prende-se mal, gente que não precisa estar presa fica na cadeia e gente que precisa ser isolada da sociedade acaba ficando do lado de fora. Discussões inescapáveis, como a descriminalização das drogas, são bloqueadas. E as condições de trabalho dos policiais? Bom, basta notar que a nota do comandante-geral da BM critica longamente os “formadores de opinião”, mas não diz uma palavra sobre a penúria que vitima sua tropa (quando não relativiza abertamente esses problemas), para perceber como esse assunto é jogado lá para trás na lista de prioridades.

Diante disso tudo, qual a solução que se propõe? Que o policial, funcionário desamparado e elo mais fraco dessa cadeia de equívocos, dê conta sozinho, no peito e na raça, de todo o problema. Sair gritando por aí que “tem mais é que matar” é basicamente chegar no policial e dizer: resolve aí, já que ninguém resolve. É uma injustiça brutal com profissionais que atuam numa corporação sucateada, com salários baixos e parcelados, tendo que compensar no sacrifício a falta de efetivo.

Lidar com criminosos é uma responsabilidade sistêmica, que cabe a diferentes órgãos em diferentes níveis. Estamos jogando tudo na conta do policial, de forma irresponsável e ilegal, porque fazê-lo parece mais fácil e imediato do que resolver todos os inúmeros problemas do sistema de segurança. Para fugir de nossa responsabilidade coletiva, optamos por massacrar esses profissionais. Tratar policiais como “heróis” traz em si esse subtexto deplorável: o de que devem fazer esforços e sacrifícios muito além do razoável, em condições amplamente desfavoráveis, como verdadeiros salvadores da coletividade. Não cabe a um policial ser super-homem — e não temos o direito de pedir que tenham superpoderes para acabar com a criminalidade.

O lado cruel do “tem que matar” está todo aí. A sociedade pede solução imediata, exige o sangue do bandido e que todos que são contra saiam do caminho, mas não admite (ou não quer admitir) que está jogando sobre o policial boa parte do ônus desta gambiarra. Quem diz que “tem que matar” não apenas endossa a situação de precariedade das polícias, como faz dela ainda pior, pois naturaliza a precariedade profissional e a pressão psicológica que esses profissionais sofrem. Deixam de cobrar aqueles que não agem para dar às polícias as melhores condições de atuação, achando que tudo se resume a quem aperta primeiro o gatilho. A colheita disso tudo? Temos o dobro de mortos em confronto com polícia na Região Metropolitana de Porto Alegre, no comparativo com 2015. Exigindo que matem os bandidos, estamos mandando aqueles que chamamos de “heróis” para a morte.

Fora da tela, o bangue-bangue mata pessoas de verdade. É profundamente cruel assumir o papel de plateia nessa tragédia, ao invés de cobrar dos diretores que diminuam o banho de sangue. E é lamentável ao extremo ver quem tem o dever de proteger a corporação optando por jogar para a torcida e incentivar esse delírio coletivo, que só ajuda a levar profissionais e pais de família para o cemitério.

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