Sobre Chico Buarque, Paulo Sant’Anna e os tranca-rua de debates

Foto: Rennan Teixeira

O xingamento no meio da rua que meia dúzia de mal-educados cometeram contra Chico Buarque resume de forma tristemente perfeita o que virou, para muitos e para cada vez mais gente, o “debate” nas redes sociais. Chegar xingando e acusando desconhecidos, da forma mais primária possível, e ainda exigir que o alvo participe do “debate”, sob pena de ser ridicularizado por ter “acusado” etc. É a estratégia de quem grita mais alto, transformada em tranca-rua de qualquer discussão minimamente elaborada.

Lembro de uma ocasião, há muitos e muitos anos, em que ouvia o programa Sala de Redação, da Rádio Gaúcha. Era uma daquelas edições especiais, onde montavam um palco no Largo Glênio Peres ou em algum parque da cidade e faziam o programa em público, com um monte de gente assistindo em volta. Logo na abertura do programa, Paulo Sant’Anna (gremista, para quem mora fora do RS e não sabe) e Kenny Braga (colorado) simulavam uma discussão Gre-Nal, cheia de ironias e cutucadas. Tudo bem divertido e leve, até que em um breve silêncio, logo após Sant’Ana fazer um de seus gracejos, surgiu na multidão uma voz estridente e perfeitamente audível gritando:

- Cala a boca, velho de merda!

No fundo, as pessoas que hoje gritam na rua contra Chico Buarque, e as pessoas que inviabilizam discussões sadias em redes sociais na base de acusações e xingamentos, são iguais em espírito ao espectador/ouvinte que ofendeu Sant’Anna. Acham que estão debatendo, mas estão apenas atrapalhando as reais discussões, da forma mais imatura e tosca possível. Incapazes de articular, querem impedir a articulação. Acreditam ser debatedores legítimos, mas comportam-se apenas como bobalhões se metendo onde não foram chamados, tentando reduzir tudo a seu paupérrimo repertório de meia dúzia de frases feitas e palavrões.

Não podem passar. E não passarão. E isso não tem nada a ver com a visão política ou ideológica nem de Chico, nem de Sant’Anna, nem de ninguém. Tem a ver com a preservação da esfera pública, do debate e do terreno das ideias. Além, é claro, da civilidade necessária para que isso tudo seja possível. Os tranca-rua de debates são nocivos, envenenam as discussões, e assim devem ser expostos e denunciados. O que vale também, é óbvio (ainda que em outra dimensão), para quem responde o rótulo com outros rótulos, chamando os xingadores de playboys, coxinhas etc. Más posturas se combatem com boas posturas, a balbúrdia se enfrenta com clareza de argumento e de ideias.

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