Repentino Acorde Menor no Coração

É difícil acreditar às vezes a quantidade de tempo que passei sem sentir meu coração. Nunca tinha entendido porque as pessoas diziam coisas como “aperto no coração”, “coração na boca”, entre tantas outras. Nunca tinha sentido alguma coisa forte no peito, então sempre achei que era exagero, ou simplesmente maneira de dizer.

O que sempre senti foi algo na boca do estômago, um frio na barriga. Quando era pequeno o frio era bom, era o friozinho da antecipação, da empolgação de viajar ou de fazer alguma coisa legal. Cresci e o frio virou o frio da ansiedade, um frio na barriga ruim, de não querer enfrentar as coisas, de incapacidade.

Tinha outra coisa sobre esse frio, talvez a mais importante, que eu desconhecia. A ansiedade é a barreira do sentimento. Desde criança aprendi que não devo sentir várias coisas: felicidade, orgulho, raiva e vergonha. Meus pais me ensinaram isso sem querer, pois eles também foram submetidos à mesma lição. E assim, a herança continuou por gerações de meus antecessores e me foi entregue. “Nós, seus pais, não nos permitimos experienciar uma série de emoções, e você deve fazer o mesmo. Se você se expressar livremente, isso vai nos incomodar, e a consequência disso é geralmente a agressividade do seu pai em direção a você. Não lembre a ele que é possível sentir-se bem, pois isso vai forçá-lo a enfrentar as suas barreiras, e ele tem medo de fazer isso”.

Hoje estou no vôo indo pra brasilia, e senti um nó na boca do estômago fortíssimo. Por sorte treinei o bastante pra me aperceber que era alguma emoção querendo sair e que eu não estava deixando. Cutuquei um pouco e a intuição veio: a emoção é felicidade. Voce tá feliz de ir pra casa, ver sua familia, seus cachorros, seus amigos, e sair um pouco do isolamento e das dificuldades que a vida na gringa impõe.

O que veio em seguida foi uma sensação que raramente experienciei, e a última vez eu devia ter uns 8 anos. Um calor no peito, uma onda que sobe, exala dos pulmões, preenche o coração, sobe pela garganta e enche os olhos d’água. Depois desce pelos ombros numa onda de energia e ruma pelas costas até a base da espinha. Fernando, essa é a felicidade, felicidade, esse é o Fernando. Ela já me conhecia, não precisava apresentar. Esteve sempre aí dentro de mim tentando sair, e meu medo aprendido dos rompantes de meu pai é que a escondiam de mim.

O nó no estômago sumiu na hora, é impressionante. A ansiedade é a manifestação física do esforço que eu faço pra empurrar pra baixo algo que quer sair. E o truque da ansiedade é que ela mascara o coração. O calor no peito da felicidade, a incandescência da raiva, o aperto da tristeza e da saudade, e o coração fundo da vergonha. Nunca tinha sentido nada disso, era só boato de poeta morto pra mim. A ansiedade bloqueava tudo, era o jeito de ela se tornar eterna. O maior truque da ansiedade é te convencer que as emoções não existem. Te convencer que elas não estão lá dentro, respondendo a tudo que acontece com você e querendo sair quando é a sua hora. E o mais engraçado é que quando você entende isso, não é tao difícil sentir a emoção soterrada pela angústia. Quanto mais forte a ansiedade, mais forte é a emoção querendo sair. Basta uma cutucada e prestar atenção no peito que logo ele te mostra o que é.

A quanta coisa já não me submeti pra fugir dessas emoções? Quantas crises de ciúme pra fugir da vergonha? Quanta manipulação e narcisismo pra fugir da solidão? Me pergunto agora o que é que fiz pra fugir da felicidade, certamente que alguma coisa foi. Talvez escolher sempre a mulher errada? Uma que eu sei que não vai me fazer feliz? Só sei que esse impulso de me impedir de sentir felicidade explica tanta coisa. Porra, nao é surpresa que a vida pareça vazia às vezes se tem alguém dentro de você te impedindo de sentir felicidade, e te dizendo que ela não tá lá dentro.

Isso explica inclusive o que acontece comigo geralmente em festa. Chego e dou uma travada, grudo em alguem que me seja bem familiar e evito socializar. Já melhorei um pouco nisso mas no geral isso sempre acontece em intensidades diferentes dependendo de meu estado de espírito. Aí um dia aprendi que mulher responde muito ao seu estado de espírito. Se voce tá bem, mas bem mesmo, o que meus amigos chamam de “estar glorioso”, você pode fazer absolutamente qualquer coisa que dá certo, e as “mina pira”. Mas eu não sabia ainda que a ansiedade tava lá, trabalhando contra mim, me impedindo de me sentir realmente bem. Com isso eu meio que aprendi jeitos de forçar um estado eufórico, simular confiança e desapego etc, tudo que eu sabia que transmitiria a idéia de ser glorioso. Mas no fundo sempre achei bem dificil chegar nesse estado. O que senti hoje aqui, sentado nesse vôo, o calor no peito, foi mais perto da glória do que a grande maioria das festas em que já estive. A glória está mais perto do que muitos pensavam, eu inclusive.

Falar nisso, Jim O’Rourke é bom demais, to ouvindo.

Preciso anotar também o que percebi sobre meu pai, lendo o livro “te odeio, nao me abandone”, que trata de borderline personality disorder. Já namorei com no mínimo uma, e provavelmente 3 pessoas que tinham essa condição, em níveis diferentes. Uma, que certamente tinha, não conseguia ficar um minuto sozinha, tinha rompantes de ódio e de amor num espaço de minutos, e me deixava em tensão permanente esperando o outro lado da moeda emocional. Outra, molestada pelo pai quando criança, e ex-suicida, não me mostrou quem era até a mãe morrer, e ela deixou escapar tudo que tinha escondido de mim. Pulei fora e saí correndo quando vi o que tinha ali por baixo: a manipulação, o medo do abandono, o medo de não achar ninguém, a necessidade desesperada de achar qualquer alguém, e um escuro destrutivo igual eu nunca tinha visto antes. Já a mais recente adição à minha coleção de viúvas negras, talvez tenha sido a pior. Não sei se tecnicamente tinha BPD, não sei de nada, mas desconfio de muita coisa. Desaprovação constante dos pais, distantes, indiferentes e críticos em relação a ela. Depressiva até o ultimo furo, apegada e completamente apaixonada por mim, o que alimentava gostoso o meu lado narcisista carente. O que elas não falam, meu amigo, é que depois da paixão vem a conta. Depois do alto vem o baixo; depois da idolatria, o desprezo; depois do cuidado, a tortura; depois do carinho, a provocação; depois da entrega, a rejeição. Chega de contrastes, se nao entendeu até agora, namore com uma. A ideia básica é uma sexualidade e uma atração fantástica, inteligência, papo maneiríssimo, idolatria e paixão fulminantes. O sexo é a isca, a idealização é a armadilha, e a dependência, o alçapão. O segredo é o seguinte: elas não conseguem esconder quem são…ninguém consegue. No primeiro telefonema, na primeira conversa, na primeira saída, elas sempre entregam. Sai alguma coisa da boca delas que dá um embrulho e que todo ser saudável pensa “isso aí num é normal não, isso é bad trip.” O que falta nessa hora é uma inteligencia emocional mais apurada no brasileiro, uma honestidade consigo mesmo em relaçao à merda que você está prestes a fazer, e o ralo de bosta em que você tá se metendo. O que falta é um amigo por perto, uma intervenção cósmica ou um Jesus de Nazaré que te toque no ombro e diga “foge dessa porra, meu filho. Cê já tá cansado de saber o monstro que te espera na esquina. E quando te apresentar o monstro, ela já cuidou de te roubar o escudo faz tempo. E enfrentar o monstro desarmado, desprotegido e pelado, meu filho, nem eu, que sou sinistro e ressuscitei. Nem São Jorge dá vacilo perto de dragão.” Tá na bíblia, procure lá.

Falei que ia falar de meu pai e não falei. Típico, devem pensar os que me conhecem. Mas a demora era pra dar a introdução. Cheguei à conclusao é que meu pai tem borderline de leve. Não é caso terminal, nem pra despachar pro Galba Velloso (hospital psiquiátrico em Belo Horizonte, que ironicamente herdou o nome de meu bisavô, o psiquiatra chefe.) Ironia é pouco, que o nome do psiquiatra virou sinônimo pra doido em BH, e pior ainda que meu pai, que também chama Galba Velloso, seja meio doido. Muito provavelmente em função do jeito que foi criado pelo seu pai, Fernando Velloso, mesmo nome que o meu. Fernando Velloso, meu avô, também deve ter passado pela mesma coisa com seu pai, o famoso Galba Velloso do hospital. Daí a herança, lembra? Família de psiquiatras se recusa a lidar com emoções…se fosse manchete de jornal eu dava até risada. Essa herança de evitar sentir e em vez disso reprimir foi ensinada de pai pra filho por gerações. Na hora que o filho revolta e dá um surto, o pai diz: essas coisas são desequilíbrios químicos na sua cabeça, toma um remédio que passa, conversar não adianta nada. O filho é o vacilão perene, que não consegue controlar suas dificuldades, e ingrato pelo pai que lhe proporcionou tudo do bom e do melhor. Genial né?

Apresento-me então como o primeiro Velloso que tem consciência plena do que viemos fazendo há gerações. O primeiro que tem a chance de romper com essa bobagem e não cagar completamente no próprio filho. Mas fazendo justiça, os pais da minha familia, inclusive o meu, são super dedicados e presentes, e preciso registrar isso. Geralmente elogio não tem lugar em anotações pra psicólogo, mas fiz questão. O problema é o que eles não entendem sobre si mesmos e sobre o que estão fazendo com os filhos. Essa é a herança a que me refiro, um encosto geracional que grudou na minha família. Assim, sou eu o pai de santo que vai dar um passe definitivo nessa porra, Axé e Saravá meus filhos.

Desviei de novo do assunto do meu pai especificamente. Vamo lá. Meu pai tem varias características de BPD: não consegue ficar sozinho, minha mãe não tem um instante que consiga fazer uma coisa sem meu pai perguntando onde ela tá, e pedindo (ou brigando) pra ela vir ficar com ele. Meu pai tem rompantes de fúria completamente imprevisíveis e motivados pelas menores bobagens imaginaveis. Seu temperamento, que é marca registrada dos Vellosos, o ajudou na vida profissional, onde ele resolvia coisas na base da gritaria que ninguém mais conseguia resolver. Além disso sempre foi inteligente pra caralho e falava de improviso com uma habilidade sobrenatural. Então até agora tem dois clássicos da BPD: incapacidade de ficar só e mudanças vertiginosas de humor. Outra é uma leve paranóia, uma mania de perseguição achando que ele era destinado a coisas grandiosas e que o mundo e os seres medíocres impediram seu progresso, e que agora ele é forçado a conviver com pessoas aquém do seu nível. Atire a primeira pedra quem nunca sentiu amargar a boca ante a mediocridade generalizada do mundo. Mas mesmo assim, isso não é razao pra perdoar narcisismo sem limites. Carência, apego excessivo, medo de abandono. Tá tudo ali, dentro dele. O maquinista é uma criança medrosa, e o corpo adulto se nega a enfrentar isso. Se enfrentasse passava, talvez. Ou nao, sei lá, tá velho já. Dizem que não mudam depois de uma certa idade.

O crucial de anotar é o seguinte: nao querendo enfrentar os seus proprios problemas, meu pai esculpiu seu filho (eu) de forma que eu fosse complementar à sua propria personalidade. Ele é o narcisista, e eu o indefeso. Ele queria alguém que nunca o abandonasse, suprisse sua solidão, o fizesse sentir poderoso ao me proteger, e que morresse de medo dos seus rompantes de fúria. Me treinou assim durante anos, décadas. Sem querer, claro, mas querendo. E olha que surpresa e que maravilha, agora eu sou complementar também a outras pessoas doidas, que são malucas em maneiras semelhantes. Minhas namoradas todas também não conseguiam ficar sozinhas, tinham medo de abandono, e tinham alternâncias de idolatria e fúria e sadismo. Coincidência? É por isso que eu sempre tive um alarme na cabeça…sábado de sol, to andando na rua na boa, ou num bar trocando idéia….recebi mole exagerado da mina sem ter feito nada? É DOIDA! Na certa, pode apostar. Elas farejam de longe. Esse aí é perfeito, complementa minha BPD que é uma beleza. Tá fudido, vai virar meu pai, namorado, psicólogo e vítima….sem contar boneco de vodu.

De qualquer maneira, meu pulso tá cansado de digitar nessa merda de assento apertado da american airlines. A moral da estoria é que a gente tem que sentir a vida, e é isso que dá graça a ela. Chega de só assistir. Chega de ter medo da próxima mudança. Temos que sentir a tristeza das despedidas e a surpresa das novidades. Sentindo a gente faz menos merda que pensando, vive uma vida melhor e se envolve com gente mais saudável. E de vez em quando, olha só, dá pra gente pegar um avião, voltar pra casa pra uma vida que já não é mais a nossa, e sentir aquela alegria de encontrar muita gente que gosta da gente e que sente nossa falta. Quero continuar sentindo isso, de peito aberto e deixar a coisa fluir pra fora de mim. Vou lá contagiar alguma gata com essa alegria, sempre alerta e seguindo os conselhos de Jesus de Nazaré, padroeiro dos namorados de boa-fé.