Ditadura e memória: ecos de 1964 em 2016

Maria Auxiliadora Lara Barcelos, guerrilheira presa, torturada e exilada pelos militares. Foto:Reprodução/Facebook
“ Só numa coisa eu te dou razão. Não devemos repetir. Não temos esse direito. Porque os tempos são outros. Nós também mudamos. Eu já passei dos 30 e você deve tá a caminho dos 40. Devemos ter vivido. É o mínimo que se espera de nós. E é importante não esquecer.” Os Campeões do Mundo. GOMES, Dias. 1979.

No mês em que o golpe civil-militar brasileiro completa 52 anos, o militar de reserva e deputado federal Jair Bolsonaro, em votação sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff, evoca a memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra para justificar seu “sim” à suspensão do mandato da presidente.

Coronel Ustra na década de 70 — G1/Reprodução

Ustra, chefe do DOI-CODI e um dos principais torturadores do regime, morreu no ano passado sem nunca ter sido punido por sua barbárie. Em arquivos da Comissão da Verdade, o coronel é responsabilizado pela morte de mais de cinquenta pessoas e pela tortura de mais de quinhentas.

“Tive os meus filhos sequestrados e levados para sala de tortura, na Operação Bandeirante. A Janaína com cinco anos e o Edson, com quatro anos de idade. […] Inclusive, eu sofri uma violência, ou várias violências sexuais. Toda nossa tortura era feita [com] as mulheres nuas. Os homens também. Os homens também ficavam nus, com vários homens dentro da sala, levando choques pelo corpo todo. Inclusive na vagina, no ânus, nos mamilos, nos ouvidos. E os meus filhos me viram dessa forma. Eu urinada, com fezes. Enfim, o meu filho chegou para mim e disse: ‘Mãe, por que você ficou azul e o pai ficou verde?’. O pai estava saindo do estado de coma e eu estava azul de tanto… Aí que eu me dei conta: de tantos hematomas no corpo.” Maria Amélia de Almeida Teles, militante do PCdoB e vítima do regime

O que torna tolerável que um deputado saúde a memória de um torturador? Por que certos segmentos da sociedade brasileira não se indignam com a ditadura e até pedem pelo seu retorno?

O golpe de 64 apoiou-se nos alicerces do domínio colonial para edificar estruturas de repressão duradoras — o comportamento truculento da polícia militar, por exemplo, é um reflexo do período. A concentração de renda também aumentou consideravelmente na época— ou seja, apesar do “milagre econômico” dos seus primeiros anos, o regime militar não se preocupou em atenuar as diferenças sociais existentes no país.

Revista Época/Reprodução

Esse suposto crescimento e a sensação de segurança que havia na época são pontos levantados por quem defende o retorno desse sistema; o que, quando somado ao momento turbulento que vive o Brasil, ganha força e cresce. A busca por um salvador que coloque o país nos eixos é fundamental nessa equação: Jair Bolsonaro, exemplo já citado, arrasta multidões aonde quer que vá e é muito popular entre uma parcela de jovens — há vários memes envolvendo e glorificando sua figura.

Exceto por familiares de vítimas do regime militar e de movimentos sociais à esquerda, os brasileiros nunca realmente pararam para analisar o período — e não poderia ter sido diferente. A Lei de Anistia foi conivente com os torturadores e os governos civis posteriores não se preocuparam em refletir sobre os impactos de um governo ditatorial que perdurou por mais de duas décadas. FHC, Lula e Dilma se apoiaram em figuras carimbadas do período militar, como José Sarney e Delfim Netto.

Lula e Delfim Foto:Facebook/Reprodução

O mote da Comissão da Verdade — “para que nunca se esqueça, para que nunca mais aconteça”- nunca foi tão necessário quanto agora, momento em que presenciamos a escalada gradual de um discurso que tem tudo para se tornar poderoso. Cabe a sociedade civil organizar-se numa reflexão coletiva sobre o que de fato foi o período militar e engajar-se a fim de pressionar STF e Congresso Nacional para que os arquivos das Forças Armadas sejam abertos e a Lei de Anistia, revisada. O que, nas águas turvas e agitadas em que vivemos hoje, está longe de ser a maior das preocupações.

Bibliografia e leituras recomendadas:

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