Monólogo de dois com a insônia — parte I

Noite passada recebi uma visita.

Após horas sem conseguir dormir — não sei exatamente dizer quantas, pois o tempo passa absurdamente mais devagar quando queremos mas não conseguimos dormir — , vencido pela insônia e pelo cansaço de um dia estressante, me deixei levar pelas marés dos meus devaneios, até perceber que já não estava acordado, porém, não dormia. Este curioso estado de calma hipnótica ocorre de vez em quando nos sonâmbulos mais sortudos, não chega a ser lúcido, mas nos preenche de um prazer tremendamente confortável, que no meu caso, foi interrompido por uma visita inesperada. Não o vi e ouvi entrar pela porta ou pela janela, estive distraído, mal sei quanto tempo passou ou que horas eram; estava frio, e a vela do meu criado mudo estava acesa.

Me limito a descrever a sua aparência, mes amis, e depois, quem sabe, contar-lhes-ei o desenlace desta noite extraordinária. O homem devia ter cerca de 50 anos mas os poucos cabelos que lhe contornavam a cabeça eram escuros, sem fios brancos. Usava um paletó branco, dum estilo antigo — minha avó tinha um parecido — , calças pretas e mãos grossas, como as de quem tem o ofício manual. Sobre a sua personalidade, não há muito o que dizer, tinha um ar de adulto na casa dos 50 anos, bondoso, atencioso e claramente solitário, daqueles que puxam conversa com a gente na praça. O mais curioso naquele personagem eu descobri depois, mas no começo era um mistério. Ele não era humano, talvez não existisse, talvez eu estivesse finalmente sonhando ou mesmo, tendo alucinações. Por hora, não importa, julguem por si mesmos, deixarei que o diálogo que se passou explique o essencial, limitar-me-ei apenas a narrá-lo, e peço desculpa desde já por não me lembrar como começou. Na hora que o monólogo do homem realmente despertou minha atenção, foi algo como:

— …Não fui eu quem criou o mundo assim. não sou responsável por ele, apenas estou aqui, como tu — e neste ponto nos assemelhamos — , como bode expiatório do destino e das leis naturais

Leis naturais? como pode um cristão acreditar em algo tão pagão como as leis da natureza e do destino?

— Para começar, não sou cristão. Decerto nem existo; não tive a sorte de me encarnar como tu e muitos outros, mas daria tudo por isso. Deixaria de lado meus conhecimentos e minhas dores — como pode sentir dores, tu deves estar a te perguntar, mas estou falando de outro tipo de dor, das dores morais, do lado de cá só há este tipo de dor -, tornar-me-ia qualquer coisa, um cobrador de ônibus, um telefonista, um frentista de auto-posto ou uma simples mulher gorda e cheia de varizes que vai à missa aos domingos acender uma vela para seu enteado. E viveria feliz assim, pois encarnado estaria, viveria e morreria. Ah, a morte, como é linda a visão de ter um fim.

Não queria ter que filosofar, queria apenas poder dormir. Mas se tu dizes o que dizes, não serias uma alma penada?, uma assombração? Tive um professor de teologia que tinha um pé no espiritismo, me dizia que ao morrerem, o que os mortos mais queriam era continuar a viver de qualquer forma, principalmente aqueles que foram materialistas, que mais se apegavam a matéria. Serias tu um deles?

— Vejo que começastes a considerar a minha existência para além da sua imaginação?

Não disse nada disso.

— Pois bem, façamos uma experiência: se eu te disser que nada disso existe?, que não existem reencarnações ou possibilidade de vida futura, de imortalidade para além da terra?, estarias satisfeito com a vida que tem agora? Claro que não. Me chama de cristão mas quem entre nós anda atrás de saber o que há além da vida. Há o nada; eu to digo. Quem dera se os homens passassem a realmente acreditar nisso de vez em quando. Mesmo os ateus e os descrentes, agnósticos de sua sociedade; essa gente não deixara de ter fé na imortalidade, e é somente à imortalidade que se resume a fé religiosa. Estes, sim, são os verdadeiros materialistas. Fazem caridade para receber caridade, evitam o pecado para não pagarem por isso. Isso é jeito de resolver as tentações? Enquanto houver leis, pecado e moral, haverá crime.

Mas há de se notar que a religião tem a sua função, o povo não está pronto…

— Falta coragem.

Não me interrompa.

— Mas não sou eu a sua consciência? Ordene que me cale.

Cale-se…

A religião haverá de existir, mesmo que não seja a cristã, a budista, o umbanda, o espiritismo ou o que for, o povo haverá de ter fé para continuar existindo, para não se matar. Enquanto houver um fator de ligação, a gente poderá conviver entre ela, acreditando que cada um é seu irmão. Quanto a imortalidade? Há outras maneiras de se consegui-la, como fazendo parte da história, por exemplo.

— Qualquer coisa pode conseguir imortalidade por fazer parte da história, seja na de uma cultura ou numa esfera menor, como numa família. Se o seu tio morre engasgado num ossinho de galinha, ele não ganha imortalidade por isso. Já o ossinho, torna-se para sempre parte da história do desgraçado. E o nacionalismo, têm funcionado? Pense; mesmo que um povo se unifique dentro de suas fronteiras, como numa nação, ele há de massacrar quem está além de sua fronteira.

O nacionalismo tem seus lados negativos e positivos, como disse algum filósofo alemão. Mas como ele já morreu, me permito acrescentar: depende da circunstância. No caso do Brasil, por exemplo, ajudaria muito.

— E depois, a nação tornar-se-ia uma potência, uma referência, e massacraria os que estão abaixo. A retórica é a mesma. Enquanto houver crença na imortalidade, haverá carnificina. Quando o homem passar a crer que somente o que existe é a vida e o momento, talvez ele possa aproveitá-la. Não digo de um ponto de vista, digamos, confortável… Isso seria tedioso demais, haveria dor também, pois ela faz parte de uma vida saudável, assim como a morte, o fim que daria sentido a todo o resto. Assim, os homens poderiam se amar. Já no meu caso, o que tenho? Dores de cabeça, dores de cabeça… Mas, com todo esse papo de o povo isso o povo aquilo, cá entre nós…

Não, eu não me importo… Sabes, consciência, tu já foste razoável comigo.