Monólogo de dois com a insônia — Parte II

— Veja bem, eu te respeitei, agora é a minha vez; é que do lado de cá, meu jovem, não se há o que fazer, não tem com o quê se distrair. Somos seres pensantes, apenas. A moral é um produto humano, da sociabilidade humana, é necessário para que a segunda exista, mas para nós, só restam as dores. Vemos o mundo e as realidades apenas como um economista vê os números, a diferença é que sabemos o resultado na maioria dos casos. O que quero dizer é que não ocorrem jamais surpresas ou fatos inesperados. Com o consolo de que podemos interferir nas mentes mais criativas e divertidas, às vezes.

— Não faz sentido, como podes tu ser minha consciência e ao mesmo tempo não fazer parte de mim?

Oras, talvez seja eu apenas um parte do seu inconsciente, das suas memórias mais profundas, dos fatos que você coleta no dia mas está ocupado demais se distraindo, talvez seja eu o monstro criado pelo seu descaso intelectual, talvez seja eu uma bola de neve emocional, uma incógnita, uma equação não resolvida e que agora volta para te atormentar, impeço o seu sono e poluo a tranquilidade da sua madrugada.

— Seja objetivo.

Não o posso ser, não sou, não existo. Talvez seja eu o próprio diabo? Sabes, uma vez um marinheiro, um aventureiro, melhor dizendo, resolveu ir até o polo-norte e lá passar um tempo. Encheu o barco de suprimentos e foi. No primeiro semestre, tudo certo, mas no segundo, o homem, que mantinha contato com a civilização por via de um rádio, começava a perguntar para os seus correspondentes qual o tamanho das coisas, de um trator, um campo de futebol. E o curioso: não só lhes perguntava o tamanho, mas também a sensação das coisas, de um abraço, um beijo, e até mesmo de um soco. E mais adiante, começava a misturar certas coisas; seria um trator bruto como um soco?, Ideias e pesadelos crescem como plantas?, Temperaturas se misturam como emoções d’um povo na platéia? E se eu fosse o diabo? decerto, o que é humano não me é totalmente estranho, afinal, sou das entidades o mais próximo de ser um humano, por isso não sou o próprio Deus, entretanto, tenho bom-senso e trabalho com a ética, senão eu seria o próprio Deus todo poderoso.

— Queres me dizer que o diabo veio me visitar? Tu? Desculpe, estou pegando no sono… Nada como escutar uma boa estória antes de dormir. Diga-me, seria eu então uma dessas mentes criativas, mas porque me tirar o sono e atrapalhar minhas faculdades mentais?

— Ainda não acreditas em mim? Pois bem, sou como o homem do barco, a diferença é que nunca escolhi estar onde estou, e com o tempo perco a noção das coisas. Para isso, nada como uma conversa com um jovem brasileiro para saber como andam as coisas. Sabe o que dizem dos jovens como vocês, lá fora? Que por mais que saibam pouco sobre as coisas, não têm limites para as suas presunções…

— É difícil de acreditar que tenhas feito tudo isso apenas pelo prazer de uma conversa.

Tem mais…

—De qualquer forma, já não ligo mais, há momentos, momentos como este, em que tudo me é indiferente. Tudo cansa, se tentasse dormir, provavelmente me cansaria. O que é confortável me cansa mas não me deixa dormir, numa palavra: tenho mais cansaço do que deveria caber em mim. Como podes ver, já começo a ser sincero com você, talvez porque o meu instinto curioso não me deixa perder um bom papo com o próprio demônio. Já que estamos aqui, que tal uma troca justa? Te faço perguntas, tu responde-mas; eu sano minhas duvidas e tu, terás com quem conversar.

Penso em outro tipo de troca, mas deixemo-la para depois; por enquanto, eu topo. Pergunte o que quiser.

— A moral, é sobre a moral que quero saber. Penso nisso às vezes; nascemos, vivemos, enfim, creio que lá pela certa idade somos completamente livres, ou, deveríamos, livres dentro de alguns conformes, algumas fronteiras imaginárias que temos entre cada um de nós, para que possamos viver entre nossos semelhantes, como a moral, por exemplo. Devia ela ser um produto da socialização, mas há pouco tu disseste algo sobre “os homens não serão livres enquanto não abdicarem da religião e do desejo de viver”. Significaria isso então abdicarmos não só do limite que a religião impõe, mas também da lei e da moral, salvo a ética, talvez. Mas como nós viveríamos assim, totalmente livres? Creio que não nos aguentaríamos, mas estou a divagar. O que quero dizer, é que como a moral e a religião — uma vez que as duas são praticamente sincréticas — podem nos dar um rumo para viver aqui, na terra, quando elas mesmas surgiram de conceitos extra-terrestres, ou seja, de Deus; e por que este mesmo criador nos deu a moral?, Para sermos bons num mundo ruim, que ele mesmo criou? É como ensinar a criança a fugir do castigo e depois castigá-la pela fuga. Já que foste tu quem lançou a ideia, e considerando o seu “posto”, me diga: estamos mesmos sujeitos à lei, não a dos homens, mas uma, digamos, natural?

Hmm, não sei.

— Como assim, não sabe?

— Não sei, oras, je ne sais pas; não me importo. O que você espera de mim?

— Tu não és o Diabo? Deveria saber dessas coisas.

Por que me preocuparia com isso? Vês, como pretende viver bem assim? Pare de se preocupar com essas coisas, são só perturbações, natural de uma mente orgulhosa… Agora é a minha vez. Enfim, tenho uma proposta a lhe fazer.