Rodeio sobre sistemas excretores e o ridículo

Descurtir e Des-visualizar talvez seja uma realidade próxima do mundo tecnológico. Talvez nos possibilitem demonstrar o nosso desprezo por conteúdos dos outros e simplesmente nos fazer esquecê-los. Imagina como seria bom… este é o assunto do rodeio de hoje.

…Porém, o mesmo não seja possível para a mente humana, o homem não funciona de forma tão direta quanto a tecnologia, infelizmente; não enquanto nosso querido criador não resolver de vez atualizar o nosso sistema operacional ou algo parecido. Sabe, às vezes o corpo e a mente humana funcionam de forma muito similar a um computador. Pense: ambos têm entradas das quais percebem a realidade de alguma forma, o computador contenta-se com as suas entradas usb, de fones de ouvido, cabo para internet, um cabo de força e uma saída para um monitor, enquanto nós, seres humanos, temos nossos cinco sentidos que se comunicam com o mundo exterior; ambos adoecem por conta de vírus; ambos podem possuir diversos arquivos em sua memória, o mesmo vale para o processamento de dados relacionados à sua realidade — mas talvez a maior diferença entre os dois é que a máquina é muito mais objetiva, uma vez que ela pode simplesmente excluir aqueles arquivos que desnecessariamente ocupam a sua memória e tornam o processamento de dados mais lento, enquanto o homem limita-se a guardar e sofrer com todas as memórias ruins e pensamentos pervertidos que poluem e anuviam o seu raciocínio.
 
 Invoquemos então os filósofos na nossa discussão: qual deles não teve uma vida no mínimo complicada? Bom, não se pode ter certeza de como era a vida de cada um além do que sabemos, mas qualquer pessoa que pensa nos assuntos relacionados a existência, vida, sentimentos humanos e outros temas irracionais pode ter uma noção de como é ruim lidar com tantas variáveis, ou como é difícil se concentrar numa coisa só quando outros temas insistem em nos tirar o foco — como quando se está lendo um romance ou estudando mas você só consegue pensar em coxinha de frango. Quanto mais se pensa, mais em contato se entra não só com as boas memórias, informações e conhecimento próprio mas também com as ruins, quão mais no fundo do lago da consciência se mergulha mais podres se percebe, do mundo, das pessoas e de si e sua própria história. A verdade é que pensar é doloroso. Agora, imagine como era difícil para estes caras, os filósofos e qualquer outros seres que tenham contribuído para o crescimento e amadurecimento do ser humano através da literatura; pensar e trabalhar uma ideia fixa, sem que ela sofresse os impactos das ondas de pensamentos desnecessários? Pois… mesmo que levemos em consideração o fato de que na época da maioria destes pensadores a quantidade de informação que bombardeiam-nos atualmente sequer existia — como a mídia digital, as excessivas propagandas que aparecem em todos os lugares de reprodução de conteúdo: websites, rádio, tv, na rua, nos carros, nos metrôs, etc. –, não podemos deixar de desconsiderar o fato de que: o homem nunca teve uma forma eficaz de driblar os dados inúteis, tal como uma maneira de eliminá-los: e é aí que chegamos ao ponto essencial do rodeio: a proposta. Do que o homem precisa? Resposta: de um cu para o nosso cérebro.

Sim, de um cú para o cérebro, uma maneira de absorver somente os “nutrientes necessários” daquilo que os nossos cinco sentidos são obrigados a engolir diariamente e descartar o que é desnecessário. Pense como a vida na metrópole se tornaria mais agradável. Mas se o homem precisou de milhares de anos para abrir mão dos seus sisos (nos dois sentidos da palavra), acho que só nos resta rezar para o grande criador do falho ser humano e pedir por uma versão 2.0 do homem.


Muito bem, esta é a hipótese, mas enquanto o grandiosíssimo criador não disponibiliza uma atualização para o nosso sistema operacional, qual seria a solução? Vejamos, que tal não começar por ridicularizar aquilo que achamos entender, exatamente aquilo que fiz até agora neste rodeio. Deixe-me destrinchar o assunto.

Já foi mal feita a comparação do ser humano com um computador. Agora, preciso compará-lo com um sistema do próprio corpo humano, o sistema digestivo. Como ele funciona? Não precisa-se entrar em detalhes, afinal isto nem importa. Sem digredir, basicamente comemos porque precisamos, temo-lo em nossas mãos e nos preparamos para engolir, talvez até identificamos o mesmo, colocamos na boca e sentimos o gosto, a textura (se equivale ao ato de ler), a seguir, o alimento passa pelo processo de digestão, é englobado por um líquido digestor (entendemos), o alimento então vai para os intestinos — cada um tem a sua função e cada um realiza a filtragem de uma forma, mas isso também não importa, o que importa é que as substancias que o nosso corpo necessita são filtradas, e passam a fazer parte do nosso corpo (compreendemos), depois disso, aquilo que não nos interessa é excretado e o que fica é só aquilo que necessitamos. Basicamente, é um processo irracional e objetivo, neste aspecto o corpo humano assemelha-se bem a uma máquina, mas isto é porque este processo faz parte do funcionamento do corpo e é necessário para que ele continue existindo. Agora, o pensar não é. O homem não precisa pensar tanto para sobreviver, pode, e muitas vezes ajuda, mas não é nada necessário para a sua subsistência. O racional vai além do instinto. É o que nos difere dos outros animais e da própria máquina, portanto é tão difícil entendê-lo e trabalhar com ele.

E o que seria o ato de ridicularizar? Bom, imagine a situação: você está com fome e se depara com um boi na sua frente. Não é possível simplesmente abocanhá-lo e saciar a sua fome. É preciso diminuí-lo, comê-lo aos pedaços, cozer a carne. Não quero entrar no quesito de se é certo ou não comer um boi ou, enfim, foi este talvez um péssimo exemplo, mas pode servir para o seu fim: faça agora o processo contrário, imagine que o boi é uma teoria muito complicada, uma matéria difícil e que você precisa estudar, precisa compreendê-la. O ridicularizar seria o ato de transformar as coisas que não entendemos ou não podemos entender de forma fácil em algo menor, que caiba em nossa boca. Algum filósofo disse algo parecido, só não recordo o nome, algo do tipo “o homem precisa ridicularizar aquilo que não compreende”. Vale ressaltar que na caminhada de entender o mundo o que vale não é o entendimento final, o real aprendizado está no “como conseguimos entender como as coisas funcionam” — isto sou eu quem diz agora e não algum filósofo desconhecido.

O ser humano não é tão simples e objetivado quanto uma máquina, não chega perto de sua eficácia. Suas emoções e seu estado emocional sempre tentarão atrapalhar o raciocínio lógico. Não que elas sejam um empecilho, mas porque elas também são importantes. Não temos um cu no cérebro, não podemos desfazer-nos ou empurrar para baixo do tapete aquilo que é visto como um problema menor — não por muito tempo –, portanto num momento de tanta informação e tecnologia, numa época tão individualista como a que vivemos, para o bem estar de nós mesmos é sempre válido lembrar de como nós mesmo nos sentimos, e o quão bem estamos com nós mesmos, antes de tentar desenvolver ou resolver qualquer ideia mais complexa.

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