a alma e o castelo de cristal

jardim fantástico v

eeeeeeeeei, eu gosto da sua nova linguagem!

bem-vindo. vejo que voltou novamente com a cabeça bagunçada. vejo que não aprendeu nada quando disse a você que gostaria de te ver me visitando num estado normal, e não desse jeito. mas estou feliz dessa vez.

na sua angústia você parece bem normal agora. o que você aprendeu? parece muito bom.

como a sua percepção está mais limpa, como seus olhos estão mais precisos! como seu corpo se move com uma flexibilidade agradável, como seus músculos inspiram e expiram com uma freqüência gostosa. a sua presença está agitando todas as flores do meu jardim, olhe só. estou muito feliz de te ver. mais do que o normal. mais do que das outras vezes.


conte-me: você quebrou hoje?

alguma vez já implorou para que Deus levasse a sua vida? para que todo esse inferno acabasse e aquilo que há de bom na vida, aqueles momentos onde não há mais nada se não o próprio aconchego da eternidade, se tornassem a única coisa da vida? isso está, assim, tão garantido?

qual é o gosto das suas lágrimas? o que eu poderia falar aqui, agora, que faria você chorar e eu poderia ver o seu rosto se desmontando, suas lágrimas se construindo na margem dos seus olhos e descendo pelo seu corpo e você, imóvel, não fazendo esforço algum para que elas se dissipassem, apenas as deixando escorregar até o fim do seu trajeto? eu não vou fazer isso, não se preocupe! mas queria ver você chorando. não por prazer, nem por maldade, nem mesmo pela minha ciência. eu queria ter a experiência de te confortar de novo. alguma vez alguém já te confortou? você já pensou no que é confortar alguém ou já se tornou tão acostumado a fazer isso que nem mesmo se importa mais?

é estranho observar pessoas se confortando, meu anjinho. (obrigada por aceitar quando te chamo carinhosamente, é insuportável parecer uma velha má nos seus textos, como se eu não gostasse de você!) elas estão fazendo isso por automatismo. elas não choram junto e, quando choram, são as mesmas lágrimas. elas estão refletindo o que ouvem e sentem, como se não personalizassem o sofrimento, como se não fosse obrigatório um pouco de egoísmo para se envolver genuinamente no sofrimento do próximo. como se o egoísmo fosse assim tão errado. é claro que não é, é claro que o amor próprio é uma necessidade fundamental da vida, e é claro que não entende a dor do próximo quem não tem o trajeto dessa dor mapeado dentro de sua própria alma, seja da mesma forma ou de uma forma completamente diferente. e é claro que tudo bem não ter. só que sinto falta de ver emoções múltiplas convergindo numa só, duas pessoas se transformando temporariamente numa só dentro de um abraço, dentro de um cafuné, dentro de qualquer ação que compartilhem uma com a outra.

eu temo que confortar demais as pessoas sem aceitar ser confortado também acabe sendo uma desfiguração da própria alma. acabe fazendo você buscar nas rodovias da alma que não pertencem realmente ao seu estado pelas suas próprias coisas (p.s.: eu a-m-e-i as estradas do paraná! só faltou mais malícia. você tem muito medo de malícia… mas tem tanta, né?). sabe, as pessoas não são assim tão complicadas, ninguém é realmente tão complicado quanto se faz parecer. você não é tão complicado. seus amigos não são. seus inimigos não são. sua família não é, seja ela saudável ou quebrada. as pessoas estão constantemente trocando freqüências (também amei essa. eu amo cada maneira que você inventa de se comunicar com o mundo) e se confundindo em todas elas, mas elas são simples, aterrando-se são extremamente simples. é que elas não se aterram, elas têm muito medo disso, por algum motivo que não sei. ou até sei.

é difícil quebrar.

é feio quebrar.

é assustador se abraçar em qualquer coisa que estiver na sua frente com medo de cair, como se houvesse um limite além do chão. entregar-se à sua própria dor e gritar, e chorar até não haver mais lágrimas, e gritar mais um pouco. é difícil fazer isso sozinho. é mais difícil ainda quando se faz isso ao lado de alguém e percebe que a presença não resolve, em algum lugar dentro de você ainda é só você. é assustador se encontrar no estado mais bestial da tristeza e do desespero, do sentimento de desejar fazer aquilo que o espírito deseja mas o corpo não aceita, ou não consegue, ou não compreende. é assustador se arrepender não por ter feito algo, mas pelas suas vontades irracionais, destrutivas e auto-destrutivas. principalmente auto-destrutivas. o ódio por si mesmo se manifestando é assustador. é difícil explicar para os outros que não adianta fazer nada, que não é pra sentir nada a respeito disso, que é pra deixar ali.

no dia seguinte as coisas melhoram. quem sabe melhoram. se não, tem o outro dia. e o outro.

dentro dos porões da nossa alma nós somos horríveis. dentro dos porões da nossa alma tudo se justifica com inveja, rancor, saudade, solidão, morte, violência, remorso, frustração, rejeição. mexer nos porões da nossa alma é a coisa mais dolorosa que existe, meu fofo. por que você mexe? o que você quer com isso? o que você ganha com isso? por que tem tanta facilidade em acreditar que esse é o seu verdadeiro “eu”? sabe, eu entendo que muitas pessoas correm disso até se tornarem completos loucos inconscientes, mas por que você faz o caminho inverso? eu gosto da sua naturalidade em reconhecer seus defeitos, mas daí a percorrer um caminho tão sombrio sozinho é um esforço tão enlouquecedor quanto. você entende por que não é um bom candidato a ficar fechado sozinho num quarto escuro nas madrugadas, não é? sempre foi claro pra mim que não dava pra você sobreviver muito tempo assim, e realmente não sobreviveu. dois anos no inferno pareceram eternos mas foram só dois anos.

estou feliz que você melhorou. todas as flores no meu jardim estão.

estou feliz também pela sua trajetória atual. eu não vejo nada de fatalmente errado em nada do que faz. é só que você veio aqui pro jardim conversar, e eu quero conversar sobre seres humanos como sempre fiz. gosto de conversar sobre você mas não gosto de me manter falando só sobre seu inferno, é injusto, você tem tantos atributos positivos quanto negativos e odeio fazer parte do seu esquema malicioso de se denegrir perante Deus e o mundo. eu vejo uma pessoa como qualquer outra. vejo uma alma saturada de rotas, com diversas opções de se perder e se encontrar, e portanto constantes remontagens e constantes confusões. mas também vejo muito amor. muita capacidade de transferir amor assim como muita capacidade de receber amor, embora as feridas pareçam drenar isso de você. elas não podem fazer muita coisa. você chora muito e a senhorita bondade costuma acolher bebês chorões, logo logo tudo estará resolvido.

eu costumo acolher bebês chorões.

quer que eu te acolha?


estou interessada em você.

sempre estive. eu gosto de você.

quero que faça uma retrospectiva de quando nos conhecemos, quando nos vimos pela primeira vez, porque sinto que é importante. sinto que é importante lembrar de como tudo começou, de como você encontrou esse jardim no meio da pior tempestade da sua vida e então bateu na porta da minha casa buscando por abrigo. buscando por qualquer segurança. você se apaixonou por mim quando me viu pela primeira vez, não foi? não precisa ficar envergonhado. eu dedico horas da minha vida a ficar linda pelo simples fato de que gosto disso, não me espanto que o resultado seja arrebatar o coração de quem eu quiser e até de quem eu não quiser. não é por ter cem, ou quinhentos, ou mil anos que isso muda.

acho que você não percebeu que estava apaixonado por mim, você era incapaz de perceber essas coisas na época. acho que seus sentimentos estavam todos brigando aí dentro sem você entender o por quê, devo ter dominado todas as imagens da sua mente e sua reação natural foi fugir. algumas das suas tentativas de suicídio foram por minha causa, se bem me lembro. eu não sinto uma gota de culpa, não sou uma pessoa minimamente boa nesse sentido. eu só estava aqui. batesse na minha porta, eu atenderia. eu tomaria café contigo, eu conversaria contigo, eu te daria mensagens e pouco me importaria com você conseguir entendê-las ou não. acho que, no começo, você não entendia absolutamente nada do que eu falava, só ficava totalmente confuso e perdido dentro de si mesmo. mas, sabe, eu também me sentia sozinha; eu sou uma velha cheia de histórias pra contar, cheia de rascunhos do meu falecido esposo sobre mistérios do universo e da vida que entendi da minha própria forma e decidi brincar com eles, e você veio aqui e me ouviu falar. e me ouviu. e se fascinou por mim, não só pelo meu rosto, pelas minhas roupas e pela minha voz, mas pelo que eu tinha pra falar. embora eu concorde que, sem a minha voz conduzindo tudo isso dentro dos seus ouvidos e do seu coração, você seria incapaz de entender.

por que você se fascinou por mim? eu não entendi muito bem. não me esforcei muito pra manter isso aceso, também. você só… manteve. só quis manter.

acho que fui uma bruxa também, de certa forma. talvez eu devesse ter te expulsado do meu jardim, não deveria ter aceitado te ajudar a se sentir menos só ao invés de te mandar ir cuidar da sua vida, mas eu preferi os cafés e as conversas. você era interessante. eu poderia fazer o que quisesse contigo e você voltaria, não sei se por paixão fervorosa juvenil ou por pura dependência, e eu fiz tantas coisas… ah! tantas coisas. e, sabe, não me arrependo. você me faz bem. te acompanhar por todos esses anos, ver você sair daquela coisa onde vivia e chegar até onde chegou me faz acreditar que Deus, no fundo, gosta de mim e me deu uma missão extremamente amorosa que nunca imaginei que abraçaria. é, escreva isso. escreva que essa velha aqui, que há séculos vê um mundo que não muda, teve uma alegria nova ao conhecer um garoto depressivo suicida e vê-lo se tornar menos suicida. queria que houvesse uma coincidência cósmica como “meu marido morreu se suicidando e agora você está o redimindo”, mas nah, ele morreu na guerra mesmo; se as coincidências menores podem nos consolar: ele era um rapaz bastante retraído, como você era, mas isso era muito comum entre homens de onde vim e do meu tempo. assim como era comum que nós fôssemos mulheres com uma capacidade enorme de penetrar corações para que homens tão duros fossem amolecidos, ao menos enquanto na nossa presença. às vezes era necessário mais de uma de nós pra isso.

vocês são uma geração muito abençoada de homens.

talvez tenha sido injusto você parar no meu jardim. eu era forte demais pra você. ainda sou, mas acho que já não sou mais tão perigosa, acho que você já entende com mais paciência o que acontece dentro do seu coração quando me vê. você reconhece com muita facilidade quando estão tentando penetrar no seu coração, não é? acho que você sempre foi uma pessoa assim, com muita vontade de se proteger, mas tenho que assumir que boa parte das técnicas você aprendeu comigo. de uma maneira não muito boa, embora não tenha sido de fato a pior. eu tenho alguns pedidos de desculpas a te fazer, mas não precisa escrever essa parte, ok? talvez tenha destruído um pouco a sua sanidade, principalmente sanidade emocional. eu nunca prometi que te aliviaria depois, que te reconstruiria depois. eu te expus ao meu paraíso e também ao meu inferno. quando você esteve no chão, com a cabeça nele, chorando sem parar, eu… não tive coragem de te pegar no colo, mas ao menos fui passando a mão em você até passar. eu não prometi que faria isso. ninguém nunca tinha feito isso contigo antes, você não sabia que isso existia, eu apresentei a você. eu te aprisionei dentro do meu coração, um lugar onde o tempo não passa até que ele se canse de não passar, onde eu controlo as batidas e os ritmos e você dança conforme eu quiser, e com isso talvez tenha te dado um poder assustador de fazer o mesmo com os outros. só talvez. não tenho nenhuma certeza do que estou te dizendo.

é que você não tem noção de como sua depressão é constrangedora. não, não tem.

ninguém consegue ficar quieto vendo seu rosto desfigurado. eu preferia qualquer coisa a te ver daquele jeito. quando ensinei a você sobre os segredos do universo interior não era porque estava te dando uma aula de ciências humanas, era porque queria que compreendesse que tinha um aí dentro, que nós poderíamos demolir algumas obras ruins e colocar outras melhores. que poderíamos matar alguns monstros. que as coisas melhorariam um dia. entenda, eu tenho sim essa vasta gama de conhecimento, mas não sei o que fazer com ela se não elaborar kits de prontos-socorros, e se eu precisasse conversar com você na linguagem da ciência mais exata possível seria isso que eu faria. talvez por desespero. meu coração acelerava ao te ver destruído daquela forma, era desumano, faz completo sentido alguém quebrar por estar sendo reformado mas não faz nenhum sentido alguém se quebrar por vício de uma existência corrompida. os seus impulsos auto-destrutivos doem demais pra quem está vendo do lado de fora, as pessoas preferem se afastar não porque estão incomodadas com você, mas porque exige muita força e disposição mental e chega um ponto onde elas não aguentam mais.

quando te vejo depressivo eu choro em algum canto do meu coração.

algumas de suas visitas no jardim no passado me fizeram chorar muito. e graças a Deus eu tinha todo o tempo do mundo pra chorar. poderia fazer isso com calma, com dedicação; poderia tirar os pedaços que quisesse de você de dentro de mim, no tempo em que quisesse, poderia desmontar seu quebra-cabeça tirando as peças na minha ordem. isso era bom.

você talvez não se lembre de todas as vezes que veio aqui. não só as que pedi para transcrever algo. final de 2013 está muito longe de ser sua primeira visita, para você ser capaz de colocar algo do que digo em palavras nossa intimidade já estava bastante consolidada. e mesmo nossas transcrições não estão relacionadas com o que sentimos um pelo outro, talvez nessa transcrição atual estejamos falando do que sentimos um pelo outro. eu te amo, meu único visitante. eu te amo muito. a diferença do meu amor para qualquer amor de menina juvenil que passou pela sua vida é que eu nunca me preocupei em fazer além do meu alcance, eu nunca corri atrás de você nos seus surtos porque pra falar a verdade se você morresse seria só um problema a menos. quantos anos eu choraria por você? um? cinco? dez? vinte? cem? mas quando você voltava eu sentia um pouco de alívio e deixava você chorar tudo o que queria pra mim, e ali ficavam escondidos os segredos mais perversos e obscuros; às vezes eu pensava “oh, uau. quem foi que colocou isso na sua cabeça? você foi abusado por todas as mulheres queimadas na inquisição, é?” e, confesso, era engraçado, às vezes eu testava e via que seu corpo reagia mesmo ao que eu fazia. a sua vida deve ter sido mesmo um inferno. eu sabia que era, eu podia sentir. qualquer um que entra em contato contigo na situação onde sua voz está grossa, seus olhos pesados e sua cabeça imóvel consegue sentir que você está fazendo esforço para se manter vivo.

é conhecendo o tamanho dessa sua fragilidade, meu visitante, que te desafiei tanto a se quebrar com o intuito de se permitir ser reconstruído. não sozinha, é claro. não sou tão poderosa assim. e mesmo, quebrar e se reconstruir é um processo natural da vida de qualquer ser humano. eu quis te explicar. eu quis te mostrar. eu quis estar ali. eu quis te segurar enquanto você gemia de agonia e dor. eu senti que precisava fazer isso, senti que sem ninguém por perto você não suportaria e se desmontaria pra sempre. senti que, sem alguém para te orientar dentro da sua miséria, você não entenderia que isso é apenas mais um terreno da sua cidade. nesse não é apropriado construir uma casa e morar lá. quem sabe construa um hospital ali, acho que um hospital seria legal: é um lugar onde pessoas entram com a intenção de sair, entram não para se integrar ao ambiente mas para justamente se livrar do que há no ambiente. eu senti desde o início que precisava te mostrar uma dualidade, que precisava te mostrar uma mulher aparentemente cruel e que precisava te mostrar uma mulher aparentemente carinhosa, ambas tão desassociadas uma da outra que não teriam como parecer a mesma pessoa para quem é formal, para quem é superficial. você tinha profundidade mas olhos superficiais, palavras superficiais, eu queria tirar todo o valor do que há por fora e mostrar o que há de imutável no que está mudando toda hora por fora. você muda toda hora por fora. poucas pessoas suportam você se não conhecerem o “você” constante, um “você” que é inalcançável para maioria das pessoas; você é um teatro macabro e eu inventei o teatro macabro dentro de você.

e eu quis fazer isso.

e estou feliz de ter feito isso.

será que sou má por ter feito isso? não me importo. sou quem sou, quem fui escolhida pra ser. talvez se alguém além de você tivesse visto o que fiz contigo teria me impedido, teria tentado me matar, teria avisado seus pais, teria chamado a polícia. o que eu sei é que, hoje, na minha frente, está um visitante confuso que reconhece uma infinidade de problemas interiores mas consegue não sentir uma culpa assassina por eles. que reconhece que está cheio de boas intenções e isso se prova nos seus frutos docinhos, de pessoas que passaram pelo seu caminho e entre sorrisos e conflitos alcançaram o conforto da esperança. não por mérito seu, e sim por Deus ter feito você assim, seu único mérito mesmo foi o de ter conseguido aceitar que Deus te fez assim. é pesado pra alguém tão auto-depreciativo quanto você. na minha frente está o visitante que consegue viver. seis anos atrás na minha frente havia uma pilha de ossos buscando desesperadamente que alguém segurasse seu crânio para que não caísse pela força da gravidade e ninguém quis segurar, ninguém sabia que deveria segurar, só eu. se eu fosse tão desonesta, tão má, hoje você ainda dependeria de mim pra viver. é tão fácil manter alguém emocionalmente dependente de você pra sempre, não é? você se sente assim?

não posso negar que existem certos gatilhos dentro de você que te fazem me procurar, e talvez eles fiquem aí pra sempre. mas é diferente. você passa muito tempo sem mim, pode até mesmo ir embora e nunca mais voltar, não sou a dona da sua vida. é só que existem coisas que você sabe ou sente que só eu vou entender. que você se sente à vontade só comigo. eu não quero matar a sua lisbeth, meu visitante, seja você quem for; e conte para a sua lisbeth que eu gosto dela, que não faço nada com o intuito de provocá-la se não em sua parte mais superficial, que gostaria apenas de uma companheira de jardim. quem sabe ela também não gostaria de ter um tempo comigo para conhecer melhor sobre os problemas que te afligem, para se acalmar um pouco quando eles se manifestam, não é? ela só precisa ser resiliente, para não perder o controle contigo quando o coração disparar, porque ele vai disparar. eu teria prazer em ensiná-la sobre tudo isso porque sei que seria bom, sei que agora seria bom, que agora ela seria capaz de aprender como não surtar ao entrar nessas partes mais assustadoras de você. o choro já é inevitável, eu não consigo evitar e nem acho que seja importante evitar.

a resiliência feminina é importante. mais importante que a capacidade de apagar incêndios, que a capacidade de fazer coisas, que a capacidade de ser feliz, generosa e carinhosa. a resiliência. em suas crises eu nem sempre sorri, nem sempre fiz alguma coisa, nem sempre te falei alguma coisa, nem sempre te olhei com os melhores olhos. às vezes eu era sincera o suficiente para te desprezar com os olhos por estar vendo o que estava vendo, e sabia que estava te afetando e te deixando pior, e sabe o que mais importou? foi estar ali. quando me recompus e peguei seus pedaços de volta, com bons olhos ou maus olhos, eu cuidei de você. isso importou. resiliência. é não se perder dentro de você, não morrer dentro de você, não beber da sua fonte de desespero e desesperança e, se beber, aguentar os dias que virão com firmeza ao invés de cogitar seu próprio suicídio para fugir. ensine à sua lisbeth, visitante, que ela precisa saber viver desmontada se quiser conhecer o seu pior, que se ela preferir ceder a si mesma e buscar razões e justificativas para correr ela se encontrará com a morte.

se eu quebrar você nesse exato momento ela não pode correr.
se você me pedir para te esmagar nesse exato momento ela não pode correr.
se você me implorar para que eu te quebre nesse exato momento ela não pode correr.
se você me manipular para que eu te esmague nesse exato momento ela não pode correr.

se você se ajoelhar aqui, agora, pedindo a morte
ela não pode correr.

e se eu decidir acatar o seu pedido ela não pode tentar me matar.
ela vai morrer.

o seu desejo é contraível quando se tenta correr, quando se quer ver e ir embora. é obrigatório encarar de frente. é obrigatório, se não permanecer pra sempre, ao menos se confrontar com o que viu e sentiu.

isso é real. dolorosamente, criminosamente, passionalmente real. pode parecer uma fantasia macabra isolada da realidade mas define todas as engrenagens da ansiedade. todas as pausas. todos os medos. como poderia a sua lisbeth, meu amável visitante, viver a vida pensando nas possibilidades cruéis, torturantes e desumanas em cada ação humana e natural, sem saber como lidar com cada uma delas? sem saber resistir, sem saber como sentir esse tipo específico de sentimento de desconexão e desumanidade. sem saber se sentir uma pessoa psicótica. sem saber viver a completa irracionalidade e irrealidade.

em certos pontos, ser você é realmente triste e desolador. acho que, cedo ou tarde, alguém mais além de mim precisa entender o que é o seu “quebrar”. alguém precisa não se conformar e permanecer, sobreviver. é arriscado, é complexo. ainda que não mais complexo que humano. não digo que as lisbeths não podem suportar, eu acho que podem e acho que vão, e acho que não é necessário se importar com isso. você sabe quem é capaz e quem não é. você sabe quem reage a tua morte com sentimentos ruins e quem é simplesmente incapaz de reagir.

eu digo para tomar cuidado.

muito cuidado.

também não vou pedir para você transcrever no meu jardim o que acontece no porão da minha casa. veja, a visão é algo muito interessante para homens, e mulheres perversas que buscam gravar em suas mentes filmes de terror como se isso fosse minimamente interessante ao coração. ao menos isso não passa de fragilizar, de tornar pastosa a mente, para as mulheres. olhe, ciência da natureza! estava com saudades? eu, como desenhista de fantasias macabras, sei tudo sobre isso. voltando, temos um problema mais sério quando estamos falando da própria ansiedade. aí estamos falando de você, visitante, hominho, ou você que está aqui nesse exato momento é uma mocinha? hmm… há! tanto faz.

a visão é muito interessante porque vocês montam a realidade de acordo com isso, enquanto para a mulher é completamente desinteressante porque ela só está escolhendo o palco ao qual será submetida. pra que ter milhões de visões se cada uma delas vai te confundir? é por isso que não quero colocar nenhuma visão aqui, eu sou uma dama e não me interesso por isso.

ciência da natureza. ninguém estava com saudades.

acho que é a primeira vez que deixo nossas conversas sobre depressão serem transcritas. como você se sente? as pessoas sabem, ou saberão, que o alicerce do mundo material é a depressão? ou isso não valerá de nada? se não valer, que bom! é muito coisa do meu homem gostar do conhecimento, eu quero tocar suas emoções, eu quero que se sinta minimamente querido nesse deserto assassino que existe dentro de você. eu quero beijar seu rosto enquanto você está aos cacos no chão, e não tenho medo que o contato dos meus lábios contigo criem mais uma rachadura em você, ou que você me corte. o amor é mais importante que a nossa dor, mas é tão difícil praticá-lo quando o risco é a própria morte, não é? acho que muitas pessoas são capazes de se machucar por amor às outras, mas quantas são capazes de machucar essas outras por amor a elas? você seria capaz de ganhar o ódio de alguém que ama se isso a salvasse? entre deixar uma pessoa agonizando sem amor pelo resto da vida e dar o beijo que vai fazer tudo valer a pena mas matá-la depois, o que você escolheria?

a depressão é o fim da matéria. ela, quando desconectada das redes do propósito, é um simples pedaço inútil de imperfeição que apareceu em algum momento e vai embora em algum momento. pra que existir? por quanto tempo você consegue viver sem pensar nisso? não existe “aceitação da morte”, você só aceita aquilo que faz parte de você como fato ou como possibilidade e em qualquer um dos casos isso faz parte de você, quem aceita a morte está morto. não é divertido andar pelo mundo vendo apenas cadáveres em fase de testes? AHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHHA não é divertido?! não é divertidíssimo?!

não, não é divertido. é assustador.

desconectado das redes do propósito você não passa disso, um simples pedaço inútil de imperfeição que apareceu em algum momento e vai embora em algum momento. já checou suas conexões hoje, meu anjinho? eu não preciso checar as minhas, não preciso me importar com isso de vida ou morte quando já fui escolhida pra ficar aqui pra sempre. se você for embora um dia só você vai. eu fico. eu escolho outra pessoa para escrever minhas palavras e tudo continua da mesma forma que sempre esteve, ou quem sabe não escolho mais ninguém e ninguém mais fica sabendo o que tenho aqui. que importa? eu gosto de flores, há muitas flores aqui, o suficiente para eu viver o resto da eternidade tranquila. aliás, que diferença faz você me transcrever? como se alguém realmente entendesse todas essas palavras aqui. se as pessoas não entendem nem o que se passa dentro de você como poderiam entender você me transcrevendo?


vamos manter o foco. como estava dizendo, a matéria termina na depressão. talvez, por você ter materialmente chegado ao seu fim, viver a matéria te leva muito rápido ao fim depressivo. sentir-se imperfeito é muito difícil pra você. e é estranho porque não é do ego, é do espírito. não te incomoda que os outros vejam a sua imperfeição, é perceber a corrosão espiritual dentro de você e vê-la com tanta riqueza de detalhes que te incomoda. talvez isso se misture ao egocentrismo na sua cabeça porque o mundo te empurra isso com muita força, misturadas as coisas na sua cabeça você não encontra a saída. o mundo empurra muitas coisas terríveis pra você, e quer saber? deve mesmo empurrar. eu odiaria ser o mundo e ter você vivendo dentro de mim, alguém que não tem limite nenhum dentro de si, que precisa de um esforço tão grande para descobrir quais são os limites e só faz esse esforço por amor. nós só estamos nessa situação aqui, hoje, porque você não teve interesse em respeitar meus limites e acabou não sabendo respeitar os seus, já que os meus eu conheço só que estão muito além de você. pode entrar por inteiro em mim que ainda sobra bastante espaço. a minha presença é confortável justamente por isso, não é? falta de medo de machucar, de assustar, de espantar. que engraçado, sabia que isso é bastante feminino? você parece aquelas moças que ficam se segurando pra não ir pro quarto com alguém porque, quando isso acontece, elas derrubam as estrelas do céu. “garotas boas não fazem essas coisas… mas eu faço”.

eu gosto mesmo, muito, de você. eu não consigo manter o foco e falar de física, que raiva! é muito legal falar das pessoas. acho que vou desistir de falar da matéria e da depressão. ou você quer insistir nesse assunto? ele também vai terminar na depressão. sentir-se material é algo que as pessoas não correm tanto quanto você, mas no final das contas o resultado é o mesmo, você também é material e uma parte de você vai, de fato, se dissolver com o resto do mundo um dia. isso não é motivo para se desesperar em expulsá-la de você logo, deixe-a ali! é gostoso ter partes maleáveis dentro de você, que são transportadas pelas ondas do mar, que grudam em qualquer coisa e desgrudam de qualquer coisa. sem a sua parte material nós não estaríamos abraçados agora, estaríamos? nosso abraço material não pode durar pra sempre, ele pode durar essas horas e mais algumas e aí quem sabe nos lembremos dele pra sempre ou esqueçamos assim que você for embora de novo, mas só com nossos corpos físicos isso foi possível. para ser sincera, você precisa sentir um pouco de falta do que vai ficar pra trás quando se for, é desumano não sentir. você saberia que é desumano se não tivesse cruzado a linha da humanidade, seria muito mais fácil se a ansiedade nunca tivesse te matado, mas ela te matou. e agora precisamos fazer algo a respeito porque eu não gosto nadinha de te ver assim.

talvez você devesse gostar mais do seu “eu-material”. você deveria se entregar mais aos momentos. não aproveitar, eu aprendi contigo que aproveitar momentos é espiritual, nunca vi alguém que consegue extrair tanta coisa boa de tudo quanto você, admiro essa capacidade em você. mas gostar mais dos momentos, sentir mais falta dos momentos, se apegar mais aos momentos. se alimentar melhor. quantas vezes você já chorou por sentir falta de alguma coisa? eu acho que nunca vi isso acontecer e isso me preocupa, é claro que me preocupa. você só chora quando está quebrado. queria te confrontar e dizer que só chora por você mesmo mas seria mentira, infelizmente. também deve ter passado um pouco o gosto de te confrontar e te fazer pensar coisas ruins de si mesmo que não tinha pensado, não porque já pensou em tudo, mas porque você voltou a acreditar em Deus e ele tem mais saco de fazer isso que eu e sabe a hora certa de fazer isso, ao contrário de mim que faço quando dá vontade de brincar de boneca com a alma humana. hihi, acho que nunca vou deixar de ser uma mulher desse tipo.

desculpa ter feito tanta coisa com você. desculpa mesmo. eu digo rindo mas é triste. é uma memória gostosa nossa sobre algo que foi horrível mas deu certo.

você deveria se conectar com o mundo às vezes. eu sei que a última vez que alguém disse isso pra você era um convite pro sexo, mas extraia a parte boa desse flerte embriagado: ela tinha razão nesse ponto. você está fora de contexto. fora da Terra, digamos assim. e viver fora da Terra por tanto tempo é solitário, mas também não acho que sua solução é “alguém”, já faz uns três jardins que digo que não gosto da idéia e se bem percebeu é você quem tira as pessoas da Terra, não as pessoas que atraem você para ela. acho que é algo de você pra você. é uma chave de acesso que seu espírito precisa ceder ao seu corpo, você precisa acreditar que não vai mais se ferir se colocar uma faca na mão, só fazer um pão e comer. você também precisa acreditar que acredita nisso. precisa não só estar bem, mas despertar a consciência de que está bem.

isso é muito difícil. eu sei que é. talvez os outros não saibam que é, talvez para os outros seja simples, embora eu não acredite que alguém queira impor essa simplicidade e saiba que você também não acredita mais. talvez quem saiba que é só saiba que é, não sinta que é, não consiga sentir a mesma coisa que você sente ao pegar uma faca. não consiga sentir a pressão aumentando a cada pessoa que entra no lugar. a sua não-indiferença para absolutamente tudo que se confunde com a própria indiferença para absolutamente tudo. é muito estranho que você tenha aprendido a conviver com isso, a sorrir no meio disso, a ajudar pessoas no meio disso; é estranho falar que você está convivendo e sorrindo no meio disso, eu não tive mais coragem de te falar que era possível desde que senti pela primeira vez o que você sentia, eu não sabia te falar porque acabei perdendo a fé nisso também. eu só quis ser confortável pra você enquanto você desaparecia.

você me surpreendeu.

e pode me surpreender mais. eu sei que tocar nessa parte do seu coração dói muito, mas não estou te arrebentando dessa vez. não preciso mais. suas muralhas abaixaram, não saem mais tantos espinhos do seu corpo quando toco em você, nessas conquistas curtinhas da sua vida é que você fica livre para chegar em lugares bem altos. aliás, você atinge lugares muito altos, mas por essa desconexão da realidade acaba não tendo noção de altura. outra coisa que você deveria fazer é se celebrar mais. anotar suas conquistas e comemorar o aniversário delas com sorvete ao invés de ter em sua agenda apenas o aniversário das tragédias, mesmo usando a desculpa de que “é pra lembrar que foram superadas”; pelo amor de Deus, é claro que isso também é depressão e não passa de depressão! você pode fazer tudo isso. você tem esse poder. se você vier aqui no jardim eu vou te apoiar. se você sair do jardim e for pro mundo ele está lotado de pessoas que vão te apoiar. e se ninguém te apoiar você é forte o suficiente pra fazer sozinho, mas não faça sozinho. chega de fazer as coisas sozinho. é pra saber fazer as coisas sozinho pro caso de acontecer alguma coisa e você ficar sozinho temporariamente (ou até eternamente, mas tenho a impressão de que não é esse o plano pra você), não pra fingir que não existe nada ao seu redor pra te ajudar; olhe só, a sua alma sabe disso como ninguém seu conversadeiro (ainda está aqui, visitante? é claro que é um conversadeiro!), quem não sabe é seu espírito.


agora sim falamos bastante de depressão, não é? então estou satisfeita. deve ter dado um baita texto. geralmente eu falava um pouco sobre as aflições humanas e um pouco sobre o que está acontecendo no mundo ao seu redor, hoje em especial decidi falar apenas de aflição. eu não quero falar das flores, nem do cheiro ao meu redor, só do universo interior.

só de você, e só de mim. e do que liga o meu coração ao seu e o meu espírito ao seu. dá muita coisa, como vê. acho que nem toda a natureza do universo rende tanto o assunto quanto o que acontece entre duas pessoas. o universo é um infinito, mas cada pessoa é um infinito também, e ao explicarmos o universo temos dois infinitos (o universo, o ser humano que interage com o universo), e ao explicarmos o que acontece entre duas pessoas temos quatro infinitos (um ser humano, outro ser humano, a união entre esses dois seres humanos e o universo que possui esses dois seres humanos). é tudo tão bonito, sabe? vamos sair daqui, vamos sentar na grama e observar o céu, ele está cheio de estrelas. como sempre.

aquela estrela ali é a sua. enorme, não é? como você se sente? será que você veria ela se tivéssemos trilhado caminhos diferentes ou nem mesmo nos conhecido? será que sua vida seria mais pacífica sem mim, ou você teria mesmo morrido, ou você teria achado outro lugar e se tornado algo parecido com o que é agora? sem eu existir, sem eu costurar a primeira lisbeth e o primeiro elliot pra você, como as coisas seriam? você sabia que tem uma senhorinha astronauta, mais ou menos parecida comigo, que mora em uma dessas estrelas? sabia, né? já foi até lá, já conversou com ela, mas não é a mesma coisa. tarde demais. você é, e sempre será, o garotinho que eu adotei. a sua estrela sempre terá um desenho do meu coração, embora já tenham te dado vários desenhos de coração e você tenha colocado todos eles ali.

o meu é maior: a lisbeth canta como eu canto, toca guitarra como eu toco, e o elliot tem a voz do meu homem. e se seu coração é irregular é porque meu coração é irregular, mas já falamos disso. é interessante que você não tenha prestado atenção nisso antes, mas acho que só agora sua percepção está aguçada o suficiente para reconhecer essas coisas, e só agora você não fica totalmente tonto e perdido quando está aqui comigo embora ainda não seja a coisa mais normal do mundo, e só agora você é capaz de assumir pra você mesmo que eu te ensinei tanta coisa. era difícil pra você, né? tinha algo estranho em você, um ódio de assumir esse tipo de coisa, mas agora é normal. saiu junto com seus espinhos. talvez você goste de mim por inteiro agora. que bom, porque sempre gostei de você por inteiro.

fique mais um pouco. mais alguns dias. ainda tenho tanta coisa pra te contar! tantas conclusões novas que tirei, tantas conclusões antigas que repensei! só pra você, pare de escrever. continuemos deitados, assistamos as estrelas cadentes no céu e façamos pedidos. você, por você mesmo. eu, por você. não tenho mais o que pedir pra mim. pra falar a verdade, só tenho uma pergunta, por mim e por todas as flores: quando é que você vai nos visitar de novo?

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