Breves anotações acerca de Ghosteen (Nick Cave And The Bad Seeds, 04/10/2019)

O Inimigo
O Inimigo
Oct 7 · 3 min read

Por Pedro Lucas

1. Não sei se por conhecer a íntima relação entre narrativa religiosa, messianismo e a procura por um Mal acima de tudo (com seus respectivos modos de reação: cura e retenção), ouvi Ghosteen de Nick Cave muito siderado pelas imagens abraâmicas que ele sugere. Primeiro que a capa do disco é de um jardim puro como os de Deus onde a luz da divindade toca as marrãs em comunhão entre todos os seres. Depois que esse disco é povoado por coros, sintetizadores que lembram órgãos de igrejas, ambientes de profunda confluência entre SOM e MATÉRIA. O som se materializa como coisa, como se desse um fio de Ariadne para se deslindar e achar ao fim a Grande Revelação (depois saberemos que está na segunda parte do disco, minutos caríssimos de meditação — duas faixas gigantes de mais de 10 minutos e um intervalo de misterioso e intenso spoken word completam a obra).

2. A tradução deve ser meio duvidosa mas tem esse trecho aqui num texto de Nick Cave sobre o Evangelho de Marcos: “A luz é mortiça e manteigosa nas trevas que envolvem tudo”.

3. A segunda metade de Ghosteen é especialmente espiritual. Nick Cave já tinha dado a senha para entrar nessa caverna lá em seu site de perguntas e respostas Red Hand Files: “The songs on the first album are the children. The songs on the second album are their parents. Ghosteen is a migrating spirit”. Para quem não sabe, Arthur, um dos dois filhos de Cave, morreu em 2015 ao cair de um penhasco quando estava desorientado por ter tomado LSD. Desde então, Cave mudou completamente: antes num ponto de sua carreira cada vez mais autocentrado em seus processos de redenção e criação de personagens cambiantes, onde ele cada vez mais refletia sobre seu processo de produção e dissolução de seu Eu (em 20.000 Dias na Terra, documentário sobre seu cotidiano, isso tudo tá lá na cara), agora o homem procurava revelar e elucidar um fantasma seu. Um fantasma que o acompanhará para toda a vida. Ele dissera em mais de uma entrevista que uma catástrofe muda completamente o ser vital: você pode olhar no espelho e se reconhecer, mas por dentro você não é o mesmo.

4. Em Ghosteen, o espírito que paira pelo disco parece confortar e confrontar nós mortais. Os sintetizadores e vozes climáticos que formam EGRÉGORAS, como em “Ghosteen Speaks”, são verdadeiros momentos de reencontro. Não só entre o músico e seus fantasmas, mas também entre Nick Cave e sua própria estética. Aqui temos menos guitarras, mais texturas etéreas.

5. A inevitável reconexão espiritual por meio da música também está lá. Na mesma “Ghosteen Speaks”, ele diz:

Well I think they’ve

Well they’ve gathered here for me

I am within you, you are within me

I am beside you, you are beside me

I think they’re singing to be free

I think they’re singing to be free

I think my friends have gathered here for me

I think they’ve gathered here for me

To be beside me

Look for me, look for me.

6. O que há de ABRAÂMICO nesse disco? O termo ‘abraâmico’ se refere a religiões advindas de Abraão, pai da fé dos monoteístas, aqueles que oram e rezam por um Deus só. Abraão também é aquele que num ato de completa servidão a Deus iria matar seu próprio filho Isaac em ato sacrificial para demonstrar seu amor a Ele (em tempo um anjo surgiu e deteve Abraão, fazendo-o sacrificar um bezerro). A figura do pai é preeminente na vida de Abraão: seu nome significa pai de muitos, homem que dá origem a legiões. E esses filhos sairão das vistas do pai, ocuparão outros reinos, estarão longe e perto como os cordeiros a que o pastor mal tem controle.

7. Linguagem bíblica demais à parte, o ponto abraâmico de Ghosteen é esse distanciamento entre a paternidade, o tempo e o próprio desarraigamento da vida.

8. Por fim, esse quote revelador e belo, em Ghosteen, na metade apoteótica do disco:

I’m speaking about love now

And how the lights of love go down

You’re in the back room washing his clothes

Love’s like that, you know, it’s like a tidal flow

And the past with its fierce undertow won’t ever let us go

Won’t ever let you go

O Inimigo

O som que o outro lado faz.

O Inimigo

Written by

O Inimigo

Revista eletrônica sobre música. Agora também no Facebook! http://facebook.com/revistaoinimigo

O Inimigo

O Inimigo

O som que o outro lado faz.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade