Com O Cão de Toda Noite a cearense maquinas cresce com influências

O Inimigo
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Nov 16, 2019 · 5 min read

Introspecção e uma pitada de Blade Runner marcam o novo trabalho da maquinas

Foto: Tais Monteiro

Por Hugo Morais

A maquinas se notabiliza por uma sonoridade introspectiva. Músicas que passeiam por longos minutos, ou não. Mas que fundem muitas influências que levam até a associação com obras como Blade Runner. Passagens de O Cão de Toda Noite poderiam muito bem sonorizar passagens do filme. O novo disco, lançado em 04/10, traz uma inquietação a mais, as vezes uma pegada tribal como em “Corpo Frágil”. Batemos um papo com Allan Dias (baixo e vocal). Completam a banda Roberto Borges (guitarra, sintetizador e vocal), Yuri Costa (guitarra, sintetizador e vocal), Gabriel de Sousa (alto saxofone e samples) e Ricardo Guilherme Lins (bateria e percussão). Além da banda o disco conta com várias participações que deram uma nova cara a sonoridade.

Achei o disco bem diferente do que vocês produziram anteriormente. Como foi esse processo de criação?

Acho que o processo em si não mudou muito, mas as nossas cabeças mesmo, sabe? Tipo, a banda teve uma mudança de formação com a entrada do Yuri costa, guitarra e synth, na banda, além de ter sido o álbum que contou com a participação do Gabriel de Sousa no sax e samples. Então a gente tinha novas cabeças pensantes que estavam em encontro com o que também estávamos pensando. Referências novas, influências novas. Mas eu acho que, ao mesmo tempo, muitas das referências que compuseram nossos materiais anteriores também estavam lá, e algumas outras que apareceram melhor nesse álbum já estavam com a gente em tempos, mas acho que agora tivemos mais segurança e leveza em trazer à tona musicalmente.

Mas o processo em si não mudou muito, nossas composições em sua maioria nasceram das jams que fizemos ao longo desse ano. Mas com o Yuri, que veio também com outras abordagens de composição, nós meio que demos maior liberdade a nós mesmos em criar em estúdio, moldar em casa juntos e explorar as ideias em separado.

Então acho que essa cabeça mais madura da banda ajudou a gente a compor o que foi as musicas do O Cão

A melancolia presente permanece, mas parece que deu uma ensolarada. Essas mudanças na formação também resultaram isso ou também teve mudança no dia a dia da sua vida e da banda?

Talvez seja um pouco das nossas vidas durante o período de composição do álbum, sabe? Se puder contextualizar, acho que como banda estávamos em uma fase muito mais próxima entre todos nós, como membros de bandas, como artistas, músicos e amigos. Foi um álbum onde todo o processo foi realmente desprovido de momentos ou discussões tensas, sabe? Estávamos em uma harmonia boa. Mas, ao mesmo tempo, estávamos também com nossos problemas pessoais que falaram muito mais alto. Estamos ficando mais velhos, a gente anda lidando com a vida de ser músico, de lidar com frustrações pessoais de uma forma mais adulta, menos intempestiva. Mas ao mesmo tempo intensa, muito também pelo momento social que a gente vive, sabe? O que vai ser de nós? Todos nós tivemos em uma hora outra esse questionamento e essa reflexão. Eu, inclusive, andei tendo bastante esse processo durante a criação do álbum. Mas vi que, apesar disso tudo, me via muito pleno em estar no maquinas, fazendo o que faço, do lado dos amigos que eu de fato queria estar para chegar junto nessa vida. Então as lutas internas nossas são pesadas mas temos um ao outro para nos ajudarmos a lidar de uma forma ou de outra

Acho que o álbum não seria “ensolarado”, mas foi mais “social”, sabe? Nos abrindo para nós mesmos, saindo de barreiras que tínhamos. E também, em contato com amigos que admiramos, que nos inspiramos, que compartilhamos as mesmas lutas de ser músico na cidade e nesse momento no país nos fez mais próximos. O que inclusive nos fez mais abertos em chamar os amigos que participaram desse álbum. Então ele se tornou uma catarse emocional e artística, não só minha, ou do Roberto, do Gabs, do Ricardo, da banda toda, mas também do Eros, da Clau Aniz, da Ayla, do Felipe, do Y.A.O. e do Breno! Acho que isso seria o “ensolarado” do álbum e isso eu vejo como algo muito bom.

Senti na sonoridade uma pegada Blade Runner, com o sax. (risos) Tinha uma linha a seguir, um roteiro, ou foram só as jams mesmo que moldaram o disco?

Acho que não. Não teve nenhum roteiro ou algo pensado para chegar a algum ponto. Foi mais fruto do que estávamos dispostos a criar nos momentos. Mas posso garantir que Vangelis foi uma referência bem presente nas criações, então acho que a pegada Blade Runner que você citou faz total sentido mesmo! (risos)

Tem algo concreto de shows por aqui? Tem uma leva de bandas artistas daí aparecendo e reaparecendo, como está a movimentação na cidade em termos de produção de show/lugares para tocar?

Por enquanto não. Ainda não fomos atrás, nem fomos chamados ou sondados para shows por aí. Esse momento está sendo para a gente pensar como seria nossa turnê de lançamento em 2020. Temos diversos fãs e amigos chamando para tocar em cidades que ainda não fomos e queremos dar prioridade justamente para esses locais, mas estamos vendo como podemos viabilizar, principalmente monetariamente, essa turnê.

Olha, eu sou bem categórico em dizer que talvez a cidade esteja em um grande momento para os artistas locais, pela quantidade de nomes interessantes que surgiram ao menos de uns 2 anos para cá. A gente vê uma maior movimentação em torno de coletivos, selos e produtoras menores ao passo de que também trabalham em conjunto com as instituições culturais do estado para promover também eventos a preços acessíveis ou gratuitos. De cabeça consigo pensar em alguns nomes novos como Clau Aniz, Glamourings, Jack The Joker, Sila Crvz, Casa de Velho, Lua e Clapt Boom, alguns coletivos de música eletrônica que estão surgindo na cidade. Então temos uma geração nova bem talentosa e de estilos muito variados, o que acho interessante pois não viramos uma cidade de um determinado gênero, sabe? Fortaleza no quesito de produções musicais sempre foi uma cidade com diversas cenas, sendo algumas com mais destaque que as outras ao longo dos anos, mas acho que, atualmente, estamos no momento mais criativo e arrisco dizer que é a cidade onde está surgindo o melhor da música underground no país.

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