Doce de Sal canta a vida punk sob o sol escaldante de Teresina

O Inimigo
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Aug 26 · 6 min read

Por Alexis Peixoto

Publicado em 26/01/2015

Doce de Sal é um trio de Teresina que toca axé punk. A princípio, o rótulo pode parecer mais uma forçada de amizade de quem quer chamar atenção, mas basta um papo rápido com o vocalista e guitarrista Valciãn SunBoy para perceber que o negócio é sério.

Surgida em um dos ecossistemas mais punks que existem — a periferia de uma capital nordestina — a Doce de Sal busca traduzir em poucos acordes toda a complexidade da realidade que habitam. A opção pela linguagem direta, verbal e musicalmente, só ressalta o que eles têm a dizer.

No papo a seguir, Valciãn SunBoy fala sobre a relação entre axé e punk rock, os perrengues de se fazer música autoral em Teresina e adianta detalhes sobre a produção do álbum de estreia da Doce de Sal.

O Inimigo: Como surgiu a Doce de Sal?

Valciãn SunBoy: Bem, a Doce de Sal surgiu pelo final de 2008 na zona Sudeste de Teresina, precisamente no bairro Renascença 2, região do grande Dirceu. Durante os anos seguintes fizemos bons shows com as bandas dessa cena, das quais apenas duas sobreviveram até o dia de hoje: Doce de Sal e Elétron. Como é de se suspeitar, os membros não são mais os iniciais, atualmente somos Lucas Martins (bateria), Guilherme Filho (baixo) e Valciãn Sunboy (guitarra/berros). Comentar sobre essa fase da banda é cair no saudosismo (risos), então pulemos para o final de 2012, quando o Lucas entrou para a banda com o Francis, seguido do Guilherme na função.

Apesar da formação roqueira da banda, vocês citam influências de punk rock, psicodelia e música negra e definem o estilo da Doce de Sal como “axé punk”. Fala um pouco sobre essa mistura… Quais seriam os pontos em comum entre o axé e o punk?

Em Teresina, a influência dos “ritmos do momento” da indústria cultural brasileira é enorme sobre quem cresce na cidade. De modo que, na infância, sempre chegou para nós através de rádios e TV muito axé music na década de 90, depois pagode nos anos 2000 e em meio a isso, claro, o forró. É meio que impossível fugir disso, então nosso repertório inconsciente circula por aí também. Já adolescentes é que o gosto pelo rock, tratando no geral, é que fez com que fossemos atrás de referências do gênero para que pudéssemos nos sentir identificados com algo mais urgente. Atualmente, por conta [da trilha sonora] de Pariah, descobrimos a Tamar-kali, entre outras coisas como Fishbone, BLXPLTN, Bad Brains que são costumeiramente associados ao Afropunk, das coisas mais inclusivas que a gente já viu. De novembro pra cá temos acompanhado que algumas dessas bandas estão diretamente envolvidas com as manifestações contra o abuso e violência policial nos EUA, que provocou a morte de dois negros naquele país no final de 2014. Se pegarmos, por exemplo, a origem do samba-reggae, com os grupos Muzenza, Filhos de Gandhi e outros, todos sempre se voltaram para a cultura, a história do negro na Bahia e até antes dela, é um ponto comum que podemos citar. O que a Doce de Sal faz ou pratica em algumas de nossas músicas é a mistura de riffs punk sobre uma bateria ritmizada, com pegada de axé, de samba-reggae e até mesmo de swingueira. O inverso também acontece, de pegarmos uma violeira de guitarra e baixo para tocar sobre a bateria do rock. Então bandas como Fantasmão (fase Edcity), o próprio Edcity (fase solo), Guettho é Guettho (fase Chiclete Ferreira) entram como influências também. Geralmente quando comentamos isso, a galera desacredita, ri, acha que estamos desvirtuando a coisa, quando na verdade só estamos destruindo, ou melhor, desconstruindo como manda a essência do punk. Assim acabamos por enfrentar a resistência e o preconceito de muitas pessoas com esses ritmos, e isso a essência punk também ensinou para a gente (risos) Então, Axé Punk wins!

Como é a cena rock aí em Teresina? Existe um clima de cooperação entre as bandas, lugares pra tocar?

Essa é uma pergunta que requer uma análise que a gente não sabe se vai ser feliz nela, mas enfim… Atualmente, produzindo eventos na capital citamos o Movimento Autoralrock, que está se transformando numa associação e uma outra produtora. A diferença entre as duas é que o movimento é inclusivo pra caralho e oportuniza muitas bandas em fase inicial, atitude que fala por si só. Já o outro grupo, não. Já umas dez bandas que são tratadas como bandas daquele grupo e que sempre tocam juntas nos mesmos eventos, nas mesmas casas de shows, chupando os mesmos ovos uma das outras. A segunda diferença é que a galera desse grupo tem mais grana, mais puxa-saquismo, consegue maior visualização, contatos e tudo que é necessário nessa empreitada. Ah e tem o Ocuparte, coletivo que tem movimentado várias vertentes artísticas e que nessa mão dupla tem sido por vezes nosso escape. As casas de show que abarca o público rock são poucas, as casas de cultura são burocráticas e até para fazer evento na rua é preciso tirar grana de onde não se tem. Então, vamos deixar este panorama pra vocês.

Como estão as gravações do primeiro EP de vocês? Existe previsão de lançamento ou título definido? Quantas faixas serão?

Sobre as gravações é o seguinte: disponibilizamos três faixas do nosso primeiro disco, há uma quarta em processo de gravação, tudo feito por nossa conta, custos, estúdio, mixagem, etc. Nossa pretensão é continuar as gravações em um outro estúdio, de modo que essa quarta faixa do primeiro estúdio pode ficar perdida (risos), pois estamos viabilizando gravar o restante das músicas num estúdio mais perto da nossa área para evitar muitos gastos com transporte e o perigo de carregar instrumento pra cima e pra baixo, atravessando a cidade. A pretensão é que nossa próxima música a ser lançada seja uma com essa vibe “axé punk”. O disco — vai ser mesmo um disco — , terá talvez 12 faixas e se chamará Quem Cresce em Terê tem o Sol como Sina. Enquanto houver 2015 será essa a nossa previsão, pois como nós mesmo estamos bancando a coisa, não dá para precisar uma data ou mês para lançar. Das três faixas já disponíveis em nosso Soundcloud, há uma com participação do Igor Filus da banda Charme Chulo, que lançou recente um disco duplo.

Nas letras de vocês e até mesmo na própria fanpage da banda, pude notar um forte posicionamento em relação às questões sociais, sobretudo contra a violência urbana. Na opinião de vocês, como a música pode ajudar a discutir e combater essas questões?

O [disco] Quem Cresce em Terê é meio que um raio-x do ‘caos urbano diário’ aqui em Teresina. Sempre observamos de perto e com espanto vizinhos, parentes, gente que a gente gosta se meter com uns lances meio beco sem saída. Essa questão da violência urbana é como se fosse sei lá, uma conversa que achamos que poderíamos ter tido com nossos amigos antes de eles embarcarem nessa e não rolou. A letra de “Avenida das Hortas”, a quarta faixa citada acima, é cantado assim: “A gente cresceu no mesmo lugar/Frequentou a mesma escola/Tu lembra do campo cheio de sujeira/Onde a gente brincava de porrada?”. Longe de qualquer saudosismo, isso é perda, apenas. Fora isso tem tanta coisa que a gente precisa parar pra pensar… A gente sai do ensaio, inventa de comer algo e chega alguém pedindo ajuda, a gente só tem o da merenda certo ali porque pagou o ensaio. Acho que a única maneira de isso doer na gente é buscando discutir tudo isso, fazer com que isso reflita em atitudes sociais e pessoais, já que políticas (no sentido políticas públicas) está um patamar acima. É o que a Tamar vai fazer, por exemplo, agora gravando um single a respeito das mortes mencionadas em outro tópico. Claro, a música não vai mudar muito, mas pelo menos vai pautar o debate sobre opressão policial no país por um bom tempo ainda e debater ajuda a conscientizar, amigo.

Quais são os planos da Doce de Sal para 2015?

Nossos planos para 2015 são concluir nosso disco, divulgar o máximo no esquema faixa-a-faixa, primeiro clipe, buscar apresentações nas cidades do interior do Piauí, se possível, fora (Maranhão, Ceará é sempre o primeiro passo aqui), estreitar laços com a galera da Geração Perdida de BH e tocar fogo nessa cidade

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