Em EP de estreia, Oblomov eleva a preguiça ao estado de arte

Alexis Peixoto
May 8 · 5 min read

Dupla goiana lança EP gravado em casa, com influências de MPB, indie contemporâneo e literatura

blomov, o personagem que dá título ao romance do russo Ivan Goncharov, é um gênio da preguiça, famoso pela proeza de passar as primeiras 150 páginas do livro que lhe cabe sem conseguir sair da cama, arrumando desculpa por cima de desculpa para não cumprir com as obrigações mínimas de estar vivo. Já a dupla João Victor (guitarra, voz) e José Eduardo (guitarra, baixo, bateria, percussão), que empresta o nome do personagem para batizar seu projeto musical, corre na paralela: preguiçosos sim, imóveis jamais. Ambos na casa dos 18 anos, os meliantes acabam de colocar na praça um EP com cinco faixas gravadas em casa utilizando um celular e outros métodos caseiros, costurando influências de música brasileira, indie jovem e poesia.

O EP do Oblomov pode ser ouvido na íntegra pelo YouTube e Spotify.

A empreitada e a amizade da dupla começou como a de muitas bandas: na escola, trocando ideia sobre música durante o recreio. A princípio, o papo girava em torno dos dinossauros de sempre: Beatles, Hendrix, Cream Sabbath e que tais. No início, os dois se reuniam para tirar covers dessas bandas, com um auxílio de um primo e um irmão de José Eduardo no baixo e guitarra, respectivamente. Na medida em que foram descobrindo e ouvindo outros sons, a vontade de criar e tocar composições próprias foi crescendo.

“Passamos a ouvir muito indie contemporâneo, MPB, etc. Isso obrigou a gente a tirar as músicas de ouvido, porque já não tinha cifra pra o que nós ouvíamos”, conta João Victor, por e-mail. “ No ano de 2016 começamos a tocar essas músicas e cantar também (antes ninguém cantava). Além disso começamos a improvisar bastante, fazer jams. Eu comecei a ler e escrever uns poemas. E então decidimos juntar tudo isso e compor nossas próprias músicas”.

São essas primeiras composições que aparecem no EP, disponível no Spotify e YouTube. Entre as cinco faixas, o ouvinte atento pode até arriscar alguns pontos de referência — Beatles fase Revolver, Clube da Esquina, Real Estate — mas o que fica em primeiro plano é a personalidade da dupla, que espertamente usa suas influências como um filtro para ideias próprias do que como manual a ser seguido à risca.

No papo com João Victor, comento que um amigo a quem mostrei o EP achou as músicas boas, mas muito “noturnas”. Ele leva na boa, mas garante que nada foi de propósito e se alguma coisa saiu com cara de by night foi reflexo das experiências, sentimentos e relacionamentos dos envolvidos à época da gravação.

“Então, algumas faixas saíram sim com esse clima noturno, mas não foi algo intencional. Simplesmente refletiu a vibe em que a gente estava no período em que foi gravado. “Contemplar”, por exemplo, eu fiz numa época bem feliz da minha vida então a atmosfera da música foi essa. Agora “Fevereiro” veio numa época em que eu não estava bem, assim como o José quando fez “Take me”. Mas às vezes não é nada disso. Se fizermos algum acorde enquanto estamos tocando, a impressão que esse acorde causa pode inspirar uma música inteira”, entrega.

Aprendendo a gravar na marra

José Eduardo durante a gravação do EP de estreia da Oblomov.

uem ouve o disquinho talvez nem note, mas pra chegar no resultado final os dois amigos tiveram que penar um bocado. Sem grana, equipamentos ou experiência em estúdio, o jeito foi improvisar a gravação do EP com o que estava à mão, aprendendo na prática como se faz.

“Nossas duas primeiras músicas (‘Tá Tudo Bem’ e ‘Viagem’) foram gravadas no celular. A gente colocava ele na frente dos instrumentos, ou amplificadores e ia gravando, juntando depois num aplicativo”, revela João Victor. “Depois disso, quando já estávamos acostumados com esse processo, o José ganhou um microfone condensador. Daí tivemos que mudar totalmente a maneira como fazíamos as coisas”, conta.

Segundo João Victor, a chegada do novo equipamento atrasou um pouco o ritmo das gravações, mas no fim ajudou a amadurecer a sonoridade pretendida para o projeto.

João Victor gravando vocais e guitarra para o EP da Oblomov.

“Foi um novo processo de adaptação. Gravamos quatro músicas e não aproveitamos nenhuma, a gente sempre queria mudar alguma coisa ou ficava insatisfeito com o som. À medida que o tempo foi passando, o José (que gravou e mixou tudo) foi desenvolvendo a própria técnica de gravação, aí tudo foi ficando mais fácil pra gente e o som também estava muito melhor. A gente gravou devagar quase parando e aprendemos na marra mesmo”.

Com algumas poucas aparições ao vivo no currículo, como no Show de Talentos de São Simão (GO), a Oblomov segue escrevendo sua história doida por caminhos tortos, agora empenhados em divulgar o EP de estreia.

Mas antes de ir embora, vale perguntar: no meio dessa história, como fica a ligação entre a banda e o personagem russo? A preguiça insuperável do último não destoa da vontade de fazer por conta própria dos primeiros?

João Victor dá a letra: “Quando fomos decidir um nome para o projeto, surgiu essa ideia de fazer referência a algo literário. Pensei em Kafka ou Boi Morto (poema do Manuel Bandeira) mas não tinha nada a ver com a gente (exceto pelo fato de que gostamos dos autores). Daí sugeri Oblomov. Foi uma referência ao personagem e não ao romance, até porque não chegamos a ler o livro (risos). Já tentei mas parei no meio, não era pra mim, achei meio chato até (risos). A gente achou que esse nome soava bem e que a personalidade do Oblomov, esse cara preguiçoso, que posterga tudo e fica à toa, tinha um pouco a ver com a gente”.

De fato, personalidade a dupla tem de sobra. Quem curtiu o som, pode companhar as próximas aventuras da Oblomov pelo Facebook e/ou Instagram.

O Inimigo

O som que o outro lado faz.

Alexis Peixoto

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Jornalista, tradutor.

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