Em novo disco, China explora a sobrevivência nos dias atuais

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Jun 28, 2019 · 4 min read

Por Hugo Morais

Desde o fim dos anos 90, com a Sheik Tosado, China mistura música brasileira com outros ritmos com letras que abordam a sociedade. A existência da África dentro de cada casa cantada na época de sua ex-banda chegou ao fascismo dos dias atuais onde os cidadãos de bem são o tribunal. Mas há esperança, como mostram “Mareação”, e até romantismo em “Pó de Estrela”.

Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos é o quinto disco solo de China e conta com participações de Bell Puã, Nilsinho Amarante, Natália Matos, Uyara Torrente e Andreas Kisser. Um disco recheado do que ele e tantos músicos/artistas brasileiros sabem tanto fazer: misturar referências e criar músicas de qualidade que fazem crítica e botam pra dançar. O que , às vezes, é um paradoxo.

Batemos um papo rápido com China sobre o passado, o presente e o vislumbre do futuro, pelo menos nos próximos 4 anos, fica a cargo das letras do novo disco.

Olhando hoje, como você vê o disco da Sheik Tosado em relação aos dias atuais? Considera atemporal? Os temas pertinentes aos dias de hoje?

Acho que alguns temas tratados no disco do Sheik são o reflexo da sociedade como um todo, de ontem, de hoje. O racismo no Brasil é algo que sempre existiu e uma música como “Toda Casa Tem Um Pouco de África”, por exemplo, fala sobre isso. Algumas coisas da nossa sociedade nunca mudaram, então canções que foram escritas por compositores há 20, 30, 40 anos atrás continuam atuais.

E aparentemente tudo que foi conquistado está sendo soterrado em muito pouco tempo. Artistas e bandas que sempre se posicionaram por meio da arte vem falando abertamente em shows e para a imprensa contra as atuais práticas do governo. O seu novo disco é bem direto quanto a isso. Teve essa intenção ou foi algo natural?

Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos fala desse sentimento geral da população. Essas críticas ao Brasil de hoje não são só minhas. É sua, do meu vizinho e de todo mundo. Estamos insatisfeitos com a condução do nosso país e precisamos falar sobre isso para buscar mudanças. O compositor é um cronista da realidade, então, é natural que esse disco novo trate desses temas. É massa ver a população falando sobre política, relatando suas experiências. Precisamos criar essa consciência política, entender como funciona o jogo político, pois conhecendo o jogo valorizamos mais o nosso voto. A mudança está no nosso voto e aos poucos aprenderemos a valorizar isso.

O processo de construção do seu disco foi algo solto, sem pressão, ou vocês pararam pra fazer tudo de uma vez?

O disco sempre teve um tema. A palavra “sobreviver”. A partir dos questionamentos do que é sobreviver nos dias de hoje as canções foram nascendo. Por isso o disco não teve um single antes. A ideia era lançar o material inteiro. Não faria sentido ir soltando músicas aos poucos nesse trabalho.

Já com as temáticas do disco, também teve uma ideia prévia ou os temas foram saindo aos poucos?

Com o mote do disco as canções nasceram rápido. Eu já tinha a ideia de não usar bateria, e sim uma grande percussão, pesada mesmo. Com a ajuda do produtor Yuri Queiroga fomos achando esse som, testando sonoridades, mas os temas vieram rápido.

Os independentes que vem há anos ganhando espaço podem voltar a ter um espaço mínimo com essa demonização da cultura e das leis de incentivo, como a Rouanet? Beirando o gueto ou já se fortaleceu ao ponto de se manter sem essas leis?

Acho que a cena independente cresce a cada ano e está mais forte do que nunca. Sempre demos um jeito de fazer discos e shows que não dependem de editais de cultura. Agora, acho que essa demonização da Lei Rouanet é ruim para o Brasil como um todo. Um povo sem cultura e arte não avança como sociedade, não cria um pensamento crítico. Todos os países desenvolvidos investem muito em cultura, já ficou bem claro que é importante investir em cultura, pois aumenta o turismo, cresce a economia, e temos vários exemplos disso no Brasil mesmo: A virada cultural em SP esse ano teve um belo giro na economia, assim como o festival de teatro que rola todo ano em Curitiba movimenta o turismo e consequentemente a economia do lugar. O quanto os estados lucram com o carnaval, por exemplo? É uma bela grana, fruto da arte e da cultura. Um governo que demoniza seus professores e seus artistas por não saber conviver com o livre pensamento não faz ideia do mal que está fazendo ao povo. Ou faz e a ideia é essa mesmo, né? Esses cortes enfraquecem a sociedade e a própria sociedade ainda não entendeu isso.

Recentemente lançaram disco você, Alessandra Leão e Gustavo da Lua. Discos bem distintos nas propostas. Como você vê a atual produção pernambucana?

Acho a cena PE pulsante. Toda hora tem um bom disco vindo de lá. A gente tem essa coisa de não querer parecer com ninguém, musicalmente falando, então estamos sempre experimentando coisas, tentando achar nosso caminho como artista. Acredito que essa busca e essa vontade de estar sempre fuçando as origens da música brasileira faz com que a música pernambucana sempre traga algo novo, com referências diferentes do que se está acostumado a ouvir.

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