O Inimigo
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Mar 27 · 6 min read

Por Alexis Peixoto

Publicado em 13/06/2014

A história da família Hackney é daquelas capazes de fazer o mais incréu dos incréus voltar a ter fé no rock’n roll

Sem sombra alguma de pieguismo: a história da família Hackney é daquelas capazes de fazer o mais incréu dos incréus voltar a ter fé no rock’n roll.

A história começa nos anos 70, quando três irmãos — Dave, Dannis e Bobby Hackney — influenciados por Alice Cooper e The Who resolvem montar uma banda de rock e acabam inventando o punk antes do punk saber que existia. Seguindo uma complicada filosofia elaborada por Dave, os irmãos adotam o nome Death e conseguem ser rejeitados por todas as gravadoras que se dispõem a ouvi-los.

Resignados, Dannis e Bobby esquecem do Death e vão tocar reggae, com o grupo Lambsbread. Dave, o único que acreditava na genialidade daquela aventura adolescente, guarda as fitas do Death por trinta anos.

Foi só nos anos 2000, depois da morte de Dave, que Bobby Jr., Urian e Julian, filhos de Bobby Hackney, descobriram as gravações do Death e formaram o Rough Francis para honrar a música feita pelo pai e pelos tios. As apresentações da banda geraram burburinho suficiente para chamar atenção do New York Times e, mais tarde, dar origem ao ótimo filme A Band Called Death, que conta toda a saga das duas gerações da família Hackney.

Desde então, muita coisa aconteceu. O Death voltou aos palcos e três álbuns de material antigo foram lançados pelo selo Drag City, sendo o primeiro, … For The Whole World to See, o mais aclamado pela crítica.

Enquanto isso, o Rough Francis começou a escrever material próprio e no fim do ano passado lançou o álbum Maximum Soul Power, um coquetel poderoso de punk rock, garagismos sixties e soul. Com pouco menos de meia hora de duração, é um disco alto o bastante para dispensar toda a apresentação do parágrafo anterior.

Entre um show e outro, o vocalista do Rough Francis, Bobby Hackney Jr., tirou um tempo para bater um papo com O Inimigo sobre a formação da banda, a vida na estrada versus empregos normais, a influência do punk na herança musical da família Hackney e a viagem que foi ver Os Mutantes ao vivo.

O Inimigo: O Rough Francis foi formada como uma banda-tributo ao Death. Como vocês começaram a compor material próprio?

Bobby Hackney Jr: Quando começamos a banda, pouca gente conhecia o Death e …For The Whole World to See ainda não havia sido lançado. Por um curto período de tempo, nós fomos os únicos a ter acesso às gravações originais do Death. A gente pirou no som, ficamos fascinados pela música que nosso pai e nossos tios criaram quando eram adolescentes. Depois que …For The Whole World to See saiu, meu pai e meu tio Dannis decidiram voltar a tocar como Death e sair em turnê. Depois disso, começamos a compor material próprio pro Rough Francis.

O Inimigo: Vocês estão tocando bastante e embarcando em turnês nos EUA. Já conseguiram largar os empregos pra ser uma banda em tempo integral?

BHJ: Os shows têm sido maravilhosos. Ainda estamos fazendo as coisas de forma modesta, bem DYI, mas as pessoas que vem ao show nos tratam como se fossemos reis. Todos mundo na banda ainda tem outro emprego, mas tentamos ir a lugares novos sempre que possível. No momento, temos o melhor dos dois mundos. É muito bom voltar pra casa depois de uma série de shows e ir trabalhar num emprego comum. Gostamos dessa sensação de normalidade, de ter uma âncora em casa. E trabalhar também deixa a gente com mais vontade de tocar. Quando a gente toca, botamos tudo pra fora. Tentamos aproveitar ao máximo as turnês, adoramos sair por aí e fazer novos amigos. No momento certo, esperamos levar o que gente já faz adiante e tornar a banda uma atividade full time.

O Inimigo: Maximum Soul Power saiu em vinil, CD e cassete, mas também está disponível no Spotify. Ultimamente, tem havido muita discussão sobre os serviços de streaming e como eles podem afetar os artistas novos e independentes. Como você vê essa nova possibilidade de distribuir música?

BHJ: Acho que os serviços de streaming são ótimos para bandas como a nossa. Um exemplo perfeito é essa entrevista. Tenho certeza que você nunca teria ouvido falar da gente se não fosse pelo streaming, ou pelas redes sociais ou pela rede de contatos que a internet proporciona. Agora que nossa música está disponível para o mundo todo, as possibilidades são infinitas.

O Inimigo: Gostei muito da faixa “Black & Red”, em Maximum Soul Power. É como se vocês usassem a estética punk para atingir um som mais voltado para as garagens dos anos 60, algo na linha de The Seeds, Easybeats ou Electric Prunes. Gostaria de comentar?

BHJ: Temos muitas influências de bandas dos anos 60, mas também de Motown e punk. Adoramos esse sonoridade “meio-termo” característica de algumas bandas entre 1967 e 1969. Os caras estavam indo fundo no peso e na psicodelia, mas sempre mantendo uma base pop. Pra mim, “Black & Red” é a nossa canção “meio termo”.

O Inimigo: Na faixa “Comm to Space”, vocês usam um sample de um trote telefônico que o seu tio Dave costumava fazer. Já pensaram em como seria uma colaboração entre o Rough Francis e ele?

BHJ: Sim, pensamos bastante sobre isso. Se o tio Dave estivesse vivo hoje ficaria maravilhado com a descoberta do Death e o surgimento do Rough Francis. Uma colaboração entre a gente e o nosso tio certamente seria muito louca e barulhenta.

O Inimigo: Depois do Death, seu pai e tio formaram a banda de reggae Lambsbread. A música deles já influenciava vocês naquela época? Vocês já curtiam punk e hardcore?

BHJ: Quando meus irmãos e eu éramos mais novos, só conhecíamos nosso pai e nosso tio Dannis como músicos de reggae. Todos nós aprendemos a tocar vendo o Lambsbread e ouvindo discos de reggae em casa. Quando eu tinha 14 ou 15 anos, comecei a andar de skate e fiz amizade com uns caras que curtiam punk. Um amigo meu gravou pra mim uma mixtape com Black Flag, Minor Threat e Fugazi e essa foi minha porta de entrada pro universo punk. Na época, tudo parecia tão novo. O som era agressivo, mas às vezes também era positivo ou informativo, que nem o reggae. Quando meus irmãos ficaram mais velhos, também começaram a ouvir punk. Quando nós três descobrimos o Death, tudo fez sentido. Percebemos que o punk estava no nosso sangue e que iria mudar nossas vidas da melhor maneira possível.

O Inimigo: Falando nisso, como vão Bobby Sr. e Dannis? Eles estão compondo material novo como Death?

BHJ: Na verdade, eles estão trabalhando em um disco novo. Fique ligado!!!

O Inimigo: Pra terminar, uma pergunta clássica: você conhece alguma coisa de música brasileira (punk ou “normal”)?

BHJ: A única banda brasileira que eu conheço e curto pra caramba são Os Mutantes. Ficamos fascinados com o lance da Tropicália, dos anos 60. Tivemos o prazer de ver Os Mutantes em Vermont, há mais ou menos um ano. Foi muito surreal poder vê-los ao vivo. Sempre os coloquei na categoria “bandas que nunca vou poder ver” e até hoje ainda não acredito que vi um show deles — que viagem. Parece que Os Mutantes estão conquistando uma nova base de fãs, que nem o Death, e agora eles podem fazer turnês e ser tão relevantes quanto eram nos anos 60. Não conheço nenhuma banda punk brasileira, mas tenho certeza que elas devem ser demais!

Na sequência, ouça o primeiro álbum, do Rough Francis.

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