Festival DoSol 2019: Entre a música e necessidade de se comemorar um título continental do Flamengo

O Inimigo
O Inimigo
Dec 1, 2019 · 12 min read

Futebol e música passearam lado a lado vertendo em um porre de dupla potência

Texto: Pedro Lucas

Fotos: Felipe Alecrim

O dia 23 de novembro de 2019 pra parte dos brasileiros não era só um sábado normal de descanso como o sétimo dia resguardado por Deus ao fim de seu trabalho. Não era um sábado comum de cerveja e churrasco. Não era um sábado em que os jovens se encontravam pra beber cerveja e curtir. Não era só um sábado desses que você espera ansiosamente a hora de sair de casa e ver a grande atração da noite. Não era só para os alternas natalenses um dia de Festival Dosol com Heavy Baile e Àttooxxa. Era também o dia em que o Brasil parava para ver um dos grandes acontecimentos deste ano; esse sábado, obliterando todos os sábados anteriores, era o sábado da final da Libertadores da América disputada entre o MENGÃO e o River Plate.

MENGÃO CAMPEÃO

Por uma pilhéria do destino, a data caiu exatamente no mesmo dia do Festival Dosol, nosso tradicional role na praia, aquela reunião de velhos roqueiros e novos baladeiros da cidade do Natal e até mesmo do Brasil, sempre com velhos conhecidos retornando, sempre com visitantes assíduos da província, etc. E a hora do jogo culminava bem com a hora em que as atrações do Dosol já iam nas terceiras bandas da noite. Mas na falta de um telão no meio do Beach Club pra unir o útil ao agradável, e talvez por temer o baixo astral ou clima de discórdia despertado por uma possível derrota do Flamengo, a organização achou por bem não colocar no festival nenhum meio televisivo que transmitisse o jogo. Essa exemplar redação, portanto, dividiu-se: eu (Pedro) e o fotógrafo Felipe Alecrim (ambos flamenguistas) fomos ver o jogo cada um em um lugar, combinando de ir ao festival assim que o apito final soasse e seja lá que resultado os deuses do ludopédio escolhessem, rogando sempre que dessem uma vitória que coroasse uma tremenda noite de sábado ao som de funk carioca. Por sorte as entidades optaram pelo bem da nação e o Flamengo sagrou-se campeão, assim como nós deflagramos desenfreada corrida alcoólica que terminou, claro, numa atabalhoada participação enquanto espectadores do Festival. Mas O Inimigo é também uma instituição etílica e amiga de todas as substâncias que batam forte no coração e cabeça, entonces, nossas impressões do sábado de Dosol foram esfumaçadas como sinalizador no Maracanã ou rascantes como a matada no peito de Gabigol seguidas daquele chute no lado direito do goleiro Armani; ou seja, breve e fatal. Sigamos.

Antes de tudo, por quem estava desde cedo pelo Beach Club e pôde ver as atrações do início, soubemos que a banda alagoana Taco de Golfe foi elogiada e celebrada com seu math-rock ortodoxo e embriagante. Confio e espalho a palavra. Também cedo rolou Raça, Soul Rebel, Luaz, Dega e Tuyo, que perdemos mas temos esperança de que foi bom pra todo mundo (que curte). Do que vimos, O Quadro e Josyara fizeram shows impactantes: O Quadro talvez merecesse, inclusive, espaço mais tarde nessa noite de sábado, numa session que se comunicasse com a energia dos seus conterrâneos do Àttooxxá (inclusive, alguns membros dessa banda baiana são oriundos d’O Quadro). A banca swingada da Bahia, entre o rap, o pagodao baiano, o ragga e a swinguera, agitam onde for com sua pegada urbana e ligeira, cheia de ginga. Tá amarrado em nome d’O Quadro! A também baiana Josyara fez seu show minimalista do lado do mar — enquanto as ondas batiam cá e lá ela ia entortando seu violão ao lado de seu baterista multifuncional, que ia soltando bases pontualmente. A conjunção do mar e sua levada com seu suingue algo Itamar Assumpção fizeram uma soma rara e bonita, das coisas finas do Festival Dosol.

Outros nomes dignos de nota da noite, potiguares que merecem o espaço que vem abrindo nessa clareira, Potyguara Bardo e Cazasuja fizeram boa ponte entre consagração e promessa, respectivamente. Tocando em horários próximos, a drag cantriz holística tocou estranhamente no palco menor, na Arena Oi, próximo ao mar mas com menor área pro público. No momento do show de Potyguara, a impressão que dava é que a plateia tinha triplicado, tamanho o inchaço que a quantidade de gente causou no pouco espaço que tinham. Era preciso algum esforço pra ver o show de perto. Com sua formação completa, com Dante Augusto nas guitarras, Mateus Tinoco nos synths e a backing vocal Heloisa, o show de Potyguara teve participação de Luisa Nascim (Luisa e os Alquimistas) e contou com muitas músicas cantadas a plenos pulmões pelo público, que já espera o sucessor de Simulacre. Merecia, pelo efeito causado nas gentes, lugar no palco maior.

O jovem Cazasuja, citado ali no começo, surpreendeu com sua fúria: subiu no palco com vários ad-libbers e parceiros da crew GORE GANG, seus chegados de andanças pela cidade e batalhas de Zona Oeste a Zona Norte, e representou a safra mais importante do rap potiguar desde o advento do Agregados Família do Rap. Cazasuja (ou Otto, o nome por trás do codinome, ou vice-versa) vem aprendendo pouco a pouco a ter sua autoria no modo de empunhar e falar ao microfone, do que falar e como falar, de criar sua imagem e descolar-se de seus ídolos (é possível vislumbrar nos gestos e na lírica de Otto um aceno ao Baco Exu do Blues em sua fase D.D.H., ou mesmo o Djonga em seu início com a DVTribo), e a tendência é que ele trilhe um caminho singular. O show no Dosol foi violento e nervoso como deve ser o testamento das ruas e mostrou a versatilidade do rapper: teve gutural, teve flow rápido e flow lento, um arsenal vocal à parte. Além disso tudo, esse dia marcou o lançamento do disco Dia de Preto, a sair em breve.

As tais memórias esfumaçadas decorrentes da vitória do mengão começam a aparecer mais aqui: podemos citar o show de Luisa e os Alquimistas como um dos marcos da noite (e do ano em terras potiguares, dado que esse show foi o lançamento do já CLÁSSICO Jaguatirica Print por essas plagas), com resposta rebolativa extrema da galera, incluindo participação de Sinta a Liga Crew, Jéssica Caitano e Potyguara Bardo, além de confirmar a posição privilegiada de Luisa e os Alquimistas no panteão do pop nordestino. Outro show importante e que foi uma honra dada a quem pode ver foi o experimento e instalação sonoros apresentados por Kiko Dinucci, Chico Correa e Paal Nillsen-Love. Que porrada. Como de improviso ou dando a impressão de improvisar, o trio ia construindo temas tortos, quebrando melodias e reinventando contratempos numa verdadeira expedição sonora pelo mundo bizarro da distorção. Inclassificável e único, não só para o público como para os músicos. Dinucci ia tecendo pequenos pontos africanos como se puxados de memória, em gesto caótico que gerava mantras. Em quem não tinha batido nada e tava em tempo de bater, a hora era agora.

Foi o que aconteceu com os membros dessa redação, fotógrafo e repórter, um a cada vez. O fotógrafo quase não acerta sua câmera e este que vos escreve há tempos tinha perdido a capacidade de refletir e raciocinar como deveria. Era clima de revista Vice generalizado. Mas cabe menção ainda a shows vistos por cima, mas que merecem o selo de JÓIA: Aíyra, em show de estreia, o Àttooxxá em sua traulitada completa (no festival Pôr do Som, no começo do ano, o grupo veio desfalcado e fez um show um tanto quanto preguiçoso), e a tempestade carioca do Heavy Baile inflamada pelo mengão campeão. Deu tudo certo. Dizem também que Demonia e Noid fizeram belos shows pros rockero e não-rockeros.

Domingo volta a ser dia de rockero

Tradicionalmente em seus tempos de Ribeira, o domingo do Festival Dosol era o HARD DAY, o dia do metal, do hardcore, do stoner e da guitarra flying-V. De uns anos pra cá a característica do domingo foi se metamorfoseando num dia aberto pros sons fofos, pra bandas que atraíam uma juventude menos carniceira e mais cupcakeira. Mas esse ano não (talvez o movimento tenha se iniciado ano passado até): o metal e seus tentáculos divididos em mil subgêneros e sub-categorias está de volta ao Dosol, dividindo holofotes com outras expressões que coadunam com o peso.

Já às 16h a banda-carpânica Deaf Cruiser descia a lenha no seu stoner (?) garage ou seja lá o que aquilo for (a dada vez alguém definiu o som dos caras como FU-MANCHUPA), com direito a presença luxuosa de Nick Oliveri na plateia. Oliveri inclusive aproveitou o quanto pôde seus momentos fora do palco: munido de uma Devassa e um cigarrinho sempre, viu de perto Deaf Cruiser, Heavenless, Black Pantera e Open the Coffin aprovando tudo sem concessões. Dividindo o horário com o Deaf Cruiser, os jovens paulistas da Yamasasi infelizmente tocaram pra pouca gente (inclusive aparentemente tinha um pessoal do hotel curtindo um som pós praia por ali) mas foram um dos destaques do festival como um todo: som garage à la Wavves, o quarteto mandou ver na estética bermudinha-inconsequente e produz um som doido, elétrico, com riffs embebidos em distorção.

O Heavenless parece ter sentido o clima de bermuda florida e curtição do Yamasasi: o trio deixou de lado as camisas pretas e subiram ao palco de short de praia e camisa florida, chocando os metaleiros mais fundamentalistas. Executaram sua exortação à besta-fera sem dó, regularmente bom e pesado. Pouco depois, a paulista Violet Soda, que está pra lançar disco próximo dia 06/12, estreou em terras potiguares com pé direito na porta. O som meio Weezer, noventista e puramente divertido, agradou inclusive um trio de meninas de uns 6 anos que pulavam sem parar durante todo o show. A vocalista Karen Dió inclusive dedicou uma música a elas. Show bom e solar que muito foi enriquecido pelo solzão que ainda estava batendo forte.

Outro destaque potiguar neste Dosol foi a dupla mossoroense Hell Lotus. Inevitavelmente tributários do Red Boots (Gilderlan, baterista, é oriundo do também duo), a dupla vai além e faz um som mais catchy, algo entre o grunge e o tradicional bluesismo dos duos pós White Stripes e Black Keys. A vocalista Vitória Bessa é uma tremenda vocalista e a coisa flui rapidamente na interação entre guitarra e bateria. A também potiguar Camarones, dos responsáveis pelo festival, tocaram dessa vez escudados pelo paraense Manoel Cordeiro, pai de Felipe Cordeiro, que tocara no sábado sua guitarrada típica do Pará. Confesso que não assisti, mas nosso fotógrafo Felipe Alecrim mandou dizer que pirou.

Daí pra frente a noite foi chegando e as coisas foram ficando mais pesadas. O pernambucano Luiz Lins tenta se despir de sua verve rapper e assumir as vestes de um crooner de r&b, mas ainda carece de ensaio, de reconstrução e de uma burilada nos arranjos pro projeto ganhar mais arrojo no palco. O cantor tocou com uma saia e um blazer bordô, indumentária que junto à sua quase-careca platinada dão um aspecto meio Frank Ocean meets Liniker ao artista. O Bike, que viera aqui uns anos atrás, aposta agora num formato que deu maturidade ao projeto: menos formato canção, mais lombra e mantra pro juízo. Pedal de voz, repetição, batera nova com mais recursos, deram nova vida e qualidade à banda de Julito Cavalcante, Diego Xavier e cia. Outra banda potiguar de peso que chamou atenção foi o supergrupo do metal natalense Open The Coffin, projeto do baixista Cláudio Slayer (do Son of a Witch e milhares de outros projetos). O grupo, montado só para esse show, merece continuar o trajeto, inclusive mantendo o CORPSE PAINT, coisa rara de se ver. For real pra headbanger. Satanás tava à solta.

Tão à solta estava que logo quem subiu ao palco foi Nick Oliveri, de roupa e até parecendo sóbrio, a despeito das várias gelas vertidas ao longo desse domingo na praia. O Mondo Generator aposta no formato Power trio trazendo clássicos de Oliveri, desde músicas suas tocadas no Queens of the Stone Age (como Hanging Tree, Gonna Leave You e outras, tocadas ao vivo), e do Kyuss, assim como do próprio Mondo Generator e talvez de outras bandas do baixista que porventura o repórter não conheça. No mais, Oliveri elogiou o Open the Coffin, o festival e as bandas presentes. Nostalgia & doidera num brinde só.

Depois do Mondo Generator, quem ficou ali de bobeira jogando conversa fora ou mesmo esperando a atração seguinte deve ter sido surpreendido do mesmo jeito. Os Black Pantera, trio de Uberaba (MG), entraram na Arena Oi ao som de um sample de uma voz que dizia “negro negro negro negro”. O trio é formado por três homens negros tocando uma espécie de crossover de metal e hardcore, algo entre o Gojira, o Municipal Waste e o Sepultura fase Derrick Green. Chute de dois pés na cara do metaleiro conservador. Sem contar muita conversa, foi um festival de riffs e breakdowns, com direito a cover de “A carne”, de Elza Soares e roda de pogo puxada pelo guitarrista, que desceu do palco com guitarra e tudo e puxou o caos. Foi dos melhores, se não o melhor, show do festival como um todo. E de surpresa é ainda melhor (o repórter tinha visto um show do trio em Goiania, no Festival Bananada e atesta que não foi tão GLORIOSO quanto no Dosol). Coisas do acaso. Cabe mencionar que o som dos microfones com qualidade mais ou menos fez bem ao trio: as letras não são o forte dos caras.

Drik Barbosa é hoje a dona de um dos melhores shows do Brasil e quem vê vira fã facilmente. Não foi diferente no festival Dosol e a rapper mandou ver, com direito a dançarinas no palco e participação do Attooxxa. O Tarot, grupo de ciganos de Brasília, botou muito hippie e tilele pra dançar, mas não ficamos muito tempo pra ver o serviço. Mulamba, grupo do Paraná, engajado e engajante, também teve grandes loas tecidas sobre seu show, mas foi bem na hora da traulitada do Black Pantera e perdoem-me, mas não saí dali até que botassem o palco abaixo.

No mais, pra fechar a conta, o Francisco El Hombre montou sua micareta de juventude socialista, mas já tava numa altura que era difícil descer qualquer ciranda ou quase-ciranda. O Festival Dosol ia se despedindo mais um ano, com 60 senhas já vendidas do blind ticket pra 2020, com nova edição confirmada, e com promessa de continuar essa mostra, esse projeto de recorte político e social de pautas que acreditamos, como bem ressaltou o produtor Anderson Foca no Twitter sobre a edição 2019, em um cenário independente que vai reagindo às agruras do país. O Festival Dosol de fato é uma mostra e um foco de resistência para gêneros que tem menos lugar nos espaços disponíveis (o metal, o Black metal, os sons regionais) ao redor, mas que também interagem com o grande discurso de mudança e autonomia que as bandas independentes brasileiras ativam.

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O zine de música menos bonito da cidade

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