Fuzzfaces: De volta do limbo

O Inimigo
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Jan 31, 2019 · 6 min read

Por Hugo Morais

Publicado em 13/01/2010

Falar em Garage Rock no Brasil é quase cair na mesmice de citar o característico pedal fuzz. Não que ele não seja importante, é e muito, mas o estilo vai muito além disso, marcado por músicas cruas, temas muitas vezes obscuros e bandas que tem apresentações arrebatadoras. Muitas bandas brasileiras tem influência do tal Garage, diluída em meio a solos e até vestimentas, mas poucas se dispõe a dissecar o estilo e seguir adiante na simplicidade pré-punk que marca o som. Eis que prestes a completar 10 anos — e após uma parada de dois anos — a banda Fuzzfaces (Andreia Crispim, baixo; Wagner Fuzz Tal, guitarra; Gregor Izidro, bateria; Sir Uly, teclado) volta com turnê na Argentina e a perspectiva de gravar mais um disco e entrar de vez na cena do rock independente nacional, por bem ou por mal.

Na era pré-myspace, a banda surgiu entre amigos ávidos por consumir Sonics, Mighty Caesars, Fuzztones e muitas outras bandas desconhecidas da maioria do público roqueiro. No currículo o EP Nós Não Estamos Nem Aí e o álbum Voodoo Hits, ambos lançados pelo selo argentino Rastrillo Records. Participaram também de dois tributos internacionais, um ao Fuzztones, Illegitimate Spawn (Sin Records — Estados Unidos), e outro ao The Sonics, Here Aren’t the Sonics (Rastrillo Records — Argentina). Abriram o show da banda japonesa Guitar Wolf em São Paulo e tocaram nos festivais Freakium (RJ) e Goiânia Noise (GO).

O Inimigo bateu um papo com os homens da banda. Confira.

O Inimigo — Como vocês se conheceram?

Gregor — Isso já faz tempo. Somos todos da mesma vizinhança, aqui pelos lados da Vila Formosa, Jardim Colorado, Buraco Quente, etc. E nos conhecemos no século passado, noventa e pouco. Eu e o Tal andávamos de skate, saíamos às vezes, ainda na adolescência. Pouco depois conheci a Andréia, que tinha ido num show de uma banda que eu tocava, em um festival aqui no Jardim Colorado.

Julgo que vocês tinham em comum o gosto pelo Garage, mas antes dessa história de downloads, como conseguiam os discos das bandas que vocês gostavam?

Gregor — Nessa época, começamos a conhecer o mundo das bandas garageiras dos 60’s. Isso veio de fitas K7 de amigos que iam em casas noturnas como Der Tempel que tocava esse som. Na época a gente tinha walkman de fita K7.

Wagner Tal — Bom, uma das primeiras fitas que eu consegui foi com um amigo meu , o Palito, que já era mais velho, e conhecia alguns DJ’s que discotecavam em casas underground famosas de SP na época, como Der Tempel e Retrô. Um desses DJ’s era o Aldo e o outro era o Serginho Barbo. Como éramos muito mais novos não tinhamos nem noção de onde arrumar esses sons, a não ser trocando fitas com amigos e conhecidos. Um tempo depois, descobrimos que havia muitas coisas legais de garagem, na Baratos Afins, na Galeria do Rock. E conhecemos coisas como Fuzztones, Seeds, Chocolate Watchband, The Sonics, etc.

O Garage no Brasil existe diluido como influência em várias bandas, mas não muito como estilo próprio, forte como em outros países. Tanto que o disco de vocês e Haxixins foram lançados fora. O do Damn Laser vampires também. Em São Paulo a cena e bandas tem se mantido? Como é a troca de informações, casas para shows?

Sir Uly — Cena que nada! O que se vê por aí são os amigos que colam nos shows, fora isso é meia dúzia de caras pálidas que vão aos shows. Lugar até tem pra tocar, mas os caras são meio cismados com o pessoal da Zona Leste.

Gregor — Essa coisa de “garage” é muito relativa. Uma vez saiu uma matéria na Bizz falando disso que achei meio nada a ver. Teve uma época que toda banda era garageira. Mas eu acho que as mais diferenciadas vieram daqui do nosso pedaço, na famigerada Zona Leste. Fazer o quê? Acho que esse resgate começou em São Paulo na década de 90, com bandas como Charts, Ultimates e Slugmen. Depois começamos a nos agilizar aqui, e surgiu Skywalkers, FuzzFaces, Laboratório SP, Surfin Bastard e sempre uma ou outra a mais. Depois de um tempo as formações mudaram e vieram bandas que se relacionam entre si, como Hitchcocks, Modulares, Parallèles e Haxixins. As vezes pinta um show aqui e ali, mas não é uma coisa de sempre, não temos um produtor nem nada pra cuidar disso e são poucos os que ficam ligando pra marcar show.

Wagner Tal — Vamos deixar bem claro: em São Paulo não existe e nem nunca existiu um cena específica de garagem! Uma coisa muito interessante que sempre rolou por aqui, principalmente na nossa área, é que nós somos muito amigos uns dos outros, a gente sempre dava força pra quem estava começando. Íamos aos shows uns dos outros frequentemente, tanto que a Zona Leste, nossa área, foi considerada a Meca das bandas de garagem de São Paulo por causa disso. Hoje esse lance de rock, cesceu muito, e tem bandas bem legais, coisa que na nossa época era raro, bandas como The Black Needles, As Cobras Malditas, Os Radiophonicos, Os Farpas, hoje tem espaço pra todo mundo tocar à vontade. Mas, uma coisa que sempre existiu e sempre vai existir, são as “panelinhas”, sabe como é né? Então imagina, tem que ser guerreiro pra conseguir manter uma banda por 10 anos no meio dessa selva que a gente vive.

As bandas de Garage geralmente são avessas a aparecer muito. E recentemente Os Haxixins apareceram em vinhetas na MTV. Como o FuzzFaces tem feito para aproveitar os recursos disponíveis e divulgar o som da banda?

Gregor — Não temos feito muita coisa, a verdade é essa. Cada um tem seu corre e às vezes fica difícil. Além do mais, são dez anos tocando, não dá pra ficar aparecendo muito. Acho o Myspace uma boa, pode crer. Todos podem acessar e ver e ouvir.

Wagner Tal — A gente já apareceu em vários programas que existiram na MTV: Banda Antes, Jornal da MTV, Gordo Freak Show. Acho que hoje em dia, a gente já não faz mais tanta questão. A gente está se concentrando muito mais no som da banda, e o feedback que a gente procura vem de pessoas de outros países, de gente que reconhece o que nós fazemos, gente que curte a mesma coisa. Não tem nada melhor do que você ser elogiado por alguma banda que você curte faz tempo, como os Fuzztones, que nos convidaram pra participar de uma coletânia em tributo a eles. Fora isso, acho que tudo é válido em termos de divulgação.

Sir Uly — Se pudéssemos tocaríamos em todo veículo de comunicação, o lance é expandir o som cada vez mais, a maior satisfação é você ser elogiado pelo trampo seu. E hoje em dia graças a internet a gente consegue atingir outros países bem mais rápido.

Uly entrou por último na banda, no que ele acrescentou?

Gregor — Acrescentou uma ficha policial extensa! (risos)

Sir Uly — Um peso chamado Diatron.

A banda pretende aproveitar os festivais independentes para rodar o país ou prefere produzir os próprios shows e turnês?

Gregor — Se a condição for boa, a gente toca. Mas não dá mais pra ficar se aventurando e dormindo no Hotel Príncipe. É foda. O máximo que a gente produz é música e dor de cabeça.

Wagner Tal — Eu acho que a prioridade agora é gravar novos sons e divulgar mais a banda lá fora. Mas a gente sempre curtiu festivais, é uma excelente forma de expor o seu trabalho e fazer novas amizades.

Falando em turnê, como foi a tour pela Argentina? Como é o público e bandas locais?

Gregor — A viagem pela Argentina, em Buenos Aires, foi legal. Conhecemos pessoas muito bacanas por lá, como o Pirrulo, Elio, Flavio e muitos outros. Melhor ainda é que a cerveja é de litro, boa e barata! O público é bom, senti que, pelo menos nos lugares que tocamos, não tem um DJ superstar, como nas baladas de São Paulo. O público sai pra ver a banda e pira no show. Vimos bandas ótimas de lá, como Colmillos e Motorama.

Wagner Tal — Foi ótima, fomos muito bem tratados todo o tempo em que estivemos por lá. Bebemos muito cerveja boa e barata, comemos muito bem, vimos ótimas bandas. O público é o melhor, fomos muito bem recebidos principalmente em Burzaco, uma espécie de subúrbio argentino. Nos trataram como reis. De fora conhecemos o Mama Rosin (Suiça) e o Black Magic Six(Finlândia). E gostaria de ter visto o show dos Tormentos e Los Peyotes, que também são de lá.

Sir Uly — Porra, ter passado uns dias lá com o Pirrulo foi bem louco. E o melhor foi no Tio Bizzaro, um clube em Burzaco, alí não é por nada não, a cidade não é mais a mesma depois da passagem do FUZZFACES por lá.

Foto: Davilym Dourado

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