Há quase vinte anos, o duo Les Incompris veio, confundiu— e desapareceu

Alexis Peixoto
Feb 16 · 4 min read

Misteriosos, só lançaram um compacto de quatro faixas que é uma deliciosa esquisitice garageira, pura fuleiragem levada a sério.

O único compacto do duo Les Incompris, lançado em 2000 pela Monstro Discos / Migué Records vinha com um postal para cada uma das quatro faixas do disco

Abro este texto já arregaçando minha ignorância: não sei absolutamente nada sobre o conjunto Les Incompris além do que está escrito na contracapa do compacto lançado pelos selos Monstro Discos e Migué Records, no ano 2000 de Nosso Senhor Satanás. Sei vagamente que vieram lá dos lados do Sul, parece que de Curitiba. Bem que poderia ter ido investigar as origens do grupo nas criptas da internet, pesquisar influências, procurar conexões, tentar ouvir os integrantes e/ou sobreviventes. Mas me recuso. Ceder a detalhes biográficos só vai contribuir pra dissipar a feitiçaria dessa insólita bolachinha.

Les Incompris, o compacto, tem 4 faixas — uma em inglês, outra em português, outra em espanhol e mais uma em um idioma que não consigo identificar — e corresponde ao número 021 no catálogo discográfico da Monstro. Se minha memória ainda presta pra algo, lembro que o texto que apresentava a banda no site do selo tentava descrever o som como “Kinks com Black Sabbath”.

Faz sentido, mas digamos que essa é só a parte visível do iceberg. Creditado a dois meliantes que assinam em francês como Quatre Vingt Dix (guitares, obscenités) e Le Chambre (batterie,dépravations), o compacto ainda soa como um atrevimento quase vinte anos depois, uma descarga criativa irresponsável e totalmente contra a corrente do cenário alternativo que já naquela época — e ainda hoje — lutava para ser levado a sério e se profissionalizar.

Pegue, por exemplo, a sensacional “En… anglais”: a letra é uma única frase aleatória em inglês (“the way you are”) repetida à exaustão. sobre uma progressão de acordes roubada entre os dedos de Ray Davies e tocada com a sutileza de dois moleques ensaiando em um estúdio de 20 contos a hora, em pleno porre de cana com Fanta Citrus. Há um momento logo no começo da faixa em que guitarra e voz avançam, mas a bateria atrasa. Provavelmente sequela da falta de ensaio ou de um primeiro take apressado. Mas ficou no disco. E longe de estragar o som, só ressalta o amadorismo levado à sério da dupla.

É curioso que o compacto tenha sido listado no Discogs como “stoner rock”, provavelmente pela associação com a Monstro, que lançou diversas bandas do estilo ao longo dos anos 00’s. Les Incompris não é stoner nem é revival da Jovem Guarda, para mencionar outra tendência nefasta do indie BR de então. O que não quer dizer que o disco não aproveite a chance de tirar onda com esses estilos em “Satanicum Pandemonium” e “Pele Doce”, respectivamente. Mas mesmo sendo tão pouco (somadas, as quatro faixas não dão nem vinte minutos), o disquinho ainda tem mais frescor do que a obra completa de boa parte das bandas que investiram nesses estilos na mesma época.

Ainda é divertido ouvir os Les Incompris exatamente porque o duo não se amarra à uma única sonoridade, corte de cabelo ou fatia demográfica pra poder existir. São o que são, esquisitos como são. E se mais alguém curtir, é lucro.

Depois do lançamento do compacto, os Les Incompris praticamente sumiram do mapa e não lançaram mais nada — que se tenha notícia, pelo menos. A exceção é uma participação ligeira em Para Um Destruidor de Corações, disco tributo aos gaúchos da Emílio & Mauro, lançado pelo Senhor F em 2007. No disco, eles participam com a faixa “Limão do Futuro” e, embora não conheça a versão original, dá pra dizer que a sonoridade é bem diferente do compacto, ainda que conserve o mesmo bom tom de fuleiragem com personalidade.

Pois bem, sete anos e nenhum pio além de uma participação discreta em um disco tributo que pouca gente fora do Sul ouviu. É pouco, certo? A conclusão mais óbvia é que o duo existiu mais como uma ideia do que um projeto com pretensões de carreira longa. Isso pode explicar o silêncio e a ausência dos estúdios, mas não dá conta de desvendar o mistério fundamental: que se passava na cabeça desses depravados incompreendidos?

A melhor resposta é não tentar explicar nem compreender nada. Sou mais curtir a confusão.

E AÍ, ONDE OUÇO ESSA PEPITA?

Infelizmente, não achei em canto nenhum dessa internet véia doida um link sequer para baixar ou ouvir o compacto dos Les Incompris. Caso alguma alma bucaneira que possua o disco e os equipamentos certos esteja a ler estas mal digitadas, fica aí o apelo pra ripar o vinilzinho e espalhar esse som pela rede. (É sério, se alguém conseguir e socializar esse link, avisa aí que a gente atualiza o post).

Quem curte som a vera pode comprar o compacto original pelo site do Selo 180 por 45 contos, completo com os quatro postais que vêm encartados no disco. Se tiver grana, vá na fé porque tá no preço.

O Inimigo

O som que o outro lado faz.

Alexis Peixoto

Written by

Jornalista, tradutor.

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