O Inimigo
O Inimigo
Jul 15 · 4 min read

Por Hugo Morais

Publicado em 15/06/2015

Trinta anos depois, Legião Urbana continua atual e ainda é um belo marco de estreia para uma banda. Prova disso é que abriu as portas para a Legião seguir produzindo até a morte de Renato Russo, mantendo as vendas sempre em alta. Com oito álbuns de estúdio, discos ao vivo e coletâneas, foram mais de 20 milhões de discos vendidos, formando um séquito fiel de seguidores, só comparado aos fãs dos Los Hermanos.

O álbum homônimo, lançado em 2 de janeiro de 1985, chegou no rastro da antiga banda de Renato Russo, o Aborto Elétrico. Sendo assim, ainda é possível ver os resquícios do punk que o trio fazia e que ainda seria visto mais adiante. Em menos de três anos desde a estreia em palcos, a Legião Urbana lançou seu primeiro disco mesclando o punk com um rock mais pop, com direito a toques eletrônicos e até um reggae. O único em toda a carreira da banda. As letras misturavam temas políticos e amorosos.

O disco como um todo não é positivo, e nem poderia, já que o país curtia o fim da ditadura militar com muitas ressalvas quanto as liberdades individuais e coletivas. Do começo ao fim mensagens políticas, nem sempre claras, estão nas letras das músicas. O que dá um tom mais sensível ao disco são as temáticas de amor, mas que também não são lá muito positivas. Algo que marcaria toda a discografia da banda baseada nas experiências do próprio Renato Russo.

Numa época em que se pensava o disco como um todo, e o vinil era a mídia, ao lado A era reservado as melhores canções, as mais radiofônicas. Já o lado B ficava com as músicas que possivelmente não fariam tanto sucesso. Dessa forma “Será” abre o disco da melhor forma possível. Uma música que no seu íntimo tem uma pegada punk, mas que na verdade é pop . Quantas festas em universidades com bandas iniciantes você foi e as viu executando a música? Três acordes pop e letra romântica. Nada melhor e mais fácil.

O disco pode ser dividido em dois blocos. Um de contestação sobre a vida como um todo, sobre lutas. E outro sobre dúvidas sobre a juventude e tudo que ela engloba, principalmente relacionamentos e seus desdobramentos. Sendo assim se alinham “Será”, “Geração Coca-Cola”, “O reggae”, “Baader-Meinhof blues” e “Soldados”. Por outro lado, o do amor e relacionamentos, estão “A dança”, “Petróleo do futuro”, “Ainda é cedo”, “Perdidos no espaço” e “Teorema”. “Por enquanto”, um sucesso improvável, fecha a tampa do descontentamento, das dúvidas, de uma forma geral.

As músicas políticas falam de lutas, pessoais e coletivas, de revolução. Muito típico duma época ainda de perseguição, que chegava ao fim, mas que deixaria resquícios eternos. Exemplo disso é a política, que já era tratada na época como algo ultrapassado e que não resolvia os problemas, ao contrário da força do povo. O que se vê hoje é que a luta continua, que o povo ainda tem força, mas que não está levando a nada. Muito pelo contrário, a divisão da sociedade em dois lados que se odeiam e muitas vezes pregam a violência como forma de resolver problemas inerentes a toda a sociedade. “Geração Coca-Cola” fala em aprender as manhas do jogo sujo, depois de estar 20 anos na escola. O que se vê hoje é exatamente o oposto. Mesmo passando tantos anos na escola, universidade e sabendo como foi o passado do país, as pessoas ainda são alienadas e pedem a volta de uma época obscura da nossa história. Se fosse feita hoje o título poderia ser “Geração Facebook”. Onde todos são revolucionários, políticos e entendedores de assuntos em geral. “O reggae”, de sonoridade idem ao título, e única em toda a carreira da banda, fala da repressão que começa logo cedo, na escola. “Baader-Meinhof blues”, a mais rock de todo o disco, fala da fascinação que a violência exerce sobre o ser humano e ineficiência da política. “Soldados” é auto-explicativa, ao ponto da sonoridade ser de uma marcha militar.

Do lado romântico, juvenil, “A dança” mostra os erros cometidos geração após geração, coisa típica dos jovens, mas que se não se tomar o devido cuidado, pode refletir por toda a vida. “Ainda é cedo” é uma das músicas mais importantes da carreira da banda. Sempre executada nos shows. Com tom de tristeza e arrependimento, a música não poderia ser positiva, sendo assim, a letra feita para uma amiga é carregada na forma de um baixo pesado. “Petróleo do futuro” e “Perdidos no espaço” se completam quando se trata das dúvidas de até onde vai um relacionamento, do comprometimento da relação em detrimento da individualidade e até da diversão inocente que é característica da época. Já “Teorema” é o oposto de ambas. Mostrando o quão bom é estar junto, quando um completa o outro. As três mostram a dualidade das relações. Os momentos de introspecção, e solidão, e de necessidade de ter o outro.

Terminando tudo, “Por enquanto” mostra o que as vezes é o único caminho: dar meia volta e rumar ao caminho seguro que sempre é a nossa casa. Quando as lutas individuais ou coletivas, políticas ou amorosas dão errado, sempre há o porto seguro do lar, dos familiares, dos amigos.

O aniversário de 30 anos do disco veio junto com a morte de Renato Rocha, responsável pelo baixo nos três primeiros discos da banda e possivelmente o mais roqueiro dos quatro integrantes. Coincidência ou não, Legião Urbana, Dois e Que País é Este? são os álbuns da Legião com sonoridade mais pesada, pegada e questionadora. Restam Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá para manter viva a chama de uma banda que se fosse ativa, ainda deveria estar arrastando multidões pelo Brasil afora e produzindo discos relevantes, algo que não é visto em seus parceiros dos anos 80.

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