Listão 2019: Os melhores discos nacionais do ano segundo Hugo Morais

O Inimigo
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Dec 14, 2019 · 12 min read

A segunda leva de discos fica a cargo de Hugo Morais, editor d’O Inimigo, que curte mesmo as produções nacionais.

O listão é nacional, já que é basicamente o que ouço. Algumas bandas internacionais embalaram o ano também, mas em relação as nacionais, foram pouquíssimas. E a produção nacional está de parabéns, foram dezenas de discos bons, reduzidos aos que realmente rodaram muito no player. Esse é o termômetro/método de seleção. Vários devem sair em outras listas, como em todos os anos, mas algumas devem ser pontuais até pela pouca divulgação. E falando em divulgação, todos os discos aqui expostos também podem ser encontrados no Hominis Canidae — fonte de buscas constantes — do chapa Diego Albuquerque que no momento degusta músicas do Norte in loco.

Abra uma gela, separe um prato de acepipes e boa viagem.

Alessandra LeãoMacumbas e Catimbós

(Spotify / Youtube)

Alessandra Leão tem uma carreira prolífica e dedicada ao batuque. Macumbas e Catimbós atinge o ponto máximo, com dedicação ao Candomblé. Exu, Ogum, Iemanjá, Oxum, Xangô, Oxóssi, Oxalá, Malunguinho. Todos estão presentes no disco que é uma celebração, uma oferenda para quem Alessandra segue, ouve, pede conselhos. Levar a um disco os pontos (cantos) não é fácil, pois é basicamente uma cerimônia religiosa. A percussão tocada por Alessandra, Abuhl Jr e Maurício Badé dá forma a tudo junto com a voz e as letras. Um disco que foge do convencional e não se sente falta de outros instrumentos em sua concepção.

Baiana SystemO Futuro Não Demora

(Spotify / Youtube)

Desde os tempos de Dodô e Osmar e da criação da guitarra baiana na década de 40, passando por Novos Baianos, a axé dos anos 80/90 e chegando aos dias atuais, a música baiana vive de se reinventar. O Futuro Não Demora é uma junção pop arredondada de tudo isso já citado antes. Tudo fruto de estudos, parcerias e identidade visual. O disco conta com 13 músicas e todas são possíveis hits. Claro que umas mais que outras e sendo assim, destaque para “Sulamericano”, com participação de Mano Chao, e “Navio”. Ambas com pegadas pesadas percussivas. O disco conta com parcerias de novos nomes como Edgar e Vandal, e já conhecidos e consagrados como Antônio Carlos & Jocafi e Edy Star.

GraxaE os camarões boiavam sob a superfície da sopa

(Spotify / Youtube)

Mister Graxa chegou ao sexto disco em boa forma, mantendo sua característica de rir da cara e na cara da vida. As vezes não é uma boa opção, mas se tá no inferno se abraça com o capeta. A indignação com a situação no país, com as pessoas que nos governam, atinge níveis máximos já na abertura do disco com “Hora da Janta”, mas agora está mais perceptível. Canta Graxa: “a gente sempre foi a janta”. Tem música autobiográfica e a bem humorada “3000 kg de bolacha”. Já a hipnótica “As Possibilidades” vai para o lado pessimista. E “Só Por Mim” encerra o disco de forma melancólica que pode remeter a vida de Angelo ou não, já que, segundo ele, foi inspirada no livro “Cartas a um Jovem Poeta”, de Rilke.

George BelascoOs cães Veem Coisas

(Spotify / Bandcamp)

Depois de 4 EPs e uma parada de dez anos (!) a banda voltou e com disco. As músicas espalhadas pelos EPs ganharam nova vida e a veia pop com pegada de punk, pós-punk, new wave e eletrônica ganhou força. Apesar do tom dançante, o disco mostra uma inquietação com os dias passados, os presentes e os vindouros. Pessimismo também. Ninguém é de ferro. O disco abre com “Numismata”, já mostrando esse pessimismo, e encerra com “Os Cães Veem Coisas” em homenagem ao escritor Moreira Campos com uma música eletrônica melancólica. E no meio de tudo tem a excelente “Casualidad”, em francês, que bota pra dançar já nos primeiros segundos.

HoroyaPan Bras’Afree’Ke Vol. 2

(Spotify)

Brasil, Guiné, Mali, Senegal, Burkina Fasso são os países do integrantes da Höröyá. Uma banda polirrítmica. Os nove integrantes misturam influências africanas e brasileiras fazendo um som único, instrumental. Pan Bras’Afree’Ke Vol. 2 é a continuação do volume 1 que preza pelos mesmos princípios. Uma aula de integração e criação multicultural.

Jair NavesRente

(Spotify / Youtube)

Vendo tudo de fora (Jair mora nos EUA) em uma perspectiva diferente, o músico lançou seu terceiro disco e segue com suas letras afiadas sobre o cotidiano que vai das relações humanas até a política, que obviamente é feito de relações humanas e por aqui não anda bem faz tempo. Muito bem expresso no trecho “Qualquer busca por empatia, a essa altura, é ingenuidade, eu me defendo esperando o pior”. Em meio a esse turbilhão há espaço para o romantismo e até para uma mea culpa com tentativa de melhorar. A famosa autocrítica que tanto pregam por aí, em “Gira”. “O.H.R.E.U.C.S.” (O homem reprimido é um câncer social) é autoexplicativa. Basta olhar os milhões que resolveram se mostrar. “Sonhos Se Formam Sem o meu Consentimento” encerra o disco com um lampejo de esperança.

NaufrágioTrocação Franca

(Spotify / Bandcamp)

O que dizer de um disco que abre com “tem dia que eu acordo e só quero dar o cu”?. Pois bem, aliado a isso a banda aposta em poucos acordes e uma produção desleixada. Lembra a Lupe de Lupe do começo de carreira. Verdades diárias como violência, tédio, relacionamentos e tudo isso chamado de trocação franca porque é assim que a vida funciona. A gente leva um e dá de volta. Nem sempre na mesma intensidade. Mas amanhã é outro dia. Destaque para a dançante ligeira, com cara de fuga, “Atire no Pianista”.

NumbombContra todo o otimismo civilizatório

(Bandcamp / Youtube)

Os sons pesados não são preferência, mas sempre uma coisa ou outra pontual chama a atenção. A Numbomb conseguiu. A banda demonstra toda a insatisfação com o capitalismo e suas mazelas através de um som rápido que passeia por vários estilos, ficando marcado pelo powerviolence. Bruno Guerreiro e João Amorim, guitarra e bateria respectivamente, abordam nas letras, de forma geral, o descontentamento com o que o capitalismo e suas extensões provocam na população: doenças, vícios, hipocrisia de todas as maneiras.

Casas Populares da BR 232Negraíndia

(Spotify / Youtube)

Incrível descobrir uma banda tão boa e que depois de 15 anos é que veio gravar seu primeiro disco. Um álbum que contou com presença de Maciel Salú e Isaar. Figuras ímpares na cultura pernambucana. O disco é uma viagem pela ancestralidade oral e passeia por Ciranda, Coco, Cumbia, Afoxé e Samba. Tudo numa pegada que mistura o tradicional e o pop. Destaque para a poderosa “Afoxé para Olinda e Conquém”.

Mc ThaRito de Passá

(Spotify / Youtube)

Mc Tha teve uma ascensão meteórica em 2019. Do anonimato, com um disco gravado faltando dinheiro para o deslocamento de casa para o estúdio, para os festivais nacionais Brasil afora. Rito de Passá vai da Umbanda ao amor diário, com doses generosas de sensualidade. Mas também tem a superação, a volta por cima que Tha conseguiu. “Avisa Lá” é a mostra perfeita disso: “desce uma gelada, todo dia é bom comemorar, o sol nasceu ao leste e o Leste também é o meu lugar, sou subproduto, vim do lixo pra beijar o luxo”. A dobradinha de abertura “Abram os Caminhos” e “Rito de Passá” mostra por onde Thais passou e “Avisa Lá” e “Comigo Ninguém Pode” que fecham o disco mostram onde ela chegou e quem se tornou com altas doses de Funk dos fluxos paulistas.

Nomade OrquestraVox Populi, Vol. 1

(Spotify / Youtube)

A Nomade Orquestra lançou dois discos em 2019! Mas como a banda é instrumental e resolveu sair desse formato, ficamos com o Vox Populi, Vol. 1 pela participação de quatro nomes grandes da música nacional nas letras e vocais: Edgar, Russo Passapusso, Juçara Marçal e Siba. Uma banda que prima pelo que há de melhor do som dançante que une o afrobeat a influências brasileiras. O disco é heterogêneo exatamente pela característica de cada um. Russo e Edgar com seu lirismo urbano, Juçara com a influência africana nas composições e Siba pela poesia que mistura rural e urbano. Do começo ao fim o disco mantém a pegada dançante e que em alguns momentos fica mais cadenciado pela característica das letras, como em “Ocidentes Acontecem” e “Poeta Penso”.

Banda de Pífanos Caju Pinga FogoRosa dos Ventos

(Spotify / Youtube)

Direto do Piauí, com produção de Zé da Flauta — flautista, pifanista e compositor recifense — o quinteto preza pelo tradicional com letras que falam do cotidiano lembrando personagens e situações, como festas de forró. Destaque para “Saga do Cabôco rumo ao Vento”, que abre o disco com cara de trilha de filme com temática sertaneja, a instrumental “Marcha das Formigas” e para a ciranda “A Barca Velha” contando o corriqueiro rito de travessia dos rios em barcas que servem para transporte público, cortejos religiosos e transporte de cargas. A vida do ribeirinho depende desse veículo.

Karina Buhr Desmanche

(Spotify / Youtube)

Guitarra e baixo fazem cena com a percussão que é a cara de Desmanche, a protagonista. A percussão, sempre a frente e não como coadjuvante, cria o clima necessário a cada música. Maurício Badé, Regis Damasceno e Bernardo Pacheco são os parceiros musicais que fazem o excelente disco uma experiência musical pelos três álbuns anteriores da artista. Rap, Rock, música latina, música dançante que remete as pistas de dança… Cabe tudo na cabeça e nas mãos de Karina. Da cabeça as letras que brotaram mostram indignação, questionamentos, afirmações e as vezes divagações sobre a vida. O lirismo anda de mãos dadas com as temáticas diretas que indicam que o desmanche não é pontual, mas uma tática, uma política institucionalizada. E não tem hora pra acabar.

Satanique Samba Trio Mais Bad

(Bandcamp)

O trio que é o quinteto mais feio do Brasil segue assombrando os ouvidos desavisados. Mais Bad dá sequência a Mó Bad, de 2015. Ambos com todas as músicas grafadas como Badtriptronics seguidas de um número. São dez temas que passeiam por diversas influências sonoras brasileiras. Excelente pra tocar na ceia de Natal se tiver racha na família por causa de política. A primeira audição sempre é difícil se você não é um iniciado nos trabalhos do grupo. Se é, tudo certo, você já ouviu coisa pior.

Elza SoaresPlaneta Fome

(Spotify / Youtube)

Já pela capa, obra da genial Laerte, Planeta Fome é uma obra prima. “Libertação” abre o disco com o recado “Eu não vou sucumbir”. Temas como violência, sexo, a modernidade da vida e relações, o descaso do poder público com a população — principalmente as minorias — são temas que alimentam as canções e contam com a voz e interpretação de Elza para tornar tudo único. Detalhe para “Menino” que em apenas 46 segundos é capaz de destruir qualquer pessoa mais sensível.

DEFSobre os Prédio que Derrubei Tentando Salvar o Dia (Parte 2)

(Spotify / Bandcamp)

Sobre os Prédio que Derrubei Tentando Salvar o Dia (Parte 2) complementa o EP Sobre os Prédios Que Derrubei Tentando Salvar o Dia (Parte 1) que com quatro músicas apresentou a DEF. O indie da banda contagiou desde a primeira audição conduzindo a várias outras na sequência para perceber todo o intricado jogo de guitarras de Deborah e Eduarda. O som tem como ponto alto a suavidade da voz de Deborah F. As agruras do dia a dia ganham força, intensidade ou introspecção e tornam a bateria de Dennis Santos versátil e inquieta. De cara fez lembrar a Superguidis, mas ponho a DEF acima dos gaúchos. Ouça a delicada “Descanso” e em seguida “”Nada” para sentir a mudança de permeia o disco.

Coco de Dona ZefinhaApanhadeira de Café

(Spotify / Youtube)

Nascido em Cajazeiras (PB) o Coco de Dona Zefinha pode ser chamado de projeto e não de banda, já que os músicos na verdade não atendem por essa alcunha. O grupo tem como linha condutora o samba de coco, mas outras influências são facilmente percebidas. Contos como o de Zé, um tremendo mentiroso, do pai que não gosta do genro e até homenagem a Zabé da Loca embalam as cantorias e batuques.

Soledad Revoada

(Spotify / Youtube)

Soledad, também atriz, se lançou cantora em 2017 com um disco homônimo. Dois anos depois, Revoada chega como uma continuação. A parceria com Fernando Catatau segue e é facilmente percebida nos arranjos espaçosos e delicados — cheios de influências variadas costuradas — que complementam a bela voz de Soledad que mais que cantar, dá vida às músicas. E esse é o trunfo de seu trabalho: passar uma verdade única presente em cada canção com letras criadas por gente como Alessandra Leão e Xico Sá, Giovani Cidreira e Alzira Espíndola. Um disco introspectivo, para ser curtido sem pressa, a observar cada detalhe que cresce a cada audição. O disco conta com versões para “Pássaros, Mulheres e Peixes” e “Bons Amigos”. De Alessandra Leão e Xico Sá e Junio Barreto, Otto e Bactéria, respectivamente. O ponto alto do disco fica por conta de “Céu”, belíssimo exemplar de delicadeza íntima das relações.

Lucas SanttanaO Céu é Velho Há Muito Tempo

(Spotify / Youtube)

Lucas tem a capacidade de não fazer um disco mais ou menos, todos são ótimos. E tem também a capacidade de transitar entre o discurso político e o romantismo com a mesma qualidade. Exemplo disso são “Brasil Patriota” e “Meu Primeiro Amor” com participações de Jaloo e Duda Beat, respectivamente. A pegada em O Céu é Velho Há Muito Tempo é a do violão, como em Sem Nostalgia. No atual álbum as dez músicas fazem um apanhado da destruição política, cultural e social que o Brasil passa e mostra uma ponta de esperança, presente no círculo de amizades principalmente.

Born To FreedomTime To Change

(Spotify / Bandcamp)

Além da mudança de formação o novo disco da Born To Freedom trouxe a novidade de parte das letras serem em português, aproximando mais ainda os fãs que de cara já compreendem tudo. O hardcore melódico segue a toda com momentos rápidos e urgentes e outros mais cadenciados. Um disco recheado de luta sozinhas ou coletivas, internas ou não. Duas músicas chamam a atenção. “Algoritmo” que é autoexplicativa, todo mundo já leu ou ouviu a palavra e sabe que a cada dia estamos mais condicionados a mais do mesmo. Se antes isso já existia por escolhas, agora a mídia impõe de várias maneiras. E “Reciclaram Nossos Sonhos Para vender” que fecha o disco com a triste realidade do fracasso jogado a nós mesmos muitas vezes por gente que não faz absolutamente nada para mudar o cenário.

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