
Por Pedro Lucas
Em seus Sunday Services, a confluência entre vozes e tambores são os principais expedientes de transe acionados por Kanye West. Transformando em cânticos gospel clássicos do soul e funk, e também dando novo significado a suas próprias músicas (vide a caracterização apoteótica de “Utralight Beam” e “Jesus Walks”), os tambores atravessam o ritual como uma sibila entre os sons do céu e os sons da terra (a função do tambor nos ritos africanos é a de conduzir e marcar o envolvimento espiritual dos participantes). Mas em Jesus is King, o primeiro fruto gravado da fase CRENTE de Mr. West, o compasso que leva à transcendência é menos do tambor e mais do Verbo: as vozes assumem o centro, criando uma polifonia dirigida pela voz de Kanye, que na maioria das vezes mais prega e reflete do que realmente canta.
Kanye assume aqui a figura do pregador como organizador do comum, aquele que reserva ao povo de sua aldeia a fé como saída última, aquela que pode servir de mote para alcançar uma liberdade total. Também para fortificar e criar conjuras, como a da fiel que, diante de massacre da Klu Klux Klan iminente, rogou frases caras a Kanye West: “Father, I stretch my hand to Thee, no other help I know. If Thou withdraw Thyself from me, where shall I go?”, e com esse pedido afastou os agrimensores. O poder da voz diante do absoluto. A Palavra que conduz à redenção.
Os tambores ainda aparecem de forma reveladora, principalmente em “Selah”, quando anunciam os “hallelujahs” que sobem em meio a vozes que rogam como em êxtase ao fundo. O coral do Sunday Service aqui compartilha seu momento mais presente no disco. Mas a preeminência da voz como condutora da Palavra, que põe no mundo a coisa e recupera tanto a máxima bíblica que diz “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” quanto um princípio lógico wittgensteineano que diz “O mundo é tudo que é o caso”; ambas pregam que o mundo é composto pela Palavra e/ou a linguagem.
Kanye West parece concordar com este princípio de totalidade quando recorre ao culto cristão para buscar um sentido último de sua música na religião e no rito. A centralidade na voz permite uma maior clareza quando West se expõe e demonstra sua busca pelo cristianismo, como em “Hands On” (para citar uma faixa conduzida por vozes acumuladas em autotunes e outros filtros), onde reflete sobre sua busca pelo cristianismo, com alguma ironia acerca dos direitos civis americanos: “Thirteenth Amendment, three strikes / Made a left when I should’ve made a right / Told God last time on life /Told the devil that I’m going on a strike”.
A aproximação de Kanye com o cristianismo é lida como uma decorrência natural de seu próprio processo de descobrimento, de sua identidade messiânica e por uma obsessão crescente com as figuras cristãs que vem desde College Dropout. Ok. Mas a obsessão maior de Kanye é sempre consigo mesmo, e colocar o título de um disco de Yeezus e dar a um tênis o nome de Yeezy e a si mesmo a outorga de Yeezus, um Jesus das frequências de rádio, não é por acaso, não é apenas uma provocação — é bem provável que Ye se veja como um pastor de homens, aquele que conduz à verdade e à fé. A música em seu poder congregador só poderia tornar ainda mais possível seu êxtase por meio dos transes e efeitos de transcendência.
Mas o meio que Kanye toma para acionar seus expedientes de transe estão antes de tudo na voz, na condução da Palavra. Walter Benjamin, ao refletir sobre o poder do tradutor, de passar o que uma língua quer dizer mas com a falha natural de só poder transmitir o “como dizer” de uma língua em específico, dizia que o denominador comum de todas as línguas, que fariam parecer que está se falando sobre o mesmo objeto, é a língua de Deus do Antigo Testamento. A “língua verdadeira”, não só para Benjamin, mas também para Heidegger ou Witggenstein, é a língua de Deus, que não falharia justamente por falar aos homens aquilo que É. A propósito Kanye West gasta bons minutos falando o que Deus É em sua “God Is”.
Por vezes repetitivo e deveras exagerado, Jesus is King parece ser um excerto da quantidade de experimentos com sua persona cristã que Kanye West deverá ir trabalhando até dar na telha. Em muito parecido com a fase Racional de Tim Maia ou a fase Tábua de Esmeralda de Jorge Ben, pode ser um momento de profunda meditação de Kanye que logo pode coincidir com sua identidade tão entronizada. Logo o conflito Jesus x Yeezus será revelador.

