Rakta segue mudando em direção ao abstrato

Para muitos o caos é sinônimo de paz

Arte por André Penteado, Karlla Girotto & Rakta

Por Hugo Morais

Cinco anos atrás foi quando descobri o quarteto feminino Rakta. Depois virou trio, ainda só com mulheres, e hoje seguem da formação original Carla Boregas e Paula Rebellato. A bateria, que era a cargo de Nathália Viccari, passou as mãos de Douglas, da Deaf Kids, em alguns shows e hoje está com M. Takara. Naquela época a guitarra ainda tinha relevância e a saída de Laura me fez pensar no fim prematuro da banda. Eis que elas seguiram e seguem se reinventando.

Assim como a já citada Deaf Kids, o som do trio Rakta é difícil de rotular. Nesse mundo em que tudo é rotulado, seria pós-punk? Pode ser. Experimental? Também. Mas é mais fácil ouvir e tirar as próprias conclusões. Ou até melhor, veja o show. Observe tudo. A interação entre os integrantes, a passagem entre as músicas, os pormenores.

Eis que em 2016 a banda passou por Recife, no Coquetel Molotov, e a Catamaram Discos puxou pra Natal. Rendeu um show no DoSol (Evan e Hana compenetrados e eu rindo como uma criança que ganha um brinquedo que desejava, na foto acima), no chão, e outro na ocupação da Reitoria da UFRN, em um domingo. Três shows em uma semana. Nunca iria imaginar que veria a banda por aqui e ainda mais três shows em sete dias. Elas precisam voltar.

Falha Comum, o terceiro álbum lançado, mantém a pegada dos discos anteriores. Mas segue por um caminho mais abstrato ainda. Por mais que cada música tenha uma linha condutora, a sonoridade parece em aberto, como um experimento. Melhor exemplo disso no álbum é “Fim do Mundo” que começa com uma voz dizendo que teve um sonho como se fosse o fim do mundo. A música dançante me lembrou a festa no filme Matrix, todos dançando como se não houvesse amanhã.

A terceira música que o título são dois ideogramas (?) é a que destoa das demais pelo uso do teclado que deixa a música com uma pegada jazzística. “Estrela do Amanhã” parece trilha de Blade Runner ou algum filme futurista. A toada segue em “Miragem” com um clima tenso, de agonia, quase uma perseguição. “Ruína” encerra o disco como música mais curta. Os pouco mais de três minutos ainda mantém um clima tenso, com uma bateria em looping frenético, mostrando que do começo ao fim do disco, parece que o recado é que a finitude está próxima.

Clima é a palavra que marca Falha Comum. As ambientações podem chegar para cada ouvinte de forma diferente, eis o abstrato. Sem letras e com as experiências sonoras o que fica do disco todo é um sentimento de agonia, de tensão, a necessidade de fuga. E para muitos esse sentimento de caos pode se tornar paz. Por mais que não tenha grandes mudanças em relação aos discos anteriores e por vezes a sonoridade pareça enfadonha em sua repetição, a cada audição se percebem novos elementos que se complementam formando uma camada sonora densa que leva a uma experiência de energia quando visto a banda ao vivo. E ao vivo ela é bem melhor.