Redondo e com tom pessimista, sexto disco de Graxa evoca dias que parecem sem fim

O Inimigo
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Aug 28 · 10 min read

Por Hugo Morais

Toda vez que Graxa lança um disco, e ele chegou ao sexto (todos os álbuns, mais uns bootlegs podem ser baixados/ouvidos no Hominis Canidae), batemos um papo e esse se desenrola além das linhas sonoras. Afinal, os discos dele são uma extensão do dia a dia e estes não estão fáceis.

Nas outras obras Graxa mantinha um tom as vezes jocoso, piadista, quanto a realidade que vem assolando parte da população brasileira. Não que ele não tenha sido incisivo em várias músicas não só em relação ao todo, mas também em relação a quem está próximo dele. Em E os Camarões Boiavam Sob a Superfície da Sopa, disco mais bem resolvido sonoramente de sua produção, parece que o caldo literalmente desandou.

Graxa sempre deixou transparecer em suas letras, e melodias, um tom pessimista quanto ao cotidiano. O morador do Jiquiá, Recife, passa por um momento de questionamento mais profundo sobre o ter/ser do rock e se ele vale a pena. Trechos como “a gente sempre foi a janta”, “ entre os córneos de deus sob a auréola do diabo” ou “inexplicavelmente a elite fode a vida das pessoas que mal ganham o que comem” mostram que a inquietude atingiu um novo patamar.

O disco teve produção musical de Graxa e co-produção de Gilvandro Gil e Adriano Leão. Bateria por Gilvandro Gil. Guitarra, baixo, viola e voz na Despensa por Graxa. Mixagem e masterização de Adriano Leão na Casa do Kaos (Paraíba).

Confira abaixo o papo.

Vá lá que todo artista que lança um disco faz aquela propaganda. Tu colocaria esse disco em que colocação em comparação com os outros?

Graxa — Porra, pra mim é o mais fodão que tem é esse disco novo.

Eu achei o mais bem resolvido dos 3 sonoramente. Digamos que linear. Você acha isso também? Como foi a produção dele?

A produção teve muitas mudanças. Uma das etapas eu tive vontade de fazer um disco de viola — porque só se tem espaço, muitas vezes por aí, pra tocar viola. Mas aí depois eu quis colocar viola e bateria e baixo. Aí algumas músicas pediam guitarra e foi tomando montante. Esse disco novo o batera (Gilvandro Gil) me pediu encarecidamente que o disco tivesse baterias mesmo. Tenho certeza que ele não suportou o quinto disco que, segundo ele, tinha grandes composições mas foi tratado com muito descaso. Entende? Aí ele pediu pra gravar as baterias do disco da forma correta. Aí ele gravou as bateras, eu regravei o disco todo e Adriano leão, da Casa do Kaos, mixou e masterizou.

Acho que em seguida eu faço um disco voz e viola, ao mesmo tempo eu não sei porque meio que eu sinto que a galera vê como algo que se tornou banal eu gravar discos. De certa maneira eu não posso me importar com subjetividades sobre o que eu acho que o pessoal esteja achando, sendo que a questão é a seguinte: porque eu sinto um grande limbo na música independente. Eu sinto que nada vai dar em lugar algum de maneira alguma. Eu quis fazer esse disco da forma “correta”, diferentemente do Purple que eu quis fazer da forma errada, mas fazer da forma errada custa menos, o que para mim, do fundo do meu coração e peço desculpas pela sinceridade, é melhor pois eu estou afundado em dívidas e tenho minhas obrigações como coroa da família. A única coisa correta que fiz foi ter chamado D Mingus pra mixar.

E aí, pra essa sensação de limbo que me assoma toda vez que lanço novos trabalhos, é melhor a que seja a menos danosa e não a mais prazerosa, saca? Porque a qualidade do disco E os Camarões Boiavam Sob a Superfície da Sopa é muita foda de ouvir, mas o resultado, para mim, no meu ponto de vista, nesse abismo que estamos, é o mesmo que eu gravar um disco com um celular e mixar com minhas próprias mãos e lançar na internet porque ninguém pode fazer nada por mim, porque o pessoal mal consegue fazer…

Tá meio confuso, mas você me perguntando eu posso organizar. Mas aí a produção foi assim e a ideia do disco foi além de fazer mais um disco com grandes composições, foi de fazer um disco em que seria o mais difícil pra galera fingir ignorar. Boa parte dessa atitude, possa até parecer conversa, mas é real, foi em consideração ao meu cumpade e batera Gil que ficou muito puto com a queda de qualidade dos meus discos no sentido de produção. Mas eu ainda gravo no meu quartinho, Hugo. Enquanto a turma investe numa música o que eu não deveria investir num disco. O mundo todo tá fodido.

Quando eu falei em ser mais bem resolvido era a questão do teor musical. A linha das músicas. Por mais que tenha uma viola, é mais rock no total que os outros. E por mais que os discos tenham letras pessimistas, que as vezes soem engraçadas, esse tá mais carregado. Sinal dos tempos, como tu escreveu acima.

É. Esse disco foi um prenuncio do mal total. A ideia do disco, que foi se montando era a de que você abre os olhos — da mesma forma que acontece depois de uma super bicada e acorda no sofá — e a vida passou literalmente como um simples piscar de olhos. De que o tempo não é linear e de que a “máquina do tempo” real é a cabeça do cara, saca? Foi um prenuncio do mal, pois rolou de for in-out enquanto eu pensava out-in . Recentemente eu perdi meu pai, saca? De infarto e eu sinto falta dele mais pela imagem que eu tenho dele do que pela relação que estávamos levando realmente. E isso se deu e se dava muito por causa da maior estrela que o Brasil agarrou pra si, que sempre existiu, mas nunca havia visto de uma maneira como essa, de celebridade. A corrupção é a maior celebridade do brasil. Pode apostar que é. E aí foi isso. Mermo meu coroa não tomando uma gela, ele deveria sair e ir prum barzinho tomar um suco e eu ficar bicado e comigo conversar sobre as maiores futilidades do mundo, mas o país matou meu coroa também porque devido a depressão de ver toda a sua história de vida escorrer pela suas mãos ele perdeu o gosto da vida. Tem mais atenuantes, mas esses são alguns pontos de vista.

Quanto a questão de parte da produção estar à margem, as pessoas não terem interesse, você não acha que isso sempre ocorreu? Que existe meio que um círculo vicioso, que aparentemente mesmo com a internet nunca será quebrado e isso passa até por quem produz música/eventos?

Sim, sempre o ocorreu, mas chega um momento em que você tem quer receber realmente pelo seu suor. Porque o ruock de certa maneira pra mim funciona(va) como uma válvula do acordar todo dia, colocar a farda, passar o dia, tirar a graxa do corpo, sentar no sofá e pegar no sono que nem se percebe pra depois acordar de madrugada e esperar tudo se repetir de novo. O meu coroa e todos os outros coroas tem a vida assim, sendo que uns não levam isso tão à sério. Omeu levava muito à sério. E aí quando ele morreu, na verdade ele deixou de morrer. Morrendo estamos todos nós todos os dias. A vida de muita gente é assim por causa de consumo. Consumo é um vício que precisa ser controlado. E aí eu estou me enxugando todo e em tudo, porque da mesma forma que eu quero não cair no mesmo poço cíclico do consumo eu também não quero ser consumido mais.

E o ruock entra nessa onda também. Num sei se é maluquice minha, mas eu acho que estou sendo mais consumido do que estou me divertindo com o ruock. Porque o cara vai chegando aos 34 anos de idade e pá, e as coisas começam a ficar mais diferentes. De certa maneira eu estou pensando mais em virar logo “coroa do ruock”, tipo Rita Lee e tal, que só cuida das plantas e coisas do tipo… Virar coroa do ruock da seguinte maneira: no lugar d’eu gastar horrores para mim, de acordo com a minha realidade, eu prefiro pegar esse valor, dividir em mil vezes e viajar com as minhas meninas pra algum lugar do país durante um grande feriado e sorrir feito um golfinho.

Eu ia te perguntar, mas não sabia se devia, sobre teu pai. Já que você tocou no assunto… Pelo que leio e vejo nas redes, vocês conviviam diariamente no trabalho. Quanto ao lado de sua produção musical e do legado musical que ele deixou pra você, como isso funcionava? Você mostrava as músicas a ele ou ele vivia em um “outro” mundo?

Qual o paralelo que faço disso com a história de vários coroas da velha geração: de que adiantou andar todo certinho nesse país? Não que eu esteja fazendo uma dicotomia, mas que ir além desse bem e mal é a melhor coisa a se fazer. Não vou sustentar heróis nem bandidos. Eu não mostrava não, mas acho que ele pegava no google e catava, saca? Ele sempre vinha com as ideias mais malucas sobre o que eu deveria fazer com o meu ruock. Tipo, gravar alguma músicas de Jesus. Mas acho que no fundo mesmo ele “gostava” por ser filho dele, pois o meu ruock é muito barulhento e ele ouviu nos últimos anos de vida músicas da natureza. Saca? Sons do mar e coisas do tipo.

A gente tava falando em viola, e a música “Só por Mim” ficou muito bonita. Fala de solidão de uma maneira bem direta. Tem ligação com o seu pai?

Rapaz, né isso. Esse disco eu fiz antes disso tudo. Essa música eu fiz inspirado em Cartas a um Jovem Poeta, a primeira carta na verdade. Que eu aconselho todo mundo ler.

Olha que doideira.

Então, mermão. Disco de um prenuncio do mal que era pra ser externo-interno e foi reverso. Abrindo um parênteses: (muito coisa louca contida na vontade da oposição de se mostrar mais humana e intelectualmente superior ao governo em questão que alimenta o poder do governo que está no poder). O governo ataca o ponto fraco da oposição, que é a dita inteligência e o humanismo, sendo que a oposição não ataca o governo no ponto fraco deles que é o oposto, já que, nessa dicotomia, é obvio que a oposição quer ser e é aquilo que a oposição é. Saca? Eu acredito na parada de que os dois se alimentam e que muito dessa galera não quer saber de nada, só em alimentar isso e se manter onde está. Mas aí é isso. No lugar da gente viver, a gente fica debatendo isso defendendo os “vagabundo” reais. Saca?

E muito questionamento e muita falta de ações reais.

As pessoas vem até mim e dizem admirar o meu trabalho. Eu passo um ano seguido — durante seis discos seguidos — ou mais — compondo e fazendo trabalhos musicais e essas mesmas pessoas não compartilham um link, cara. Agora se colocarem um “tijolo” com um balão de fala existencialista milhões de pessoas interagem, bicho. Que porra é essa? Uma vez eu escrevi assim: eu conheço pó de mico, mas pó de mito não. Hugo, mermão, essa porra rodou de uma forma que eu fiquei sem acreditar. Ooutro exemplo foi quando eu coloquei o símbolo da CUT no disco do Pink Floyd, o final CUT. porra, bicho. não dá pra entender. Mas aí onde que entra: o ruock é uma parada obsoleta total. Hoje a galera escuta variações de hip hop e variações de Taylor Swift. Saca? Esse é o novo estilo musical que as pessoas consomem.

Taylor Swift sei da existência, mas nem sei do que se trata. O rap faz tempo que ocupou o lugar do rock como forma de contestação, mas acho que a questão aí tá mais pra uma soma de coisas. Internet/redes sociais/desapego a leitura/cansaço de um formato (no caso o rock). Eu mesmo curto mais quando varia com alguma outra coisa. Mas não deixo de escutar. Nesse sentido já achei esse trabalho, como disse antes, mas retilíneo, até no quesito questionador e apontador. Por mais que em vários momentos o lirismo aponte pra interpretações pessoais.

Mas é isso, num tem nada funcionando nessa porra toda. São só divagações de minha parte, saca? Tem o Kpop também, que também é uma variação do hip hop, sendo que por outro viés pop e tomou conta do mundo. O que falo variações do hip hop é nesse sentido.

Na conversa sobre o disco A Concorrência é Demais, se não me engano, você disse que ele fechava uma trilogia. Purple e esse atual dialogam com a “aleatoriedade” ou tem um ponto de partida e chegada? Um roteiro?

Os dois tem tema. O Purple é sobre dicotomia diretamente falando, mas não musicalmente e sim esteticamente. Um lado experimental e outro de canções. O E os Camarões Boiavam Sob a Superfície da Sopa tem um mote de que o tempo não é linear. Saca? Eu não sei se estou em 1990 e pouco ou se estou em dois mil e tantos do futuro do presente. Não sei se uma apologia a nostalgia, a um passado do futuro ou futuro do passado. A música “Ângelo de Souza” concretiza bem isso, em pouca palavras.

Tu se pega pensando em atitudes que poderia ter tomado e as coisas mudado o rumo? Pra melhor?

Não, não penso assim. A ideia do disco é de que o tempo não é linear. Não tem como se saber disso, saca? Tipo, o quanto de acadêmico preso nas novas normas de política liberais do livre mercado. Não é todo mundo que se dá bem estudando/com educação nesse país.

Uma coisa também sobre esse disco é que tentei fazer com a menos quantidade de acordes possíveis. Porque como o pessoal que toca comigo, tem emprego, trabalha, eles as vezes não tem muito tempo pra estudar os discos. E pelo fato da gente tocar não ser uma coisa cíclica, de tocar constantemente. Então procurei fazer um disco reto. Talvez tenha sido por isso que você tenha achado, dentro de todo o contexto, o mais rock que eu já fiz. Eu confesso que tem uma coisa particular dos campos harmônicos que faço, de composições mais complexas. Então procurei sair disso.

O disco tem um lado mais calmo, mais viola como tu disse, e outro mais guitarra. Isso foi intencional? Como um lado a e lado b? Até as letras também.

Não, não foi não. Eu tenho uma fórmula de escolha de música, de ordem de música que fiz apenas seguir ela. É uma coisa que sempre me lembro, quer dizer, é uma coisa que eu uso, quando eu fico em dúvida em qual música escolher. Ta entendendo? As vezes eu consigo escolher uma seleção de música mais tranquila. Saca? Mas as vezes eu não consigo ou ela não flui tão bem, aí eu pego e faço uma fórmula que eu tenho pra escolher a ordem das músicas. Foi isso.

E essa fórmula é secreta?

É sim. Faço cálculos matemáticos musicais. (risos)

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O som que o outro lado faz.

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