Por Joaquim Dantas

Publicado em 21/01/2015

Hoje é uma quinta-feira, véspera de feriado. Em Natal, chove. Depois de um dia de trabalho de 8 horas assassinas, preso num vórtex de tédio e obrigações, eu me encontro finalmente em casa. Sentado na sala, só de cuecas, enquanto a TV rola no mudo pela milionésima vez O cavaleiro das trevas… Eu sinto que finalmente chegou o momento, o momento propício, para escrever esse texto que já há alguns dias eu tento escrever.

Isso porque não faz muito tempo o Red Boots lançou seu mais novo rebento sonoro: Touch the void. Puta capa do caralho (!), diga-se de passagem — arte de Sabrina Bezerra, que nunca falha. O disco, além de ter um título que parece remeter a um álbum conceitual, uma capa fudida de massa e um single — “Iguana eyes” — que é certamente uma das composições mais legais da banda, ainda é o mais novo lançamento de uma das minhas bandas favoritas do cenário nacional — isso sem mencionar o fato dos caras da banda serem meus amigos. Acho que justamente por isso é que eu quis tanto escrever essa crítica do disco novo — e esse texto provavelmente será uma das críticas mais sinceras, no sentido positivo e negativo, que eles vão receber; porque eu respeito os caras, respeito a banda e respeito o que a banda fez (mas em especial, nesse caso, o que ela poderia ter feito e deixado de fazer).

A ideia começou bem simples. Vou fazer um “naked” do Touch the void, tipo o Let it be… Naked dos Beatles, reordenando as faixas, jogando fora umas músicas que eu considero desnecessárias e sugerindo algumas coisas. Até comecei a pensar no assunto, mas aí a coisa foi ficando mais interessante quando eu comecei a pensar nessa ideia — quase uma teoria — , essa ideia que tem me remoído o cérebro desde o primeiro momento em que eu comecei a pensar sobre ela: e se o Touch the void for o final de uma trilogia?!

Muita gente talvez não saiba, mas antes de lançarem o cultuado e fudidasso Aracnophilia, os Red Boots tinham lançado um EPzinho, o Seven lights, que é pra mim, até hoje, um dos materiais mais interessantes que a banda já lançou. Isso porque ele demorou séculos pra ser pensado e executado. Luan e Gil botaram os miolos pra pifar quando compuseram esse troço… E ele só tem 7 faixas! Foi nesse disco que eles inventaram esse som que os alavancou no cenário local e posteriormente — mas não tão posteriormente assim — no nacional, e que é o som que eles fazem até hoje.

A música “Blood”, por exemplo, que está no Aracno é uma regravação do Seven lights. Eu comecei a pensar na ideia da trilogia assim que eu percebi a camada de influências de músicas e ruídos eletrônicos no Touch. Ora, muita gente deve ter pensado: nossa, Red Boots e música eletrônica (?), que inovação! Mas o que essa galera provavelmente não sabia é que, anos atrás, no bendito epzinho, os neandertais de botinhas vermelhas já flertavam com esse tipo de parafernália e textura sonora.

É uma pena que muita gente vai ficar sem sacar esse material. É mais uma daquelas coisas que se perdeu no tempo e nas banquinhas de cds dos festivais. Eu tenho a minha cópia e sou feliz. Espero que esses desgraçados tomem vergonha na cara e disponibilizem essa budega na íntegra na net. Se esse texto servir pelo menos pra isso, já cumpriu o dever!

Enfim… “Call 911”, “Robot turn off” e “Noisy neighbours” são a prova desse flerte.Imagine a trilha sonora de Blade runner versão mantra. É mais ou menos esse o clima dessas faixas. E como essas faixas representam quase metade do Seven lights, esse é também o clima do disco! “Blood” e “Robot turn on” são o bom e velho Red Boots que todo mundo já está acostumado a ouvir (só que naquela época era novidade, lembrem-se!).

O destaque, pra mim, fica com “Future shadows”, uma faixa que eu acredito nunca ter ouvido ao vivo (até porque tem umas trocentas guitarras em cima da linha de bateria marcadamente linear — e não, isso não é uma crítica), mas que considero uma das coisas mais inventivas e fuderosas que os Red Brocas já fizeram.

A música tem uma vinheta do caralho… e tem clima! Clima tipo disco conceitual. Esse é o grande quê do Seven lights: ele é conceitual. E isso só foi possível, como eu já disse antes, porque os caras levaram séculos pra poder ter a grana e a disposição pra investir nesse material. Ainda vale citar “Californian death snake”, que certamente está no meu top 5 canções dos Red Fronhas.

Foi esse clima de disco conceitual que eu, como fã, vi se perder com o lançamento do Aracnophilia. Não tiro o mérito do disco, não. Acho uma bolacha do caralho, quase impecável — se não fosse por “Viper”, que é claramente uma música pra fechar repertório. Mas, pô, os meninos tiverem praticamente uma semana entre o “ok, vamos gravar” do Dosol e o “ok, estamos gravando”. Pela pressão de lutar contra o tempo, foi sacrificada a ideia do conceitual (ao meu ver), mas a qualidade das composições não se perderam, felizmente.

Não tem muito o que dizer. O Aracnophilia é o Red Boots no auge. Pesado, sem firulas, com riffs incríveis, linhas de vocal pop magníficas (o grande mérito de Luan talvez tenha sido — e eu sei disso porque sou amigo dele — ter ouvido tudo que foi possível de música pop, de Madonna a Queens of the Stone Age. Isso deu a ele a capacidade de criar, dentro de um capetismo controlado, melodias que grudam nos seus miolos e só saem com muita água oxigenada e quilos de creolina) e uma qualidade de gravação e produção de encher os ouvidos.

Enfim, quanto ao disco, se você cospe fora “Viper” (e já começo aqui o procedimento “naked” da teoria), que não é ruim, mas não acompanha o ritmo das outras, você tem um disco perfeito. “The last”, “Suicide”, “Hunter”, “Tony’s joint” conquistam logo um espaço trevoso no coração satânico dos desavisados; mas as músicas pouco (ou talvez até nunca) tocadas ao vivo do disco são também um primor, uma becel: “Philos”, “Falling tree” e “Amnesia Strenght” são do caralho até a morte!

Resguardada a produção inegavelmente inferior, o Seven lights está no mesmo barco que o Aracnophilia: o primeiro é o prenúncio do outro; o outro é a continuação imediata e necessária do primeiro.

Um tempo depois do lançamento do Aracnophilia, já começaram a aparecer as músicas que iriam compor o disco novo dos Red Boots. Quem é putinha de palco dos caras, como eu, já vinha babando por “Detroyer” e “Crucify” bem antes de tocar o tal do [John] Void (opa!).

Ainda acho que “Destroyer” deveria ter somente um riff e se estender pesadamente no final, ficando cada vez mais ruidosa, até se tornar noise puro, esquema “I want you (she’s so heavy)” dos Beatles. Os efeitinhos finais de “Crucify” é que são as marcas da influência eletrônica do disco de que eu vinha falando, que fecham o ciclo da trilogia, conectando o Touch e o Seven. Essas duas músicas estão entre as melhores do disco novo, diga-se de passagem.

Sobre o Touch the void, sou obrigado a dizer: tive algumas decepções. Não sei se foi porque “Iguana eyes” e “Crucify” estabeleceram um padrão muito alto, ou se foi o fato de eu esperar sempre mais dessa dupla dinâmica, ou mesmo se foi porque eu ainda não tinha pensado na ideia da trilogia, mas o fato é que, depois de ouvir umas três vezes o disco eu comecei a perceber alguns padrões, que eu ainda não consegui decidir se são uma identidade da banda, ou, talvez, um pouco de comodismo nas composições. Também não sei se existiu novamente o fator “puta que pariu, uma semana pra compor” como foi com o Aracnophilia. Talvez tenha sido isso. Como “Destroyer” e “Crucify” são músicas mais velhas no repertório da banda, eu tendo a achar que elas levaram mais tempo para ficar marinando nas mãos e nas mentes doentias dos Boots, o que possivelmente fez com que essas duas canções se destacassem do resto do disco.

Mas vamos lá. Pegando o repertório eu diria: “Telekinizes” = su-su-su-su-su-su-suicide; “Iguana eyes”, porque você não voltou a cantar e entradinha ultra pop e linda, caralho (?!), ainda assim muito foda; “Soul in reverse”, puta introdução, refrão chatinho e repetitivo demais; “Crucify” nem voga mais falar; “Strange ways”, não só é o folkzinho denso diferente do disco, mas é uma das melhores composições, em termos de melodia da banda… Nick Cave feelings.

“Scorpion dance”: bom riff inicial, refrão wanna-be-rock-trevas demais; “The middleman”, sambinha de uma nota só (que está se tornando um padrão meio comodista… sabe quando o guitarra fica repetindo uma mesma nota pra cantar o verso e, quando termina o verso, ele muda de nota pra dar o efeito? Sambinha de uma nota só) que o refrão pop bacanudo quase não salva (eu trocaria o refrão de “Scorpion dance” pelo de “The middleman”, fazia uma música só e jogava fora o resto); “Apocalypse of animals”, apesar do nome fuderoso e da introdução criativa da batera com os silêncios, é bem mais ou menos e tem um refrão igualmente wanna-be-rock-trevas/wanna-have-satans-name-on-my-ass; daí vai pra “Find me nowhere”, figurando, na minha opinião, entre as melhores coisas que eles já gravaram ;“I spit on your grave”, essa sim um rockão de verdade, bruto e cru como “Blood”, e ainda com uma pitada meio 70 nos riffs finais (embora pudesse terminar um pouco mais cedo do que termina); “Destroyer”, no meu top 5 melhores dos Red Brocas; e “Drugs”, que é tudo o que “Viper” queria ser, mas não foi: simples, direta, dura, pesada, mas ainda assim com uma puta densidade e um clima colossal.

Essencialmente, eu acho que o Touch poderia ter sido pensado com um pouco mais de calma; algumas coisas poderiam ter voltado pra gaveta de ideias, pra serem trabalhadas de maneira mais interessante mais pra frente; outras poderiam ter sido melhor desenvolvidas; enfim…

Mas veja bem, com isso eu não estou dizendo que o Red Boots perdeu a mão nem nada. Num disco com doze músicas, eles só erraram o vaso, na minha opinião, quatro vezes. A prova de que os caras ainda tem muito fôlego pra arrotar uns dragões são as grandes composições que o Touch the void carrega consigo.

Eu não sei, mas eu tenho a impressão que esse disco foi um pouco influenciado por uma frase que eu já me acostumei a ouvir (e com a qual eu não concordo) quando o assunto é Red Boots: eles são melhores ao vivo do que no disco. Não acho isso nem a pau. Ao vivo é uma coisa, no disco é outra. Você pode até gravar uma faixa em que você repete o refrão duzentas e cinquenta mil vezes, mas isso nunca vai ter o apelo, a emoção, o calor, o suor e a catinga de cerveja que tem quando você está no pé do palco vendo isso ao vivo.

Da mesma forma, você dificilmente quer parar um show do Red Boots, cheio de noise e porrada pra escutar uma “Strange ways”. Embora eu curta muito a ideia, eu entendo que, num show dos garotos de Mossoró, a ideia é espancar e matar até sangrar. Por isso eu acho que, se no disco novo o Red Boots tivesse pensado mais como música para disco ao invés de versões em estúdio do som que faz ao vivo, as gravações seriam mais interessantes.

Vou repetir pra não ficar de cuzão: só digo isso porque respeito os caras, respeito o som dos caras e respeito tudo que a banda fez e pode ainda fazer, certamente!

Mas eu comecei falando sobre a ideia de uma trilogia de álbuns e da possibilidade de um futuro relançamento como disco de vinil duplo. Ah, eu ainda não tinha mencionado esse meu sonho de consumo? Sem bronca. Essa é a realidade: o que eu mais queria é que esses três primeiros discos fossem relançados no formato de um disco duplo — com as músicas reordenadas, o acréscimo de algumas vinhetas e o descarte de alguns sons que, na minha humilde e possivelmente odiada pela maioria opinião, não seguram a peteca se comparados a outros da mesma banda.

Mas não seria somente um disco duplo. Seria um disco duplo conceitual, cheio de ruídos, repleto dessa estética que lembra neandertais robotizados, gigantes colossais mastigando britadeiras; um disco que dançaria sempre entre o peso do peso, as melodias pop deliciosas e música eletrônica obscura; um puta discasso que somente o Red Boots seria capaz de lançar. Se esse disco — pensado, matutado, idealizado, refletido — fosse feito, eu acho que compraria pelo menos duas cópias: uma pra ouvir e outra só pra enquadrar e pôr na parede.

Me dando a liberdade que eu provavelmente não tenho, eu organizei a minha própria versão do disco. Segue o set!

Touch the void

1

  1. Call 911
  2. Suicide
  3. Blood
  4. Robot turn on
  5. Robot turn off
  6. Philos
  7. Hunter
  8. Californian death snake
  9. Tony’s joint
  10. Eletric storm
  11. Strange ways

2

  1. Destroyer
  2. The last
  3. Telekinizes
  4. Falling tree
  5. Iguana eyes
  6. Noisy neighbours
  7. Crucify
  8. I spit on your grave
  9. Amnesia strenght
  10. Find me nowhere
  11. Drugs
  12. Future shadows’

Eu sei, eu sei, não é uma ordem genial. Eu também sei que, se fossem os próprios Red Boots, com tempo, paciência, carinho e um punhado de substâncias pouco ortodoxas na cabeça, essa seria uma proposta muito mais interessante.

* Joaquim Dantas é baterista da Jubarte Ataca.

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