Novo Aeon, um dos melhores discos de Raul Seixas, é um quarentão enxuto

O Inimigo
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Aug 7 · 5 min read

Por Felipe Alecrim

Publicado em 28/05/2015

Raul Seixas teve uma grande importância para a música nacional como um todo. Inquieto e subversivo, conseguiu driblar até os sensores da ditadura, que por vezes não conseguiram achar as entrelinhas revolucionárias dentro de letras engenhosas do baiano. Um de seus melhores trabalhos, Novo Aeon se torna um quarentão em 2015. O disco guarda algumas das canções que com o tempo se tornaram clássicas, com letras que flutuam pelas angústias da infância de criação católica, a dualidade entre o diabo da música e o da Bíblia e a inconformidade com a vida em geral, desembocando na nova era.

Lançado em 1975, Novo Aeon, pagou o preço de ter vindo ao mundo pouco tempo depois de dois grandes sucessos comerciais do Maluco Beleza. Krig-Ha Bandolo! (1973) e Gita (1974), foram estouros de venda, com o segundo ultrapassando 600 mil cópias vendidas. Novo Aeon, à época de seu lançamento, vendeu pouco mais que 60 mil cópias, uma decepção para a gravadora.

O disco é fruto daquela que viria a ser a parceria mais conhecida de Raul Seixas. Paulo Coelho (que nessa época ainda não era o hipócrita que se tornou) era o guru do underground da época. Entretanto, Novo Aeon conta com outros parceiros como Cláudio Roberto e Marcelo Motta, além de Glória Vaquer, segunda mulher do cantor e sim, irmã de Jay Vaquer, que assina “Sunseed” sob o pseudônimo de Spacey Glow.

Aqui abro um parêntese. Apesar da parceria com Paulo Coelho ser a mais conhecida, Cláudio Roberto, ao longo do tempo se mostrou o parceiro musical mais valioso de Raul. Além de mais longevo no companheirismo, Cláudio não só interferia nas letras, como também nas composições, ao contrário de Paulo que era apenas escritor e muitas vezes precisava que Raul musicasse seus textos. Em Krig-Ha, bandolo!, por exemplo, o nome do “mago”, só aparece por incentivo. Participação efetiva mesmo ele só veio a ter em Gita. A influência de Cláudio Roberto poderia ser conferida com todo o peso no disco O Dia Em Que a Terra Parou de 1977, mas isso é assunto para outro texto…

Apesar do fracasso de vendas obtido à época do seu lançamento, Novo Aeon tornou-se o disco mais querido pelo próprio Raul Seixas em confissão feita a Marcelo Nova durante a composição de seu último disco, Panela do Diabo (1989). Ele também viria a ser um dos dois discos de Raul na lista dos 100 melhores da Rolling Stone brasileira, ao lado de Krig-Ha, Bandolo!, enquanto Gita não aparece nesta seleção, embora merecesse um lugar.

Considero Novo Aeon um dos melhores discos do Maluco Beleza, pois é um trabalho que traz temáticas e texturas diversas. Logo na abertura do disco, “Tente outra vez” convida aqueles que estão moribundos, derrotados, jogados ao vento, para buscarem um rumo, voltarem à luta, tudo sob a roupagem de uma balada.

Em seguida, “Rock do diabo” aparece para mostrar mais uma vez a influência que a música americana e Elvis Presley tiveram durante toda a vida do músico baiano. Vale ressaltar que esta música traz em sua letra a visão ocultista do capiroto. O trecho “Existem dois diabos/ Só que um parou na pista/ Um deles é do toque/ O outro é aquele do exorcista…”, expressa a discordância quanto à forma como o diabo é mostrado pelas religiões cristãs, enquanto no ocultismo ele é mostrado como sábio (“Enquanto Freud explica/ o diabo dá os toques”).

Terceira música do disco, “A maçã” mostra a visão de Raul Seixas sobre o amor livre, longe de amarras ou submissão. Quem já leu sobre a vida dele sabe que durante toda a sua vida Raul procurou uma mulher que não fosse submissa, fato que o fez abandonar, literalmente, várias companheiras, simplesmente por elas serem submissas a ele.

Também no disco está “Tu és o MDC da minha vida” e seu ritmo brega romântico, que remete a Reginaldo Rossi ou Odair José. Esta possui ainda uma das letras mais leves, mas não menos inteligente que as outras. O que falar dos versos “Eu me lembro/ Do dia em que você entrou num bode/ Quebrou minha vitrola e minha coleção/ De Pink Floyd”? Cômicos e inteligentes.

As angústias pessoais de Raul também aparecem desnudas. “Para noia” demonstra um pouco das marcas que a criação católica deixou na infância, em trechos como: “Minha mãe me disse há tempo atrás/ Onde você for Deus vai atrás/ Deus vê sempre tudo que cê faz/ Mas eu não via Deus/ Achava assombração, mas…/ Mas eu tinha medo!”.

Já “Verdade sobre a nostalgia” demonstra, durante toda a sua letra, a vontade de Raul em representar algo contra cultural e novo. Como quando ele diz não negar a beleza da poesia dos anos 50, fonte na qual ele mesmo havia bebido na época do “Raulzito e Os Panteras”, mas sente falta do sentimento dos anos setenta, em alusão ao fato de que seus pais já escutavam aquele som cinquentão. A mesma música denota a necessidade de um Raul adulto em se manter contra a corrente no trecho “Mamãe já ouve Beatles/ Papai já deslumbrou/ Com meu cabelo grande/ Eu fiquei contra o que eu já sou”.

A faixa título, “Novo Aeon” fecha o disco de forma magistral com o toque místico da obra. Cheia de mensagens nas entrelinhas, convida todos a perceberem a chegada de um novo tempo, a nova era. Cita ainda a “Mãe Serpente” entidade das religiões pagãs, que representa a cultura e sabedoria, chamando a todos para a busca do real conhecimento longe dos conceitos pré-fabricados e com novos comportamentos. Um atentado contra a ditadura.

Não que as demais músicas tenham temáticas menos interessantes. Este é um disco em que todas as canções possuem grande valor, o objetivo aqui não é uma análise música-a-música, mas sim lembrar sobre esta grande obra que completa 40 anos. Novo Aeon trouxe em suas músicas todos os questionamentos, angústias e conhecimentos pelos quais Raul havia flutuado até aquele momento de sua vida. Não só pelas letras, mas os arranjos também variam com o decorrer das músicas não sendo algo cansativo ou repetitivo, dentro da dualidade entre a grande admiração que o Raulzito sentia pelo rock americano e a mistura com ritmos brasileiros que acompanhou muitas de suas músicas durante sua carreira.

Novo Aeon é um disco que não pode ser esquecido.

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