Bate-papo com a academia

Dizem que a academia e o mercado de trabalho não conversam direito. Por quê? Vamos mudar isso?

Curitiba, 03 de abril de 2017. Segunda-feira de manhã. Em vez de dormir até umas 10h30, como sempre, lá estava eu acordadinho às 8h30 da madrugada, tomando um banho e me preparando para um compromisso muito, mas muito importante: participar de um bate-papo com a turma do segundo semestre das Letras - Inglês na UTFPR. Fui convidado pela professora Silvana Ayub, membro do nosso Coletivo Identidade, para conversar sobre tradução com os alunos dela.

Longe de mim puxar uma síndrome de impostor agora e dizer que eu não merecia estar ali porque não sou formado em Letras ou porque tenho “só” dois anos e pouco de experiência como tradutor. Não. A tradução é a profissão que eu escolhi, e, por mais difícil que seja, eu venho trabalhando duro, estudando, me aperfeiçoando e dividindo com a comunidade tradutória tudo que posso. Então, sim, foi um convite válido. Quando o convite surgiu, fiquei sorrindo de orelha a orelha com a oportunidade de poder participar desse bate-papo.

É claro que fui preparado. Os alunos mandaram de antemão várias perguntas e eu levei um material de apoio. Mas a ideia era que fosse uma conversa informal, orgânica, e foi assim que aconteceu. Eu fiz questão de sentar em uma mesa, para que tudo ficasse mais informal, e abrir a apresentação dizendo para os alunos interromperem, perguntarem, comentarem e falarem a qualquer momento. E foi maravilhoso.

Eu comecei contando minha história de como me tornei tradutor. Vocês já leram essa história, não? Não é bizarro contar para uma sala cheia de alunos das Letras que não é preciso estudar Letras para ser tradutor? Pois é. Mas felizmente ninguém desistiu do curso, porque o ponto principal não era esse. Era mostrar que cada tradutor trilha um caminho diferente, e que todos são válidos. Depois disso falei um pouco sobre prospecção, clientes, e os alunos começaram a se soltar e fazer todo tipo de pergunta sobre a carreira e o processo da tradução, sobre a localização de jogos, a legendagem e tudo mais.

E é por isso que estou escrevendo sobre isso hoje. Os alunos da academia nem sempre sabem como funciona o mercado de trabalho da tradução. Mas os alunos querem saber. É normal que eles não saibam, em geral são pessoas jovens, ainda começando nos estudos e com menos parâmetro dos vários mercados de trabalho que existem por aí. A academia funciona de um jeito diferente do mercado, porque a motivação dela não é o dinheiro, então ela acaba se preocupando mais com as teorias e os estudos da tradução. O que não é errado, é claro. Mas distancia a academia do mercado. Então, quando um aluno sai da academia, cai num mercado de trabalho competitivo e se sente perdido.

Parcialmente, acredito que é culpa nossa, dos profissionais que estão no mercado. A academia e o mercado precisam se aproximar mais, precisam conversar, e não é todo tradutor que se dispõe a abrir esse canal. E, parcialmente, acredito que os professores da academia também precisam abrir as portas para os profissionais do mercado. Não é todo professor que é como a Silvana Ayub que sempre tenta trazer os tradutores para conversar em sala de aula e organiza eventos como o EnTrad da UTFPR (o de Curitiba, não o nacional).

Precisamos de mais gente assim. Precisamos de mais portas abertas e mais tradutores entrando por elas para conversar com os alunos, porque a teoria é importante, e as noções de mercado também. Os alunos precisam saber que um tradutor precisa saber muito mais do que a teoria e o domínio das línguas.

Professores: convidem os tradutores para irem à academia. Nós vamos, nós não mordemos. Tradutores: tentem se aproximar da academia. Os alunos não mordem e estão interessados. Vamos puxar essa conversa?

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