Tradutor: a profissão desconhecida

Olá!

No fim de semana passado eu recebi a visita dos meus pais aqui na minha casa. Eles aproveitaram para passear, fizemos uma comidinha gostosa, tomamos um vinho e passamos o dia dos pais em família. E aproveitamos o ensejo para ir ao cartório na segunda-feira, eu precisava reconhecer uma procuração para o meu pai.

A parte boa é que a procuração estava pronta. Ele pegou um modelo, preencheu, e eu só precisava ir ao cartório reconhecer a assinatura.

A parte ruim é que a procuração dizia: “Eu, Thiago [nome do meio secreto] Hilger, profissão analista de sistemas…”

Lembram quando eu escrevi aqui no blog que me sentia saindo do armário, podendo olhar no espelho e dizer “sou tradutor”? Pois meu pai me colocou de volta no armário com essa história.

Isso me fez refletir o quanto a nossa profissão é desconhecida e/ou mal compreendida. Se meu próprio pai “esquece” que não sou mais analista de sistemas e sim tradutor, imagine o resto do mundo. Basta refletir a reação das pessoas que não são do meio quando alguém nos pergunta nossa profissão.

A primeira reação que eu ouvi sobre a profissão tradutor foi quando eu ainda trabalhava no meu antigo emprego. Quando comentei com alguns colegas que queria ser tradutor, um deles me perguntou se eu iria trabalhar com tradução juramentada. Foi o momento de eu explicar a ele como funciona a tradução juramentada, qual a diferença em relação à tradução técnica, literária, etc. Mas ao menos ele sabia que a tradução juramentada existe.

Outra reação comum é a pergunta: “Ah, você vai fazer tradução simultânea, como aquela do Oscar?”. Mais explicações, agora sobre a diferença entre tradução e interpretação. Mas ainda assim, um bom sinal, que a profissão de intérprete já é um pouquinho conhecida.

Sempre existem também aquelas pessoas que depois de muito tempo perguntam: “você ainda é tradutor?”. Só falta emendar “ou está trabalhando agora?”. Nós não somos tradutores temporários, a profissão exige tanto estudo, prática e jogo de cintura, que pode ter certeza que é uma escolha consciente.

O interessante é perceber quantas pessoas dizem: “nunca conheci nenhum tradutor”, me sinto um unicórnio quando isso acontece, e foram várias vezes. Mas foram situações interessantes, em geral as pessoas ficam curiosas pelo nosso trabalho, querem saber mais e no final soltam um “que legal!”. Essa é a parte boa, não é?

Mas e a procuração? Como já estava pronta, eu decidi não falar nada, nem reclamar com meu pai. Ainda mais quando se trata de cartórios, contratos, procurações, etc. Nunca se sabe se vamos ter que comprovar alguma coisa e eu não tenho nenhum registro, nenhum papel carimbado pelo governo dizendo que sou tradutor. Acho até que o motivo de meu pai ter escrito “analista de sistemas” pode ter sido esse.

Mas que essa história me fez refletir um pouco, ah, isso fez. Eu devia mesmo ter falado alguma coisa para o meu pai, dito que a profissão estava errada e mostrado o meu orgulho de ser tradutor a ele. Mas já passou. O que importa é que após entender que eu devia ter feito diferente, já estou fora do armário de novo. Eu sou tradutor sim e se não gostar vou ser duas vezes.

Até a próxima!

PS: Sábado vamos ter barcamp dos tradutores aqui em Curitiba. Quem quiser ir, é só preencher esse formulário e aparecer, todos são bem vindos. Depois eu conto como foi.

Publicado originalmente em 19 de agosto de 2015 em https://jogodatraducao.wordpress.com/2015/08/19/tradutor-a-profissao-desconhecida/