Para garantir jornalismo plural, abordagem de gênero precisará de estratégias claras

Contar com profissionais plurais, ter mais mulheres em cargos de liderança e produzir conteúdo com fontes e vozes de toda ordem são alguns dos principais desafios para o próximo ano

O próximo ano promete mais debates em torno de gênero nos discursos e nas práticas sociais. Nos próximos meses, em virtude do cenário político e cultural, o jornalismo circulará debates em torno da questão, mas também será desafiado, uma vez que entre caminhos de ruptura e manutenção, o jornalismo é uma prática ‘generificada’, isto é, ora constrói, ora apresenta, enquadra, apaga ou reforça as diferenças sexuais e de gênero.

Gênero se tornou uma palavra presente no vocabulário dos jornalistas e meios de imprensa. Tão comum que em 2018 foi possível presenciar o desenvolvimento de uma nova posição dentro das redações dos jornais — o editor de gênero. O New York Times e o El País foram os primeiros a criar a função, que é ocupada pelas jornalistas Jessica Bennett e Pilar Álvarez, respectivamente. Elas são responsáveis por planejar e melhorar a cobertura jornalística por meio de “lentes” de gênero.

O editor de gênero não é um produtor de conteúdo para um novo espaço editorial, mas alguém dentro da redação que se atém às narrativas, aos aspectos visuais, que observa quem está escrevendo, quem é fotografado, quem são as vozes frequentemente ouvidas e consultadas diariamente pelo jornalismo.

É alguém, dessa forma, capaz de perceber que o jornalismo é muitas vezes marcado por vozes masculinas, vozes que socialmente estão conectadas ao poder, seja ele político, econômico ou científico.

Pouco se percebe, mas é nas escolhas cotidianas que se produz o efeito de naturalidade a respeito da predominância masculina nos espaços de prestígio. O jornalismo, apesar da procura constante pela pluralidade, ainda conta com valores e sentidos com pouca margem para a diversidade.

Não se pode ter dúvidas que gênero é um ingrediente fundamental para compreender alguns valores e situações da cultura jornalística. Gênero constitui parte dos critérios jornalísticos do que é noticiável e da relevância social que determinados fatos angariam, visto que as diretrizes de pautas e as abordagens são orientadas por sentidos de notoriedade, proximidade e impacto social, questões que muitas vezes são marcadas por diferenciação e por desigualdades ligadas às relações de gênero. Dessa forma, gênero possibilita a leitura e a interpretação das desigualdades e mazelas da nossa sociedade.

Em 2019, o jornalismo brasileiro terá de dar uma resposta a essa realidade, mesmo em um cenário de enxugamento das equipes e de precariedade de trabalho. Os editores de gênero poderão ser adotados em nossas redações. Mas independentemente dessa nova posição, os principais veículos terão que se ater à perspectiva de gênero, seja no desafio de contar com profissionais plurais, com mais cargos de liderança geridos por mulheres ou no conteúdo produzido com fontes e vozes de toda ordem. Tudo isso, possivelmente, com estratégias e metas claras.

No Brasil, o jornal Zero Hora sinaliza para essa possibilidade de debate por meio de grupos de diversidade, que buscam apoiar uma cultura de respeito às diferenças e de promoção de igualdade de oportunidades para mulheres e colaboradores LGBT. Uma medida coletiva que não responsabiliza um único profissional pela mudança nas lógicas de atuação e de construção de conteúdo. Dessa forma, é uma possível solução que vai ao encontro da função de editor de gênero, mas com a devida adaptação à realidade do nosso jornalismo.

Assim como iniciativas de arranjos alternativos de jornalismo, como a Gênero e Número e o Nós, Mulheres da Periferia, também acionam o papel do jornalismo, talvez por meio de novos modelos de atuação, de narrar com equidade de gênero e sobre outras perspectivas. Um tipo de iniciativa que, no próximo ano, deve se fortalecer e influenciar outros veículos que não necessariamente cobrem a temática do mesmo modo.

É certo que o jornalismo não pode ser um registro exclusivo dos homens na atualidade. Ainda mais quando mulheres e pessoas LGBT, grupos não homogêneos e com as mais variadas diferenças, continuam desprovidos de muitos direitos e do reconhecimento igualitário. Se o jornalismo se preocupa com a categoria de pessoas excluídas e socialmente vulneráveis, é preciso ter um olhar para as dimensões de raça, gênero e sexualidade nas suas narrativas.

O agir coletivo desses grupos recentemente construiu fatos como o #MeToo, movimento global de denúncia dos episódios de assédio sexual e estupro, e o #EleNão, onda de protestos convocados pelas mulheres que, durante as eleições presidenciais de 2018, reuniu milhares de pessoas contra a candidatura de Jair Bolsonaro — a campanha do capitão reformado foi marcada pelo desrespeito aos direitos humanos e pelo tom contra a igualdade de gênero e a diversidade sexual.

Aliás, com o novo presidente da República, as ações coletivas das mulheres e das LGBT vão merecer grande atenção do jornalismo no próximo ano, já que farão pressão frente às decisões políticas do novo governo. Haverá, portanto, ainda mais alianças e atuações públicas protagonizadas por esses grupos, e o jornalismo precisará estar atento a isso.

Fica também para 2019, a partir da experiência do período eleitoral, uma grande responsabilidade, para os profissionais de jornalismo, de monitorar e reportar as violações que possam se agravar e afetar com mais afinco essas comunidades, o que incluirá as tentativas de censura aos debates de gênero e de cerceamento dos professores e dos pesquisadores que lidam com tais grupos sociais e temas.

É importante ainda destacar que a sexualidade e o gênero estiveram no centro da maioria das notícias falsas que circularam nos aplicativos de mensagens e nas redes sociais por mexerem facilmente com convicções religiosas, tensões morais e liberdades civis.

As expressões "kit gay" e "ideologia de gênero" voltaram a ser difundidas com prejuízo ao debate público sobre discriminação e falta de direitos igualitários para a população LGBT. A tendência é que a retórica do presidente eleito siga fazendo uso dessas expressões.

O olhar atento e capacitado de jornalistas para as questões de gênero pode contribuir para o combate às distorções das informações sabidamente inverídicas ou difamatórias, mas que afetam, mais emocional do que racionalmente, a opinião pública. Capacidade crítica que é desenvolvida a partir do empenho individual e coletivo, na atuação jornalística, em enunciar as experiências de diferença que são vigiadas e punidas, das vidas com menos dignidade humana em nossa sociedade, assim como pela habilidade de pôr em xeque as práticas jornalísticas hegemônicas que assentam o nosso olhar sobre essas vidas.

É o caso, em relação às vidas das pessoas trans, do livro de repórter de Fabiana Moraes, O Nascimento de Joicy (2015, Arquipélago Editorial), e dos especiais O desafio da TRANSformação (2018, AFP para o UOL) e Transexuais no Brasil: uma luta por identidade (2018, Correio Braziliense). Iniciativas recentes, de autoria individual ou coletiva, produzidas por diferentes meios jornalísticos, que despoluem as percepções do senso comum sobre as pessoas trans. São narrativas que de certa forma se tornam um importante aliado contra os discursos político-religiosos antigênero.

Para 2019, já é possível dizer que, sim, teremos que falar ainda mais de gênero. O que está em jogo é como abordaremos as temáticas e fatos que brotarem, e quem estará preparado para os desafios e a complexidade que a questão impõe.

Não se trata de acabar com o espaço dos homens no jornalismo. Trata-se, sim, de entender que, dado o grande número de conteúdos jornalísticos publicados regularmente, ter apenas enfoques e representações masculinas, indica que falhamos na missão profissional de prezar pela visibilidade pública de múltiplas vozes e de múltiplos sentidos.

A boa notícia é que as novas gerações de jornalistas pensam com propriedade nessas questões e desafiam os modos de produção jornalística dentro das escolas de comunicação. Em breve, elas e eles estarão possivelmente também desafiando as práticas no mercado de trabalho. Portanto, espera-se que, em 2019, possamos ver não apenas a consolidação de conquistas recentes, mas também que o jornalismo avance tanto no acréscimo de vozes que tradicionalmente não estão nos discursos jornalísticos, quanto na abordagem das questões de gênero, de modo a criar novas posturas e práticas profissionais.


Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2019. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.