Combate à desinformação exigirá jornalismo mais transparente e atento a ativistas e plataformas digitais

Seguir expondo o problema não será o suficiente: será preciso fiscalizar políticas públicas e ativistas digitais, e não só com conteúdo de qualidade, mas de maneira aberta e transparente

O Brasil de 2019 será em parte resultado de um sistema que se rompeu. A ideia de formação da opinião com base em informação de qualidade está cada vez mais distante, e o que temos, como se viu mais nitidamente em 2018, é uma realidade em que a opinião transita de modo independente e numa velocidade que a informação já não é capaz de acompanhar. Nessa corrida, a opinião tem chegado antes.

O ambiente informativo está se deteriorando por uma série de razões. O espaço político está muito polarizado, a informação flui por canais que já não são mediados e o nível de confiança na mídia tradicional é baixo. Isso nos leva a um ecossistema que se realimenta com desinformação, o que influencia de modo drástico as nossas opiniões e, claro, as nossas decisões.

Bandeiras e causas que emergiram dos movimentos de 2013 — somadas a uma diversidade de outras surgidas na sequência — encontraram nas redes espaços de ativismo facilmente configuráveis e que foram ganhando adeptos e intensificando o fluxo de conversações. O espaço público digital está densamente povoado.

Esse espaço público que parece diverso visto a distância, num olhar mais próximo se mostra nitidamente homogêneo. No detalhe, veem-se microambientes muito segmentados, que atraem seus frequentadores por interesses comuns, bolhas com paredes cada vez mais espessas e, portanto, mais imunes ao ar exterior. Muitas dessas bolhas foram infectadas pela desinformação na campanha eleitoral em 2018, e o isolamento da realidade exterior vem realimentando a desinformação, possibilitando que o ambiente vá se deteriorar ainda mais em 2019.

A proximidade propiciada pelos ambientes das bolhas cria relações de confiança e campos de influência. No Brasil, o índice de confiança nas pessoas próximas medido pelo Trust Barometer é de 70%, enquanto em jornalistas é de 47%. E dois em cada três brasileiros já não sabem distinguir o bom jornalismo de boatos e mentiras. Está claro que o jornalismo precisa reagir.

Mas o jornalismo tem seus problemas particulares a resolver. Por alguns anos descuidou-se da qualidade, deixou-se levar excessivamente pelo viés declaratório, reduziu a capacidade de fazer apurações próprias e se rendeu à lógica caça-clique. A fuga da publicidade, no entanto, empurrou as empresas de comunicação de volta para o assinante e acionou o alerta: é preciso entregar mais para poder cobrar pelo conteúdo.

A dependência da rentabilização do conteúdo, por sua vez, construiu um muro entre meios de comunicação e leitores. O paywall passou a ser mais agressivo e muitos dos veículos já publicam conteúdos analíticos e de opinião exclusivamente para assinantes. O conteúdo fechado pode ter melhorado de qualidade, mas chega a poucos e tem cada vez menos força para deter o devastador alcance da desinformação que circula pelas redes sociais. Nas eleições de 2018, enquanto a desinformação fluía livremente ou impulsionada, uma boa parte do conteúdo analítico estava indisponível para a grande maioria da população. Para combater a desinformação, precisamos de bom jornalismo, mas também de um jornalismo aberto.

É certo que, para chegar antes, a boa informação vai precisar de anabolizantes. E esse tratamento precisa da participação da sociedade. O jornalismo é só uma parte da solução, ele não irá resolver sozinho o problema; a sociedade precisa escolher qual ambiente informativo quer ter. Se a opção for por um ambiente saudável, ela precisa entender que o jornalismo independente, de qualidade, tem um custo. E que esse custo é baixo para o resultado que proporciona.

A geração e a distribuição da informação, no entanto, não dependem somente dos meios de comunicação. Se cada pessoa é um potencial criador de conteúdo, se cada indivíduo e cada instituição são também meios de distribuição, é necessário que as pessoas sejam orientadas para as questões éticas e para a responsabilidade pelo que se cria e distribui.

No longo prazo, a esperança é que uma educação midiática aplicada na escola possa preparar os novos cidadãos para identificar fontes confiáveis, decodificar as armadilhas dos boatos e conscientizá-los para a responsabilidade pelo conteúdo que cada um vai produzir e compartilhar.

Isso é urgente, mas vai levar ainda algumas gerações para que tenhamos uma sociedade mais consciente e mais preparada para lidar com a explosão de conteúdos que hoje estão na nossa órbita.

No curto prazo, é importante que o problema seja incessantemente exposto. Durante a campanha eleitoral de 2018, a soma de organizações e meios de comunicação chamando atenção para boatos e mentiras, levando conteúdos verificados diariamente para milhões de pessoas, fez com que o tema da desinformação permanecesse no debate público. É uma ilusão, no entanto, pensar que isso foi suficiente para contê-la.

Em 2019, o jornalismo deve estar de prontidão. Será preciso fiscalizar as políticas públicas e a atuação do poder, mas, sobretudo o ativismo digital e a sua capacidade de influência. Durante o período eleitoral, as agências de checagem e as iniciativas de verificação tiveram sucesso na identificação de conteúdos enganosos que emergiram das redes, mas o trabalho não foi completo. O jornalismo deverá ir além para investigar e identificar autores e financiadores das redes de mentiras. É preciso levar a público quem cria e quem se beneficia da desinformação.

O ativismo que se viu na campanha eleitoral continuará empunhando suas bandeiras e cerrando fileiras para pressionar as instituições em favor de suas causas. É de se esperar uma pressão por urgência nas implementações de projetos por parte dos vencedores e de resistência pelos vencidos, num jogo de forças que vai se expressar pelos canais digitais e pelos aplicativos de mensagens. E também nas batalhas digitais, a verdade é a primeira a ser ferida.

O ambiente fértil para a desinformação se mantém, o labirinto social por onde circulam e se multiplicam os boatos conta com uma infinidade de caminhos e saídas, e é impossível interceptá-los todos. O desafio imediato não é a eliminação da desinformação, o que parece um horizonte ainda impossível de visualizar, mas a sua contenção. Para isso, em 2019, é imperativo que os meios de comunicação mantenham operantes as suas equipes de checagem e se alistem ao lado dos cidadãos numa luta por mais transparência.

A sociedade precisa enxergar com clareza e nitidez o que se passa na administração pública, nas empresas, mas também nas plataformas digitais. Os olhos do jornalismo, que fiscalizam o poder, precisam ampliar o campo visual para incluir as plataformas digitais e os novos atores que exercem poder de influência nesses ambientes.

Ser mais transparente, como já são as agências de fact-checking, também é uma prescrição necessária para um jornalismo mais saudável. Apresentar ao público mais claramente os princípios editoriais e os valores que norteiam a publicação, as metodologias usadas para apuração, divulgar amplamente os critérios editoriais e explicitar como o veículo se financia são maneiras de construir um novo contrato de confiança com a sociedade.

Para enfrentar a desinformação, o jornalismo necessita de qualidade e independência, mas precisa, como nunca, ser transparente e aberto.


Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2019. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.