Em 2019, o fact-checking vai precisar se “abrasileirar” para seguir relevante

Incorporar fact-checking no jornalismo diário, adotar o letramento midiático e apostar em novos formatos podem ser alternativas para encarar o cenário nacional de desinformação

Diante da escalada da desinformação em processos eleitorais ao redor do mundo, era esperado que a proliferação de conteúdos enganosos na rede pudesse ter algum impacto no Brasil em 2018. Brasileiros só perdem para tailandeses e filipinos em tempo gasto nas redes sociais, praticamente 95% dos acessos à internet são via celular — e quase sempre para trocar mensagens de texto, voz ou imagens por aplicativos.

As principais medidas de contenção vieram na forma de legislações restritivas à propaganda impulsionada em plataformas digitais e pela criação de iniciativas de fact-checking. A parceria do Facebook com agências de checagem, a coalizão de veículos no projeto Comprova e o surgimento de novas instâncias de verificação ilustram como a checagem de fatos se converteu na principal aposta do jornalismo para (tentar) responder à desinformação. Mas não foi suficiente para desmentir, nem muito menos frear, o compartilhamento de boatos pelo WhatsApp. O uso do aplicativo criou uma espécie de “desinformação à brasileira”. Em 2019, para se firmar como uma resposta a este fenômeno, o fact-checking também vai precisar se “abrasileirar”.

Ao analisar casos paradigmáticos, como o Brexit e as eleições estadunidenses, e transpor seus desdobramentos para o Brasil, esquecemos de considerar a nossa realidade. No congresso da Abraji 2018, Jason Reifler, um dos principais pesquisadores do tema, disse ser difícil afirmar que conteúdos fraudulentos foram decisivos na eleição de Donald Trump, pois uma parte significativa do eleitorado tinha uma “dieta midiática” diversificada, na qual “fake news” eram apenas um dos ingredientes. Não se pode dizer o mesmo sobre a dieta midiática do brasileiro médio.

Por aqui, metade dos usuários de internet acessam a rede unicamente via celular e 60% dos planos de telefonia móvel são da modalidade pré-paga — cuja oferta de redes sociais ilimitadas é destaque em qualquer propaganda. Somados, chegam a 57% os usuários que têm WhatsApp e aplicativos de mensagem com os que preferem redes sociais, como Twitter e Facebook, como principal fonte de notícias. Assinaturas de 33 jornais digitais monitorados pelo IVC somam, ao todo, cerca de 800 mil, e 70% dos brasileiros com televisor em casa só têm TV aberta. Além disso, quase 30% da população têm dificuldades para interpretar textos e identificar ironias. Estabelecer nexos entre fatos e contextos é uma realidade distante para muitos brasileiros, inclusive com diploma universitário — 4% dos analfabetos funcionais estão no ensino superior.

Estrategistas de campanha foram perspicazes para penetrar esse público, que está à margem da imprensa no Brasil. Com procedimentos inspirados no método científico, exaltando a verdade factual em um ambiente povoado por pós-verdades, o fact-checking não furou essa bolha nas eleições. Mas tem indicado boas perspectivas para se afirmar como uma prática necessária, em diálogo com os princípios éticos da profissão. Em cima disso, eu arriscaria três apostas para 2019:

1. Adotar práticas de checagem de fatos no jornalismo diário

Desde que comecei a estudar fact-checking no doutorado, me pareceu evidente que os protocolos de checagem deveriam ser incorporados a todos os gêneros jornalísticos. Tenho repetido isso em cursos, palestras e entrevistas há tempos, e o jornalista e professor Marcelo Träsel contribuiu brilhantemente com esse tópico em um texto recente. Ele problematiza a forma como diferentes veículos noticiaram o equívoco do presidente eleito com relação ao método de cálculo do desemprego pelo IBGE e diz que seria ideal salientar a desinformação na origem.

Outro elemento definidor do fact-checking a ser incorporado pelo jornalismo diário é a transparência, pelo menos, em relação às fontes, por exemplo, indicando com hiperlinks os materiais de consulta disponíveis na rede.

2. Investir em ações de letramento midiático

Ao revelar seus processos de apuração, o fact-checking torna-se naturalmente “educativo” sobre como o jornalismo funciona, mas é preciso ir além. Se temos 30% de brasileiros que não conseguem interpretar um texto, até mesmo a discussão sobre os selos perde importância. Dar contexto às informações é uma das principais contribuições dos checadores ao debate público, mas em um país que se “informa” principalmente por aplicativos de mensagem e redes sociais, esse não parece um produto tão valioso.

Encabeçar ações de educação digital, incluindo lições de checagem para iniciantes, em parceria com escolas, movimentos sociais e organizações não-governamentais pode ser estratégico para agências de checagem no intuito de formar uma audiência mais qualificada. A inteligência artificial é outra aliada nesse quesito, como apontou Tai Nalon, do Aos Fatos, em um artigo recente.

3. Diversificar os formatos e os canais de distribuição

Talvez abandonar os selos não seja uma medida adequada quando se pensa uma comunicação mais inteligível para uma audiência menos preparada. Simplificar a classificação é uma alternativa. Também é possível tornar a apresentação das checagens mais amigável. O “textão” cheio de hiperlinks é pouco convidativo para quem não tem um hábito de leitura mais desenvolvido ou que raciona os acessos para não extrapolar o plano de dados.

Imagens, vídeos curtos e podcasts podem ser mais utilizados pelos checadores e são potencialmente mais eficientes para penetrar o WhatsApp. É claro que, nesse quesito em especial, esbarramos em restrições de distribuição de conteúdo no aplicativo, que não parece estar muito interessado nessa conversa. Uma desastrada reunião no TSE a poucos dias do segundo turno resultou em um manifesto assinado por iniciativas de checagem de fatos cobrando medidas, sem muito resultado concreto até agora. E esperar por algum incentivo do novo governo a quaisquer dessas medidas também é ilusão.

Como nada indica que as redes de desinformação que atuaram especialmente durante as eleições deste ano serão desarticuladas, pelo contrário, para se fazer fact-checking no Brasil em 2019 será necessário deixar de fazê-lo nos moldes atuais. Evidências de verdade não serão eficientes para desconstruir pós-verdades só porque os jornalistas querem. Será preciso rever estratégias. Nesse sentido, “abrasileirar” o fact-checking significa dar um passo atrás: atuar não como “árbitros” da verdade, mas como facilitadores do conhecimento. Em resumo, para que nossos conteúdos sejam reconhecidos, precisamos primeiro formar audiências. Isso leva tempo, mas precisa ser feito. E 2019 é um bom ano para que o fact-checking comece a trilhar esse caminho.


Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2019. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.