Jornalismo na Amazônia precisa combater subserviência que normatiza devastação

Abraçar a complexidade da identidade amazônica, deixando de lado estereótipos e chavões, será fundamental para expor os danos causados por uma agenda que ameaça a floresta

O momento político atual projeta um desafio sem precedentes na cobertura jornalística do país a partir de 2019. Testemunhamos e vivenciamos em 2018 um processo eleitoral em que jornalistas foram insultados e hostilizados por eleitores e candidatos, e o horizonte próximo não é dos mais amenos.

Algo similar pode acontecer na Amazônia, uma região onde a imprensa livre e crítica ainda sofre forte pressão das oligarquias políticas e é intimidada por interesses do poder econômico e seus apoiadores.

A partir do próximo ano, a liberdade de expressão, sem amarras e sem restrições, mais do que nunca estará nas mãos do jornalismo independente. Mas infelizmente são poucas as iniciativas dessa natureza na Amazônia, e as que estão em atuação sofrem com uma estrutura pequena para uma região que exige custos administrativos e de logística altíssimos para viabilizar reportagens.

Na grande imprensa, o controle das informações sempre esteve, em muitos casos, nas mãos de políticos. Para os próximos anos não será diferente.

No Amazonas, o novo governador, Wilson Lima (PSC), um apresentador de televisão sem experiência em mandato político, venceu uma das maiores legendas da oligarquia política do Estado, Amazonino Mendes (PDT). Ambos apoiaram Jair Bolsonaro para a presidência da República. Wilson Lima, embora não seja proprietário de emissora de televisão, tem como alicerce o maior grupo de comunicação do Estado, a Rede Calderaro de Comunicação, dona da afiliada da TV Record, da qual ele era funcionário, e formada também por emissora de rádio, jornal impresso e portal online.

No Pará, Helder Barbalho (MDB) foi eleito governador, perpetuando no poder a herança política de seu pai, o senador reeleito Jader Barbalho. A família Barbalho é dona do grupo Brasil Amazônia de Comunicação, formada pelo jornal Diário do Pará, Diário Online e de uma emissora de TV afiliada da Band.

No âmbito nacional, a Amazônia é um alvo certo das pretensões do presidente eleito Jair Bolsonaro, que não se cansa de reproduzir estereótipos e desconhecimento (talvez proposital) sobre a região, citando perigos fantasiosos e conspiratórios contra a soberania do país.

O novo presidente do país não esconde sua agenda ameaçadora para a proteção da floresta. Não é à toa que sua eleição foi comemorada com entusiasmo pelos segmentos que dominam a economia ruralista baseada no agronegócio, na pecuária, no setor madeireiro e na mineração. Ele também tem promessas de ampliar obras de hidrelétricas, construir rodovias para o transporte de soja, e anunciou que vai afrouxar os processos de licenciamento ambiental. Quer combater terras indígenas e áreas protegidas. Tudo isso conectado com os planos dos governos estaduais e fortemente apoiado por um Congresso Nacional conservador.

Tais propostas possuem potencial para impactar o meio ambiente e as populações mais marginalizadas, especialmente os povos indígenas. Frente a desafios tão grandiosos, o jornalismo produzido na Amazônia e sobre a Amazônia precisa superar a subserviência a que se acostumou ao longo dos anos. O grande impasse é como fazer isso de dentro de uma redação que pertence a um poder político que também comanda o poder econômico.

As empresas jornalísticas dos grandes meios de comunicação regionais e locais costumam reproduzir em seu conteúdo a lógica de mercado de raiz colonial. Subscrevem a um capitalismo propagado há pelo menos sete décadas e potencializado pelo modelo econômico iniciado durante a ditadura militar, que destruiu florestas e dizimou povos indígenas.

Não é exagero dizer que o conceito de desenvolvimento excludente é que tem sido o norteador de quem opera o jornalismo na Amazônia e de quem mantém o privilégio do controle da informação. Ao ser produzido, é um conteúdo jornalístico que normatiza a devastação ambiental e naturaliza a violação de direitos humanos em nome do “desenvolvimento” para os cidadãos que consomem essas informações.

Isso gera uma imposição cultural a grupos que possuem suas próprias formas de viver. Alimenta nessas populações a ilusão de um progresso com base no mercado que não chegará a elas.

É necessário que os jornalistas (sejam os locais ou os que se deslocam temporariamente para reportagens) assimilem que a identidade amazônica é complexa e que a região possui modos de vida que precisam ser compreendidos de acordo com cada ambiente visitado, cada personagem ouvido e cada história relatada. Mais do que nunca, essas populações precisarão ter o espaço que merecem e necessitam nas coberturas jornalísticas em 2019.

É preciso também se desapegar de indicadores que muitas vezes não retratam a realidade. É difícil para certos jornalistas observarem que o bem-estar de muitas populações amazônicas (especialmente as que não estão nas áreas urbanas) vai além da satisfação econômica baseada nos parâmetros ocidentais. Que a educação, a saúde, o saneamento, o lazer, etc, são direitos básicos de cidadania independentemente do patrimônio cumulativo de bens materiais. Que essas populações possuem seus próprios saberes e conhecimento sobre sustentabilidade.

A cobertura jornalística da região amazônica em 2019 passa, por fim, pela necessidade de se desfazer de estereótipos e eliminar chavões preconceituosos ao se referir à Amazônia: grotões, rincões, interior do Brasil, Brasil profundo, Brasil distante, etc.

Caberá também às iniciativas jornalísticas independentes, nascidas nos últimos anos aproveitando o terreno fértil da internet e dos avanços tecnológicos, contribuir para quebrar a hegemonia da informação e impedir o avanço da cruzada intimidatória contra jornalistas.

Incluo neste processo a agência Amazônia Real, pioneira no jornalismo independente na região, com sede em Manaus, fundada por mim e pela jornalista Kátia Brasil, com o objetivo de dar voz e visibilidade às populações amazônicas e suas histórias. Claro que não precisamos negar a existência de conflitos. A influência colonial e capitalista deixou fortes impactos. Mas há muitos grupos que rompem com esse modelo predatório. São eles que sairão para o enfrentamento, se for necessário, e precisarão de visibilidade.

Em cinco anos de existência, a Amazônia Real tornou-se referência em jornalismo investigativo, denso e aprofundado na região e tem construído uma proximidade com populações que antes eram apenas coadjuvantes das narrativas jornalísticas.

Na região Amazônica, outro exemplo de resistência de jornalismo combativo é O Jornal Pessoal (impresso), criado e produzido sozinho por Lúcio Flávio Pinto, que também faz parte da equipe da Amazônia Real, com uma seção especial, onde ele escreve semanalmente. Na mesma linha investigava do jornalismo socioambiental e agrário, embora com sede em outras regiões, estão o site De Olho nos Ruralistas, o InfoAmazônia, a Repórter Brasil, e outros projetos que começam a surgir.

Para 2019, temos um pensamento realista. Ao mesmo tempo em que a internet abre um campo infinito de possibilidades no jornalismo e na viabilização de pautas, corremos risco de ter esse potencial restringido — esperamos que não. Daí a nossa persistência em lutar por um jornalismo livre, democrático e seguro para os próximos anos.


Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2019. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.

O jornalismo no Brasil em 2019

A convite do Farol Jornalismo e da Abraji, jornalistas e pesquisadores brasileiros projetam a profissão para o novo ano.

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Elaíze Farias

Written by

Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). É cofundadora da Agência de Jornalismo Independente e Investigativo Amazônia Real.

O jornalismo no Brasil em 2019

A convite do Farol Jornalismo e da Abraji, jornalistas e pesquisadores brasileiros projetam a profissão para o novo ano.